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Noitada a três

Ana é ex-namorada de Gonzáles, que é amigo de Cito. Os três estão na sala bebendo e ouvindo música, desejando que aquela noite fique na lembrança como a mais ousada da história. E conseguem, como mostra o livro "Todo Terrorista é Sentimental"

Publicado em 26/06/2012

Edição: MdeMulher

Sexo a três

A história abaixo quebra o tabu de que uma noitada a três é só sacanagem
Foto: Getty Images

Ana estava desorientada e sem sutiã - o que me desorientou por alguns segundos - olhando fixamente pro vazio do Atlântico nas pedras do Arpoador. Me aproximei devagar, sentei ao seu lado e, sem dizer palavra, esbocei um doce sorriso de cumplicidade, permitido ao restrito universo de amigos. Ela me respondeu com o mesmo sorriso e voltou a contemplar o mar. Permanecemos em silêncio por alguns minutos.
    
Matamos quatro garrafas de vinho ao som de um grupo pernambucano chamado Mundo Livre S.A. As letras me pareceram incríveis e arrisquei dizer que a banda era inclusive melhor que Chico Science e Nação Zumbi. Fui prontamente contestado por Gonzáles, mas sustentei minha opinião até hoje. Ana dançava, imitava o Iggy Pop empunhando a garrafa de vinho como um microfone, esfregava seu peito na nossa cara. Gonzáles jogava fumaça pela janela e imitava Fidel Castro em pose de estadista. Eu estava excitado e sem camisa.

Brindamos umas duzentas vezes. Após seis garrafas de vinho, Ana não conseguia ficar de pé. Estávamos embalados ao som de Mutantes na nossa pista de dança imaginária, quando Ana subitamente trocou a música. Escolheu o segundo disco de Barão Vermelho, e ao começar os primeiros acordes, ela já estava entre mim e Gonzáles: "Dance / eu quero ver você em transe / dance / eu quero que você me alcance / na hora h / Me gritar, pedindo, deixando / bicho humano uivando". Ana tirou a blusa suada e me empurrou para trás dela ao mesmo tempo que encaixou o quadril em Gonzáles, à frente. Meu amigo tirou a camisa; Ana deu um longo gole na garrafa de vinho e beijou Gonzáles com força; os dois caíram no chão. Ana me puxou pelo pescoço e a beijei com desejo, muito desejo. Joguei minha camisa em cima do sofá, e Ana alternava freneticamente os beijos entre nós dois; estávamos loucos, extasiados, bêbados, extraordinários.

Fomos pro quarto. Primeiro, Ana pediu delicadeza e que deixasse a luz apagada. Gonzáles deixou somente a tênue luz do abajur acesa; beijamos Ana demoradamente como três jovens descobrindo o amor, e sentíamos nossa respiração ficando cada vez mais acelerada. Ela começou a fazer sexo oral em Gonzáles ao mesmo tempo que acariciava meu rosto; depois pediu que meu amigo lhe  tirasse a calcinha e que lhe tocasse o clitóris devagar; "Bem aqui", sussurrou. Meu amigo obedeceu morosamente, com extremo cuidado, enquanto ela deslizava sua língua na minha pélvis, até chegar ao meu pau. Gonzáles aumentou o ritmo de suas mãos e Ana respondeu me chupando com força. Não acreditava que Ana me chupava, não podia crer que seu cérebro estivesse ordenando que me chupasse. Seguimos assim por alguns minutos e minha cabeça girava, os pensamentos desordenados. Ana pediu que Gonzáles a penetrasse por trás enquanto meu peito servia de apoio. Meu amigo a penetrou com força e ela repousou a cabeça no meu ombro, gemendo baixo enquanto eu limpava o suor de seu rosto com minha língua e a beijava na testa, na boca, no pescoço. Uma experiência comovente, pura, de amor explícito entre amigos. Continuamos com Ana em cima de mim, agora gritando mais alto enquanto masturbava Gonzáles com a mão direita. E assim ficamos até o dia nascer, jogados na cama, abraçados, reinventando a via até onde alcançássemos, cansados de tanta hipocrisia.

A orgia vence o medo. Ana levantou mais cedo, acometida por um extremo bom humor - estava com o cabelo molhado, recém-saída do banho, e vestia um jeans branco com uma camisa Hering justíssima: linda. Já havia ido à padaria e comprado três croissants recheados com queijo de cabra, nossos preferidos. Como se não bastasse, devia ter procurado minuciosamente um disco esquecido do quinteto Villa-Lobos entre as estantes. Gonzáles se levantou desnudo e circulou um bom tempo pela casa tentando encontrar uma toalha. Da cama, eu podia ver cuidadosamente a mesa posta por ela: três xícaras ao lado dos talheres, uma rosa branca no meio e duas cestas de pães. Sentamos os três e, se não fosse pelo estalinho de agradecimento que cada um de nós deu na boca de Ana, eu jurava pelo comportamento cortês e a etiqueta que estávamos em um castelo inglês do século XVII.