Coluna da Hilda Lucas
Lá vai minha filha
Lá vai minha filha quase voando no seu vestido etéreo.
La vai minha filha do olho grande, da pele morena e do cheiro de feijão
Por Hilda Lucas
Lá vai minha filha quase voando no seu vestido etéreo.
La vai minha filha do olho grande, da pele morena e do cheiro de feijão. A menina que estreou a mãe em mim. A menina que chegou trazendo todo um universo de novidades: emoções, medos, encantamentos, aprendizados. Crescemos juntas: eu aprendendo a ser mãe e ela aprendendo a ser ela mesma. Descobrimos duas palavras mágicas: ela me chamou mãe e eu a chamei filha. Palavras novas e tão viscerais que pacientes esperavam para se cumprir.
Éramos duas sendo uma em muitos sentidos. Carne da minha carne, fruto do meu amor, sonho dos meus sonhos. Ela me expandia e eu a protegia. Ela me dava a mão e eu todos os sumos. Ela me dava a eternidade e eu lhe dava asas. Ela me alargava o coração e eu lhe ensinava a caminhar sozinha. Ela me cobria de beijos e eu a cobria de bênçãos. Ela me pedia colo e eu lhe pedia sorrisos. Ela me traduzia e eu a decifrava. Ela me ensinava e eu lhe descortinava o mundo. Ela me apontava o novo e eu lhe ensinava lições aprendidas no passado. Ela me falava de fadas e princesas e eu lhe falava de avós e gentes. Ela me emprestava seus olhos encantados e eu rezava por um mundo melhor. Ela me tirava o sono e eu cantava para ela dormir. Ela me alegrava a vida e eu vivia para ela.
Quando um filho nasce começamos a nos despedir dele no mesmo instante. Nosso ele só é quando no ventre. Depois somos seus abrigos, seus condutores, seus provedores sem nunca esquecer que eles começam a ir embora no dia que nascem. No começo o tempo parece parar. A plenitude da maternidade e a dependência dos pequenos criam uma ilusão de que será assim para sempre. Mas não, eles crescem inexoravelmente em direção à independência. Cumpre-se o ciclo da vida e é melhor que seja assim, caso contrário, significa que algo de muito triste, inverso ou perverso aconteceu.
Lá vai minha filha. Assim seja.
Olho seus olhos enormes e profundos e vejo os mesmos olhos que ainda na sala de parto me olharam intrigados, solenes, como que me reconhecendo, me convocando. Eu disse sim à minha filha, imediatamente, a segui desde aquele instante, entregue, eleita. O amor que eu senti foi tão avassalador e instantâneo que eu cheguei a ter medo. Sim, na hora que nasce o primeiro filho, a gente compreende a fragilidade da vida, a fugacidade das coisas e a passa a ter medo de morrer. O fato dela precisar de mim me tornava única, imprescindível. Eu não podia falhar, eu não podia morrer, afinal foi ela quem me escolheu. A partir dali, tudo mudou, meu espaço, meu papel, minha relação com o mundo adquiriu outra dimensão: eu era sua mãe!
Crescemos juntas. Somos amigas. Mãe e filha. Ao longo desses anos rimos, choramos, brigamos, resolvemos impasses, estreitamos laços, vencemos batalhas, enfrentamos noites escuras. Contamos uma com a outra, sempre. Às vezes era eu quem a socorria outras vezes era ela quem me amparava. Não foram poucas as vezes em que os papéis se inverteram e ela foi minha mãe. Às vezes me pergunto se eu dei a ela tanto quanto recebi. Sinceramente, acho que não. Desde o momento zero ela transformou minha vida e, num movimento contínuo, faz de mim uma pessoa melhor.
Lá vai minha filha. Apaixonada e confiante. Ensaiando vôos, escolhendo caminhos, encerrando ciclos.
Eu feliz, penso: cumpra-se!
Comentários
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Valeria - Hilda, que lindo! Eu, mae de cinco, me vi falando em voce. Que bom entregar pessoas amadas e prontas ( ou quase) para outros e para o mundo. Beijao - 13/12/2009 22:29:17
luiz paoliello - Hilda, almocei hoje c/ Olavo quem me falou sobre seu blog. Linda sua crônica. parabéns. - 24/11/2009 15:29:44
Carla - Fico triste quando vejo mulheres saudáveis se negando a ter filhos por achar que são entraves da sua realização profissional e pensando que não darão conta dos "projetos" ao mesmo tempo, isso é falta de Deus, somente a mulher tem esse dom, dificuldades virão sem dúvida, mas aí que entra a fé em Deus, que segundo Jesus cuida todos os dias das aves do céu, que dirá de nós que somos a personificação divina. Fiquei grávida assim que passei no vestibular, foi um tempo muito sofrido e difícil, mas experimentei desse momento único e maravilhoso que vejo tb na minha linda menina que digo sempre vc nunca foi um problema, mas um presente de Deus. - 26/10/2009 21:52:57
Regina Helena - Hilda, parab¿ns pela cr¿nica.Mais uma vez aflorou a sua sensibilidade e a sua capacidade de mostrar sentimentos. Que sua filha seja muito feliz! Abra¿os e continue a nos emocionar com seus textos. - 25/10/2009 20:16:04
Marcia Albuquerque - Hilda,Não tenho filhos, mas tenho irmã e sobrinha que fizeram brotar em mim, logo que minha querida irmã ficou grávida, todos estes sentimentos, essas circunstancias, esses medos e amores.Puxa, como é tudo verdade!Foi bom demais ler e renovar todos estes sentimentos.Parabéns pelo texto, pela coluna que leio sempreNada como ter o dom da palavra! - 23/10/2009 14:40:22
Renata - Eu orgulhosa, endosso: cumpram-se!!!Linda e emocionante a homenagem. Sou fã de vocês!!! Muitos beijos, muitas felicidades e todo o meu carinho e admiração, Renata. - 20/10/2009 17:32:21