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O que é a nostalgia? Saiba reconhecer essa sensação para seguir em frente

A nostalgia é mais comum do que se imagina. Ela deve ser enxergada como um sinal para resolver o passado e fincar os pés no presente

Atualizado em 13/06/2011

Deborah Couto e Silva

O pensamento fixo no que passou deve ser um encarado como um sinal para resolver pendências
Foto: Manuel Nogueira

Por que será que, por mais que a gente tente, muitas vezes é incapaz de abandonar algumas memórias afetivas: imagens que construímos de nós mesmos, velhos amores, padrões de comportamento?

A fixação no passado é nociva quando remoemos aquilo que já está longe no tempo e no espaço ou idealizamos - alguém, uma situação, um estilo de vida - a ponto de não conseguirmos olhar para a frente e aproveitarmos o presente. Aí entra a nostalgia. Essa palavra grega significa algo como "saudade de um lar que não mais existe ou nunca existiu", e pode ser um obstáculo para o nosso crescimento.

Faz mal?

Em The Future of Nostalgia (O futuro da nostalgia, sem edição brasileira), Svetlana Boym, professora de literatura comparada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, explica que o conceito de nostalgia vem da medicina do século 17. Naquela época, alguém que padecesse de nostalgia podia apresentar sintomas tão variados como náusea, perda de apetite, febre alta chegando até mesmo a complicações físicas extremas, como ataques cardíacos. "Nos velhos tempos, nostalgia era uma doença perigosa, mas não letal", escreve. O tratamento mais difundido era feito com emulsões hipnóticas e ópio.

Hoje em dia, no entanto, não se toma a nostalgia como uma patologia. Ela pode ser considerada um estado de espírito, enquanto a depressão e a melancolia são doenças em si. "Somente quem viveu momentos belos é invadido pela nostalgia, diferentemente daquele que passou pela vida e não viveu. Por isso, nostálgicos voltam ao passado no qual amaram e foram amados. Na melancolia ou depressão: nunca foram amados ou amparados", afirma a psicanalista Maria Olympia França.

Faz sofrer

Fabricamos muitas das nossas memórias e não temos certeza do passado, por isso ele parece ter cores mais vivas. Para Maria Olympia, a nostalgia é uma espécie de reaproveitamento da tristeza. "Ela sinaliza algo que foi bom. Eu era feliz e não sabia", afirma a psicanalista. Isso denota o estado fantasioso da nostalgia em relação ao presente.

É impossível voltar ao passado, mas trazer seus elementos agradáveis à tona é algo que pode melhorar o presente. Não é que vá matar a saudade, até porque nostalgia e saudade são coisas diferentes. "A nostalgia é um estado mais amplo e abstrato que a saudade. Ela pode permanecer mesmo quando temos de volta aquilo que nos fazia falta", diz a psicanalista.

É universal

A maioria das pessoas vive sem se dar conta da nostalgia, mesmo que seja de uma vida que não é a sua. Parece complexo? A moda, o cinema, as novelas, tudo está preparado para atender a demanda por coisas vindas do passado. Mas de onde vem esse desejo de eterno retorno? Das memórias afetivas, das contingências do mercado, é um traço geracional?

De tudo isso um pouco. Cíntia Teixeira, professora de filosofia e coordenadora do IPPEX (Instituto de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da Faced), de Minas Gerais, afirma que a necessidade de trazer elementos de outras épocas é uma alternativa ao inevitável progresso do esquecimento. E além disso é um traço geracional, marca daqueles que estão entre os 20 e poucos e 30 anos. "Essa onda de nostalgia é muito mais vivida por pessoas que sequer existiam naquele tempo homenageado que por aquelas que de fato estavam lá", diz.

Criação e memória, eis os pilares da nostalgia. Julia Valle é estilista e costuma desenvolver, no mínimo, três coleções por ano. Para cada uma delas precisa buscar inspirações novas. Acontece que o totalmente novo demonstra sinais de esgotamento, dando lugar à repetição, por isso ocorre uma tendência de retorno a épocas anteriores: "Soa fresco de uma forma, mas ao mesmo tempo já tem aquela garantia de que foi aceito em algum momento da história", diz ela, que gostaria de ter vivido nos anos 1920.

É particular

Márcia e Sílvio se apaixonaram no trabalho: o processo de produção de um curta-metragem. Márcia lembra que a experiência do filme foi poderosa emocionalmente e a lua de mel durou cerca de um ano. "Foi quando algo se rompeu e começaram a se abrir feridas, traições descobertas e muita dor", diz, afirmando que a partir daí o caso começou a ser tão intenso quanto avassalador. “Perdi as contas de quantas vezes terminamos e voltamos. Já não sabia mais para o que queria voltar. Queria um resgate, não conseguia deixar as boas lembranças". Márcia chegou a se mudar de cidade para abandonar a memória, em vão. "Retomamos inclusive a distância, o que quase me levou à depressão", admite. “Guardo nossas memórias com carinho, mas hoje sei que é impossível resgatá-las", afirma.

Casos como o de Márcia servem para lembrar que é importante ter cuidado com as fantasias. Elas podem literalmente nos prender a uma realidade inexistente e impedir um desenvolvimento no presente. Uma saudade dos velhos tempos ou uma fantasia sobre certo fato do qual você adoraria ter participado podem alimentá-la, mas, quando essas sensações se tornam obsessivas, é melhor ficar atenta: finque o pé no presente e bola pra frente.

LIVRO
The Future of Nostalgia, Svetlana Boym, Basic Books

Comentários

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