Três corações
Carminha Nunes

Ilustração: Dreamstime

Conheci Ricardo ainda no primário. Franzino, tímido, filho de uma costureira amiga de minha mãe. Raramente conversávamos. Durante a aula, ele me observava o tempo todo. Seus olhos pequenos e brilhantes me fitavam com interesse. Eu retribuía com um sorriso discreto, porém verdadeiro. Mas ficávamos nisto.

Somente no colegial fomos além dos olhares e chegamos a um diálogo. “Essa prova foi difícil, né, Paula?”, comentou um dia. Eu fiquei feliz por ele ter puxado papo. Conversamos por três horas. Ricardo me falou sobre sua família libanesa, sua paixão por futebol e sua mania de roer as unhas. Contei a respeito das aulas de piano, da minha vontade de prestar medicina e do desejo de ser mãe. Ignoramos as aulas do dia para nos conhecermos melhor.

“Por que você nunca falou comigo?”, perguntei, enquanto ele me oferecia seu refrigerante. Ele quase engasgou. Eu havia feito a pergunta mais complicada daquela manhã. “Por timidez”, contou, com o rosto ruborizado. Acreditei em sua resposta e o incentivei a falar mais. Aos poucos, nos tornamos amigos.

“Paula, você tem namorado?”, murmurou, de repente, quase não conseguindo pronunciar as palavras de tanta vergonha. Desta vez, quem ficou vermelha fui eu: estava sem paquerar há muito tempo e não queria passar a imagem de uma moça encalhada. Resolvi mentir. “Desmanchei há um mês. O cara era meio devagar”, brinquei. Ele sorriu e pareceu acreditar.

Na hora do almoço, Ricardo quis me levar para casa. Sentei-me na garupa de sua moto e indiquei o caminho. Agarrada à cintura dele, sentia o vento fresco tocar meu rosto. Era um sopro de vida que me trazia uma vontade imensa de tentar algo novo no amor. Algo com Ricardo.

Enquanto ele dava voltas com a moto para que demorássemos o máximo possível, eu apertava meu corpo contra suas costas. Sentia o cheiro da colônia cítrica invadir minhas narinas, numa ebulição de hormônios e desejos reprimidos por tantos e tantos anos. Aquele rapaz tímido, que crescera ao meu lado sem nunca ter sequer falado comigo, agora estava ali, com o corpo coladinho ao meu.

Quando desci da moto, me despedi com um beijo no rosto, embora minha vontade fosse tascar um beijo de língua nele. Ele mexia sexualmente comigo. Ele mexia sentimentalmente comigo. Um vulcão de passionalidade explodiu dentro de mim, tornando quase inevitável que eu me apaixonasse. Demorou apenas dois anos para que nos casássemos. E para que eu descobrisse que eu não era a única em seus pensamentos.

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