Aprenda a negociar limites nas suas relações

Definir o limite de tolerância é hoje o ponto crucial de nossas relações. Porém, quando é mais indicado aceitar o outro e quando é melhor bater o pé?

Publicado em 24/11/2009

Liane Alves

Estabelecer limites é um fator primordial para que a tolerância exercida seja verdadeira
Foto: Renato Parada

Lidia Muniz é negra. Negra e loira, aliás. Ao viajar para um congresso na Califórnia, o estado mais politicamente correto dos Estados Unidos, ela notou que muitas sorriam ao passar por ela, como querendo dizer: "Eu a aceito do jeito que você é". Depois de 15 dias, esse comportamento supostamente gentil começou a lhe dar nos nervos. "Sei que sou diferente e que seria normal uma pessoa olhar para mim surpresa, até com certa hostilidade. Aceito esse risco. Mas era terrível suportar essa tolerância que, no fundo, parecia sussurrar 'olha, tudo bem, você é maluca, mas eu, que sou bem legal e tolerante, vou aceitar sua excentricidade, desde que ela não invada os meus limites, ok?'"

Difícil, não? Até a tolerância empostada pode ser um ato inconsciente de arrogância. Mesmo quando estamos sendo tolerantes, podemos esconder um baita complexo de superioridade e uma indisfarçável prepotência. Ou então, pior ainda, o eterno desejo de sermos sempre fofos, doces e certinhos como o ursinho Puff.

Por isso é bom refletir profundamente sobre os limites da tolerância, quando ela é real e desejável, ou exagerada e falsa. Ou quando somos tolerantes com os outros e intolerantes conosco, até o ponto de a tolerância virar autoabuso. Ou ainda quando a intolerância fecha nossos olhares e atitudes e nos torna rígidos e inflexíveis.

A ira santa

O excesso de tolerância pode gerar o abuso? João Pereira Coutinho, jornalista português que assina uma coluna sobre temas políticos e sociais, tem certeza que sim: "O excesso de tolerância pode levar ao pecado capital: tolerar o intolerante, ou seja, aquele que destrói nossa própria tolerância".

Ele é preciso: "O pluralismo não deve ameaçar os valores que eu considero centrais para uma existência digna. Ou seja: posso tolerar que os outros prefiram viver suas vidas de determinadas formas, desde que isso não ponha em causa minha vida e a vida dos outros".

E o que é o intolerável? "É aquilo que nos causa dor, sofrimento, humilhação, e que geralmente é causado por um abuso de poder", diz a psicoterapeuta Denise Ramos, do Laboratório Formativo do Ser, ligado à linha do psicólogo Stanley Kelleman. E há várias formas de reagir diante daquilo que não conseguimos tolerar. A mais comum é a raiva. "Ela é um alarme que nos acorda para um limite que foi ultrapassado, que nos desperta para uma situação que consideramos abusiva". Mas nem sempre a raiva precisa, necessariamente, ser direcionada contra quem ultrapassou limite."No mundo adulto, a energia da raiva também pode ser usada como uma mola propulsora para mudar a si próprio e transformar a circunstância abusiva", diz Denise.

Teoria e prática

Gandhi foi absolutamente intransigente e firme em sua posição contra o domínio britânico na Índia. Porém, em vez de lutar abertamente, preferiu exercitar a resistência não-violenta, baseada na mobilização social e na pressão política. Afinal, a intolerância pode ser combatida com firmeza de posições, manifestações de repúdio e uma pronta reação. Por isso é importante entender que tolerar não quer dizer ser passivo ou omisso.

Como afirma a psicoterapeuta Denise Ramos, "um grande amor pela humanidade, e sua consequente tolerância e compaixão por todos os seres, é capaz de mover cada um dos pequenos atos de uma pessoa no seu dia a dia. É a união entre a teoria e a prática".

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