Como escolher entre a mentira e a sinceridade

Optar pela mentira ou sinceridade? Todo mundo já se viu diante dessa questão crucial. Veja alguns pontos que o ajudarão a respondê-la

Atualizado em 20/10/2011

Reportagem: Liane Alves - Edição: MdeMulher

Foto: Reprodução Revista VIDA SIMPLES

Mentimos nos chats da internet, vemos dezenas de montagens no Youtube e somos alimentados por propaganda e publicidade, que apresentam um lado da verdade que interessa. Perfumes e desodorantes disfarçam nosso cheiro; roupas, as nossas formas; e a cultura de boteco, nossa ignorância. Até o universo ficcional de filmes, romances e novelas não passa de um bem contado faz-de-conta. Em resumo, fabricar histórias, criar ilusões ou acreditar em mentiras é o que fazemos o tempo todo. Mas, se olharmos com cuidado, talvez, lá no fundo, exista uma verdade bem escondida que revela nossa própria verdade.

Os cientistas gostam muito de uma pesquisa e o que eles falam sobre a mentira é interessante. Segundo um estudo do Centro de Ciências Sociais e de Comportamento da Universidade de Massachusets, não conseguimos manter dez minutos de conversa sem contar duas ou três mentirinhas. Começa, por exemplo, com o clássico "Vou bem" depois do "Como vai?". Geralmente quem responde não vai lá tão bem assim, mas afirma que está tudo nos conformes para não revelar uma condição indesejável assim, sem mais nem menos. No mais, ninguém quer ouvir lamúrias no começo de uma conversa. Talvez depois, mas não logo de cara.

Um ponto importante a ser considerado é que a verdade tem um timing próprio, isto é, o tempo e a ocasião mais convenientes para ser dita. Todo analista ou psicoterapeuta sabe disso. Ele tem de perceber quando o paciente está pronto para ouvir o que ele avaliou, intuiu ou sentiu, diz a psicóloga paulista Vera Andrada e Silva. O sucesso de uma terapia depende bastante desse feeling do terapeuta, diz ela. Em resumo: não dá para dizer algo avassalador de supetão, mas só dentro de um processo de amadurecimento interno e confiança recíproca que se estabelece ao longo do tempo.

Isso porque a verdade geralmente dói. Quando alguém diz: "Posso ser sincero?", todo mundo sabe que lá vem bala de canhão. Mas, se a verdade dói e assusta num primeiro momento, ela dá alívio e conforto depois, além de abrir um campo de novas possibilidades e relacionamentos, diz a psicóloga Vera. A mentira também dói, de outra maneira, porque sufoca e não dá oportunidade para uma expressão verdadeira, diz. Além disso, também dá muito trabalho: muitas vezes todo um castelo de mentiras tem de ser construído e vigiado para proteger uma única falsidade. É um desperdício enorme de energia e um gerador eterno de tensão. Que depende de nossa ideia ilusória de que podemos manipular eternamente o mundo.

A verdade sobre a mentira

Muita gente já falou sobre mentiras e autoengano. Uma das abordagens mais interessantes é a do mestre armênio Georges Gurdjieff. Diz ele que mentimos sempre, até quando pensamos que estamos dizendo a verdade. E por que ele diz isso? Porque garante que somos uma legião de "eus" internos: o que é verdade para um, num momento, pode ser mentira para outro logo depois. Vamos dizer, por exemplo, que acordamos de mau humor. Estará presente um eu irritado, desconfiado, fechado e raivoso. Para ele a vida está repleta de coisas chatas feitas especialmente para incomodá-lo. O tempo passa, o mundo gira e lá pelas 2 da tarde a existência não parece tão ruim assim. Já relaxamos e conseguimos rir com algum amigo, uma ou outra pessoa já parece razoavelmente interessante e, se alguém perguntar para esse eu o que ele acha do mundo, certamente ele será bem mais flexível e disposto que eu matinal. À noite, bem mais calmos, e até alegrinhos, podemos beber um bom vinho ao lado de amigos, discutir sobre um tema que nos interessa especialmente num ambiente acolhedor e, maravilha!, o mundo ganha um pó dourado e reluzente. O futuro da humanidade parece ser mais esperançoso e a vida, cheia de alegria. Quem desses eus está mentindo ou falando a verdade? Se levarmos em consideração a coerência, por exemplo, todos eles mentem, porque se contradizem.

Verdades ultrapasadas

Como se não bastasse, existe ainda a ideia de que a verdade de um momento pode ser ultrapassada por uma nova informação. Dia desses recebi uma série de perguntas de uma revista especializada para serem feitas a um cientista internacional. Achei as perguntas muito boas, totalmente pertinentes. Elogiei sinceramente a editora da revista. Daí mostrei para um amigo que entende do assunto e ele me provou por a+b que elas eram tendenciosas. Eu, que não estou tão mergulhada no tema, achei a moça o máximo, mas, e agora? Minha verdade tornou-se mentira! Vai dar trabalho, eu sei, mas vou ter de questionar cada pergunta com a editora, item por item, com base em meu novo entendimento.

Então podemos dizer que gostamos da toalhinha de crochê, mas não podemos engolir algo que vai contra nossos princípios, nossa ética? Bem, quando a mentira fere a ética, é bom pensar duas vezes. Há um núcleo ético dentro de nós e sabemos perfeitamente quando ele é desrespeitado. Se continuamos a mentir, todo nosso ser denuncia. O psicólogo americano Paul Elkman, que escreveu o livro "Contando Mentiras" (sem edição brasileira) é perfeitamente capaz de identificar quem está mentindo e traindo seu núcleo ético com 60% de acerto, apenas observando as microexpressões do rosto do mentiroso. Mesmo assim, Elkman aconselha cautela. O melhor é perguntar muito, quando se está em dúvida. E ficar muito atento às microexpressões faciais, diz ele. Porque há gente que aprendeu a mentir até olhando olho no olho.

Mas, mesmo se alguém estiver mentindo, devemos nos perguntar por que ela estaria fazendo isso. Por interesse, para prejudicar, enganar? Ou para nos poupar de uma dor? Por isso, é preciso muita calma nessa hora. A mesma que se deve ter quando você se pergunta: Devo ou não devo ser sincero agora? Ter uma ideia mais clara a respeito das intenções e consequências do que se vai ser dito é absolutamente essencial. De verdade.

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