Tara Gandhi, neta de Mahatma Gandhi, fala sobre a filosofia de não-violência do indiano
Conheça os conceitos de busca da verdade e não-violência que mudaram o curso da história da Índia
Publicado em 18/03/2011
Renato Mendes, de Lisboa
Tara Gandhi diz que a sabedoria se apoia na simplicidade
Foto: Getty Images
Tara Gandhi Bhattacharjee, neta do pacifista Mahatma Gandhi (1869-1948), falou sobre a filosofia de seu avô para uma plateia de 1500 pessoas em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian. A conferência, com o título "Gandhi, a Índia e o mundo", abriu o ciclo de Grandes Conferências, que acontecerá durante todo o ano nas instalações da Fundação, na capital portuguesa.
Com ar jovial, essa senhora de 75 anos lembrou o legado que o pacifista deixou para a humanidade e os princípios que difundiu sobre a vida em sociedade. Em encontros assim, Tara realiza a sua missão como principal representante do avô, divulgando a sabedoria do maior líder espiritual indiano.
Quais eram as principais convicções de Gandhi e quais foram os resultados das suas ações?
Sua própria vida foi uma experiência com a verdade. Mas, como a verdade é um assunto abstrato, ele transformou- a em não-violência, e elegeu essa postura como filosofia de vida. Gandhi meditava muito sobre o que era certo e errado, e, em 1893, viajou à África do Sul para combater o apartheid. Durante 21 anos, trabalhou como advogado no país e percebeu que lutava contra uma tradição de exploração entre seres humanos semelhantes. Essa experiência sedimentou seus conceitos sobre a verdade e os objetivos que o orientaram por toda a vida. Um dos resultados de suas ações foi o fim do domínio inglês sobre a Índia, o que influenciou muitos outros países e líderes. Mas o efeito de sua passagem pelo mundo vai além. Foi ele quem anunciou a importância de temas abstratos, como a não-violência e a verdade, hoje celebrados mundo afora, nas mais altas esferas da política. Foi ele, ainda, quem derrubou as barreiras das religiões e das divisões geográficas. Vivia como um líder espiritual, mas era um homem de ação, partilhando sua rotina com agricultores nos campos da Índia.
Gandhi alterou o curso da história da Índia pela filosofia da não-violência. Como isso foi possível?
Ele não apenas difundiu a filosofia da não-violência, ele viveu a não violência. Gandhi uniu a Índia e conseguiu a sua emancipação política. Mas ele não alterou o curso do país - agiu trabalhando junto às pessoas. Praticar a não-violência é parte de sua experiência com a verdade. A lágrima é um desafio. Pela primeira vez na história da humanidade esse é um desafio coletivo e individual, porque a lágrima representa emoção e, quando uma pessoa se emociona, abre o seu coração. A doutrina de Gandhi serve para todos os países do mundo, não só para a Índia.
Quais são os principais ensinamentos deixados por seu avô às pessoas?
Ele dizia: "Enquanto esperamos que os outros mudem, não nos aperfeiçoamos". Cada um de nós deve iniciar um processo de mudança dentro de si e buscar o aprimoramento, pois temos cada qual uma verdade, diferente da verdade de Gandhi. "Não pergunte a mim, pergunte à sua consciência", afirmava ele. Esse desafio está posto para cada um de nós, como se voltássemos ao marco zero para começar de lá a busca da verdade. Seu exemplo ajuda a responder a questões do dia a dia: como manter o ambiente limpo? Como nos relacionar com a pessoa ao lado? Como ajudar quem precisa? Nesse sentido, a prática do khadi (processo artesanal de fazer roupas) foi valorizada por Gandhi como caminho espiritual. Diante das diferenças sociais, ele dizia que há o suficiente no mundo para suprir as necessidades de todos, mas não o suficiente para a ganância.
Como a sabedoria de Gandhi contribui para aumentar a consciência dos cidadãos no sentido de criarem sociedades igualitárias?
A sabedoria de Gandhi se apoia na simplicidade. Ele entendeu que a força da maternidade é a maior das forças e carrega o poder da criação, comum a todas as formas de vida, seja vegetal, humana ou animal. Homem e mulher têm esse poder, como extensão de seu amor. Uma gota desse amor dada a outro ser humano neutraliza a violência. A compaixão pela pessoa que está ao lado pode ser um caminho na luta por sociedades igualitárias. Mas não se trata de corrigir o outro. A vida molda os grandes desafios, tão aventurosos como os de uma criança ao aprender a andar ou falar.



































