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SOS coração - conto de Amor e Sexo

Josiane e Guinão se conhecem num baile funk. O problema é que Guinão é traficante e comanda uma boca-de-fumo num morro carioca

Publicado em 09/12/2010

Carminha Nunes

Conteúdo VIVA!MAIS
Destaque da Matéria

O que importava para Josi agora era recuperar sua dignidade
Foto: Getty Images

A cada dia crescia em mim uma grande dúvida: o que seria de meu futuro? E o da minha filhota? Mas a velocidade do tráfico me impedia de parar e refletir. Precisava sobreviver e só sabia me virar daquele jeito. Tinha comprado TV, aparelho de som e até conseguido guardar algum dinheiro. Dileuma, uma de minhas vizinhas mais próximas, veio certo dia bater à minha porta com um livreto da igreja dela. "Josi, esses meninos estão te usando para o crime. Deixa isso pra lá. Vamos comigo ao culto, aceite Jesus!"

Assim como ela, outras mulheres saíam pelo morro pregando a palavra do Senhor. Elas não vestiam roupas da moda nem possuíam uma TV nova, mas pareciam ter a consciência mais leve que a minha. Agradeci os conselhos e disse que precisava entrar. Nunca me esquecerei da segunda imagem mais chocante de minha vida: minha pequerrucha estava chorando baixinho e tremendo no chão do quartinho. Ao lado dela, vi que havia esquecido uns papelotes de cocaína abertos, prontos para embalar.

O pozinho branco ao redor dos lábios de meu anjinho confirmou minha trágica suspeita: "Neném, você encostou nisso aqui?", sussurrei, carregando-a nos braços e gritando por socorro. "Dileuma, me leve ao hospital pelo amor de Deus!", implorei com minha filha no colo, já revirando os olhinhos. Ela, provavelmente, imaginou que o pó branco fosse açúcar e quis experimentar. Corremos as duas morro abaixo, com aquela criancinha trêmula. Entramos num táxi e eu não conseguia falar de tanto nervoso. "Vão tirar a menina de mim...Vão tirar a menina de mim...", murmurava sem parar. Minha amiga conhecia uma das enfermeiras da Santa Casa e foi nas mãos dela (e de Deus) que deixamos a menina.

Do lado de fora do enorme salão branco, eu chorava. "Deus pai, senhor misericordioso. Sei que errei, pequei muito. Perdi o homem que amava e, por conta de meu mau comportamento, posso ficar sem a coisa que mais amo no mundo agora... Me ajude, Pai, eu vou mudar..." Repeti a mesma prece até que senti uma mão em meu ombro. Dileuma me encarou no fundo dos olhos. "Ela está bem. Fizeram uma lavagem na menina e deram um remédio. Agora ela precisa descansar..." Então veio a assistente social do hospital. "Dona Josiane, precisamos conversar", me disse.

Dileuma havia contado tudo. "Sua amiga me garantiu que a senhora é uma mulher decente e que largará essa vida de tráfico!", disse em tom de bronca. "Deus existe e cabe a ele dar uma segunda chance às pessoas. Sabe a primeira coisa que sua filha disse ao acordar?" Balancei a cabeça negativamente. "Eu quero a minha mãe!" Comecei a chorar, Dileuma me amparou e sorriu com carinho. Naquele dia descobri que Deus de fato existia e operava milagres.

Fui para a casa de minha amiga. De lá, ela ligou para a ONG que Fábio coordenava. Vê-lo naquela tarde foi a luz que faltava para que eu reacendesse minha felicidade.

Comentários

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andreia - sem comentarios show de bola!!! - 20/04/2012 13:54:26

andreia - sem comentarios show de bola!!! - 20/04/2012 13:54:03

Taisa - Oii achei muito forte e impactante a sua historia.você teve sorte de conseguir sair dessa vida enquanto ainda era tempo,porque todos nos sabemos que hoje em dia a probabilidade de sair dessa vida ,viva assim como você saiu e muito rara.desejo pra você tudo de bom que Deus ilumine os seus caminhos,e de sabedoria pra educar essa menina.que foi um grande presente dele. - 09/04/2012 11:22:47

maria - adoro ler os contos da revista viva mais, só gostaria que postassem novos contos pois já li e reli os atuais. - 21/03/2012 14:15:15

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