Freie as grandes expectativas

Administrar as expectativas diante da vida pode ser uma boa forma de lidar com as frustrações que surgem no caminho

Atualizado em 20/06/2011

Rafael Tonon

Ter os pés no chão é uma boa forma de não se frustrar perante os acontecimentos
Ilustração: Éber Evangelista

Nem tudo na vida acontece da maneira como queremos ou desejamos. Mas, se a gente sabe disso de cor e salteado, por que é que ainda sofremos tanto quando temos uma vontade frustrada?

Na família

É na infância que lidamos pela primeira vez com nossas frustrações. "As pessoas que ouviram pouco 'não' nessa fase têm muito mais dificuldade de aceitar uma recusa quando se tornam adultas", afirma a filósofa e educadora Tânia Zagury.

Nesse sentido, a frustração coloca nossos pés no chão, mostrando que a realidade dos fatos está longe daquela idealizada. "A frustração é pintada como algo ruim, que se deve evitar. Ao passo que, se bem trabalhada, ela pode ser positiva para o amadurecimento psíquico e o aprimoramento das relações de um indivíduo", diz Tânia.

No trabalho

Os sociólogos estudam algo que chamam de frustração social: uma decepção que não está ligada a uma situação objetiva, mas a uma percepção coletiva que se tem dela. "O padrão de cada um é determinado individualmente, cada pessoa tem um objetivo diferente para sua vida", afirma Emerson Ciociorowski, coach e autor do livro Executivo - O Super-homem Solitário.

A principal frustração que assola os escritórios está ligada à ausência de reconhecimento. Isso acontece, segundo Ciociorowski, por conta da falta de objetividade do que se espera de um funcionário. Como não sabe o que exatamente a empresa quer dele, ele acaba se esforçando demais e faz uma série de coisas que, de repente, não têm o menor valor.

A melhor maneira de evitar desilusões é planejar com realismo suas metas - e conversas claras com o chefe podem ajudar muito nisso.

Nos relacionamentos

Quando nos apaixonamos, não vemos mais a pessoa como ela é, mas como nos agrada vê-la. "Dessa forma, exageramos as qualidades da nossa paixão e acabamos subestimando as falhas e as características negativas que ela possa ter", diz o psicólogo Thiago de Almeida, especialista em relacionamentos amorosos.

O desafio aqui é fazer o relacionamento dar certo a despeito das perspectivas que criamos. Os especialistas aconselham que a honestidade pode ser uma boa saída para evitar frustrações. Assim, não caímos na tentação de querer presumir o que o outro pensa ou deseja. Nem querer que o outro adivinhe o que esperamos dele.

Na vida pessoal

O professor de Psicologia da Universidade de Harvard Daniel Gilbert tem uma teoria interessante sobre por que criamos tanta expectativa. Segundo ele, tentamos o tempo todo prever os acontecimentos da vida e isso traz um ganho para a sensação de felicidade.

A ressaca desse processo, porém, é que não somos muito bons em prever. Assim, vamos criando uma expectativa grande sobre as coisas, e quando elas acontecem, podem não ser tão legais assim - e aí o sentimento de frustração vem à tona. "Os acontecimentos futuros que nossa mente antecipa como grandiosos são frequentemente uma grande decepção", escreve Gilbert no livro O que nos Faz Felizes.

No entanto, viver sem expectativa nenhuma nos torna apáticos, sem vontade. Exatamente o mesmo sentimento que acomete os que sofrem de um mal como a depressão, por exemplo, quando tudo parece desinteressante.

A saída é tentar perceber a constatação humilde e realista dos fatos. Sem exageros, sem estardalhaços. O melhor a fazer é aproveitar o trajeto da forma mais tranqüila. Assim, a chegada tende a ser sempre compensadora.

LIVROS
Limites sem Traumas, Tânia Zagury, Record
O que nos Faz Felizes, Daniel Gilbert, Elsevier
Perdas Necessárias, Judith Viorst, Melhoramentos
Finding Happiness in a Frustrating World, Jim Johnson, Dog Ear

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