A princesa da laje - conto de Amor e Sexo

Amanda tem dois passatempos preferidos: um é tomar sol na laje e fofocar com as amigas a respeito dos acontecimentos da favela. O outro é paquerar Maninho

Publicado em 20/12/2010

Carminha Nunes

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Destaque da Matéria

Amanda e as amigas adoravam quando elogiavam suas marquinhas de sol
Foto: Getty Images

Finalmente a manhã de sábado havia chegado. Esperava a semana toda por aquele dia, rezando para que ele fosse bem ensolarado e quente. Eu e minhas duas melhores amigas, Cida e Raniely, estendemos nossas toalhas e deitamos. "Amanda, hoje a gente vai torrar...", brincou Cida. Sorri, enquanto começava a passar bronzeador na pele.

Não, nós não estávamos na praia, mas na laje de minha casa, na comunidade onde morávamos. A praia mesmo ficava lá embaixo do morro, distante de nós. Por causa da altura da casa, podíamos vê-la. As pessoas pareciam formiguinhas na areia. "Amanda, menina, você está com uma marquinha linda. Os bofes lá no baile vão ficar doidos...", comentou uma das minhas colegas. Para ter certeza de que teríamos todo o corpo bronzeado, a gente só usava fio dental. "Se as patricinhas da zona sul podem se exibir, por que a gente também não pode, minha filha?!", provocou Raniely.

Nas horas em que ficávamos ali, entre passadas de bronzeador e goles de refrigerante, fazíamos o que mais adorávamos: fofocar e, claro, falar de homens. "A Dani Navalha engravidou, você viu? E o homem está metido no movimento. Dizem que é fugitivo da polícia", disse Cida. Enquanto ela me contava os detalhes, comecei a pensar na Dani. Apesar dos 18 anos recém-completados, aparentava bem mais. Tudo porque usava drogas e bebia com frequência! Sua mãe havia saído de casa quando ela ainda era uma menina de 10 anos. E a deixou com o padrasto, um bebum de mão-cheia. Dizem que ele tentou abusar dela e, para se defender, a coitada teria dado uma navalhada na cara dele. Daí o apelido!

Agora, a menina, que morava de favor na casa de uma tia, estava embuchada. "Será que ele vai assumir?", perguntei, de repente. Todas riram. Era óbvio que o filho da mãe já devia estar muito longe dali. Para sempre. Deitei de barriga para baixo e desamarrei o biquíni. "Mas essa também procurou, né? Se envolver com um rapaz desses?!", condenou Cida.

Fechei os olhos e comecei a imaginar como Dani estaria naquele momento. Enquanto nós três tomávamos o nosso sol na laje, devia andar chorando em algum canto, alisando sua barriga que crescia lentamente. "Será que ela vai tirar?", perguntei. "Vai, nada! A tia dela é da igreja, não deixa!", devolveu Raniely.

Alguns metros dali, numa outra laje, quatro meninas faziam o mesmo que nós. Apesar da proximidade de nossas casas, eu não as conhecia. "Aquelas ali são todas periguetes. Quando vão para o baile, transam na pista mesmo. Não estão nem aí...", apontou Cida. Ri da observação dela, mas fiquei quieta. Mesmo porque meus olhos estavam focados em outra casa, uma construção de alvenaria sem pintura, onde um gato moreno e alto empinava uma pipa. Vez ou outra, ele olhava para mim e dava um sorrisinho safado. Sabia muito bem no que ele estava pensando.

"Amanda, você está a fim do Maninho?!", quis saber Cida, de repente. "Ele não é flor que se cheire. Quer acabar como a Dani Navalha?", completou. Fiz cara feia e voltei a fechar os olhos. Minha amiga havia sacado o que eu pensava ter mentido em segredo: há tempos, durante essas manhãs na laje, eu passava a maior parte do tempo esperando para vê-lo. E, pelo jeito como o gato me olhava, ele esperava pela mesma coisa...  

Comentários

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Andreia A Lima - adoro muito esses contos.é um melhor do que o outro! parabéns a Carminha e a revista. - 04/02/2012 11:51:41

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