Alan Wallace, o cientista da consciência

Confira a entrevista com Alan Wallace, o físico que já foi monge e que fala sobre meditação e consciência

Publicado em 06/10/2009

Reportagem: Liane Alves - Edição: Amanda Zacarkim

O cientista Alan Wallace ensina a inserir a meditação no seu dia a dia
Foto: Marcos Piani

Alan Wallace tem uma característica especial que o diferencia dos seus pares na área da física e da neurobiologia: foi durante 20 anos um monge budista, morou em Dharamsala, na Índia, traduziu mais de 30 livros do tibetano para o inglês, estudou com os mais altos mestres do Tibete e ainda ocupou o posto de intérprete oficial de sua santidade, o Dalai-Lama. Hoje, novamente como cientista e físico e autor de quatro importantes livros sobre ciência e práticas contemplativas, Wallace comanda um verdadeiro exército de neurocientistas, antropólogos, sociólogos e psicólogos no Instituto Santa Bárbara de Estudos da Consciência, na Califórnia. Sua missão principal é analisar os efeitos da meditação nos seres humanos em dezenas de experimentos e numa enorme gama de voluntários - desde de quem nunca meditou até monges com milhares de horas dedicadas à prática. As descobertas desses estudos surpreendem e seu olhar sereno sobre o despertar interno da consciência traz esperança para a humanidade. Confira a entrevista com Alan Wallace, que esteve no Brasil a convite do Centro de Estudos Budistas Bodisatva para dar palestras em várias capitais brasileiras e lançar seu último livro, As Dimensões Escondidas.

A meditação não é necessária à sobrevivência. Que vantagens poderia haver para um ser humano comum a prática de meditar todos os dias?
Nosso lado animal não quer saber de meditar e pode viver perfeitamente bem sem a meditação ou qualquer outra prática espiritual. Mas temos a consciência. É ela que vai se interessar por alguma coisa além da satisfação das necessidades físicas. Mas, em todo caso, é mais fácil quando temos as necessidades materiais básicas satisfeitas. É difícil querer meditar quando se tem fome, frio, quando se está doente ou não se tem um teto.

Mesmo assim, a resistência pode ser grande. Por quê?
Quando as pessoas atingem esse nível básico de segurança e felicidade materiais, geralmente vão querer mais do mesmo. Isto é, se elas têm uma casa, vão querer uma mansão, se têm um carro, vão querer outro, se têm alimento suficiente, vão sofisticá-lo. Mas, se usarmos a inteligência e a memória únicas de um ser humano, vamos ver que ter mais da mesma coisa realmente não nos faz muito mais felizes ou satisfeitos. É fácil observar quantas pessoas ricas, famosas ou intelectualmente dotadas, como os grandes cientistas e escritores, se sentem frustradas, infelizes, deprimidas, inseguras. Então, é necessário usar nossa inteligência humana para perguntar a verdadeira questão: qual é a real causa da felicidade? O que realmente pode nos fazer felizes?

Qual seria a resposta?
Ir em direção aos níveis internos de consciência. Quanto mais você se aprofundar neles, mais o nível externo e material se torna relativo. Conheço monges no Tibete vivendo em condições precárias, sem aquecimento, roupas ou alimentação adequados, e que são felizes. Não é que alguém tenha de negar ou abandonar de vez a efêmera felicidade material. Mas, ao experimentar outros níveis de consciência, você se torna muito menos dependente do externo para ser feliz. Fama, sucesso, beleza e riqueza material diminuem de importância de forma absolutamente natural. Outras qualidades emergem: amor, compaixão, satisfação e pacificação internas, as verdadeiras causas da felicidade mais perene.

O senhor poderia dar um resumo dos benefícios de um período de meditação de 20 a 30 minutos por dia?
Já foi cientificamente provado que um curto período de prática como esse é capaz de aumentar expressivamente nosso equílibrio emocional, nossa capacidade de atenção e presença e ainda gerar uma empatia pelas pessoas. Essa condição resulta num decréscimo de estresse e ansiedade e no notável aumento de bem estar. É como manter a prática diária de uma "higiene psicológica", que nos ajuda a manter um nível alto de saúde mental e resiliência.

O título do seu livro mais recente fala em "dimensões escondidas". Quais são elas e como acessá-las com a prática da meditação?
A ciência moderna pode contar com telescópios avançados para perscrutar o Universo, mas não desenvolveu um telescópio capaz de nos fazer alcançar os níveis internos de consciência. E isso as tradições como o vedanta, no hinduísmo, o hesicasmo, no cristianismo, a cabala, no judaísmo, e o dzogchen, no budismo, fazem. Essas práticas nos revelam dimensões múltiplas de consciência, algo além da nossa classificação de mente consciente e inconsciente. Eles identificaram um reino de existência muito mais sutil, que vai além do mundo dualístico de matéria e energia. É desse plano que falo em As Dimensões Escondidas. Os praticantes de meditação foram capazes de atingir o grau supremo de realidade que transcende o espaço, o tempo e os conceitos. Esse é o nível primordial de consciência, a fonte de toda virtude e felicidade genuínas, que é conhecido como Deus nas tradições teístas ou plano supremo, de onde tudo emerge, ou dharmakaya, no budismo. A experiência contemplativa fornece um elo entre a ciência e a espiritualidade, pois ela mesma se baseia na experiência, exatamente como se faz nos experimentos científicos, e na racionalidade, com a vantagem de poder ir além de qualquer ramo que a ciência possa penetrar. A união da investigação científica com a experiência contemplativa pode gerar uma grande revolução da ciência. Essa pode ser uma possibilidade gigante que se abre, capaz de curar a distância entre ciência e religião e mesmo entre as religiões que estão em luta pelo mundo.

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