Casal de cineastas leva cinema itinerante a pequenas cidades do Brasil
Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi estendem o tapete vermelho à população que até então desconhecia a magia da sétima arte
Publicado em 20/03/2011
Vivian Goldman
Projeto Cine Tela Brasil leva cultura e diversão às populações carentes
Foto: Getty Images
Tudo começou em 1996, quando dois jovens idealistas, os cineastas Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, encontraram um destino mais útil para os arquivos de curta-metragem guardados no armário. Colocaram os filmes para rodar gratuitamente em praças públicas de São Paulo, centros comunitários e escolas. Tudo na base do improviso. "Eram três ou quatro curtas nacionais, ou seja, uns 40 minutos de exibição. Com isso, conseguíamos atrair a atenção dos curiosos", relembra Luiz. Para a satisfação do casal, a brincadeira foi crescendo e o projeto ganhou o nome de Cine Mambembe, com direito a debate após as apresentações. Pouco tempo depois, tiveram a ideia de levar a sétima arte a lugares precários.
As primeiras exibições foram no sul da Bahia, em Caraíva. Dali em diante, percorreram 15 mil quilômetros, mais de 20 cidades, contabilizando 150 sessões. "Procurávamos a prefeitura, pedíamos alimentação e hospedagem em troca da projeção gratuita", conta Bolognesi. "Chegávamos a cidades remotas, escolhíamos o local da apresentação - uma praça, uma sala de escola, uma igreja - conversávamos com líderes locais e anunciávamos em um alto-falante o horário da sessão", explica Laís. "Depois do filme, uma conversa informal e cheia de surpresas embalava as noites", completa a cineasta. A saga foi registrada pela dupla e rendeu o documentário Cine Mambembe: O Cinema Descobre o Brasil, com o qual ganharam vários prêmios importantes. Foi durante essa aventura que Luiz escreveu o roteiro do longa Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bodanzky, em 2000, e que também lhes trouxe outras premiações.
Após essa experiência, o Cine Mambembe continuou viajando pelo Brasil, graças a convites e parcerias. "A viagem, que era mambembe, hoje, é um grande projeto batizado de Cine Tela Brasil, levando cinema nacional aos 92% dos municípios brasileiros desprovidos de sala de cinema e, o melhor de tudo, as sessões ficam sempre lotadas", descreve Laís. "O Cine Tela Brasil confirma a impressão que tivemos com a primeira incursão pelo interior do Brasil. O público quer ir ao cinema, quer assistir a filmes nacionais e quer cinema de qualidade. Talvez, a falta de salas seja uma das grandes questões que precisam ser resolvidas para democratizar a cultura cinematográfica no país", fazem coro Laís e Luiz. Para mudar essa realidade e profissionalizar a ação, eles contaram com o patrocínio da CCR, em 2004, e da Fundação Telefônica, em 2008, ano em que montaram a segunda sala itinerante do país.
De 2007 para cá, foram realizadas 40 oficinas para 880 alunos, num total de 120 curtas. "Quando tudo parecia estabelecido e dando muito certo, começamos a pensar que a verdadeira revolução seria ensinar as comunidades de baixa renda a produzir, contar ou inventar suas próprias histórias", relata Laís. Assim surgiram, em 2007, as Oficinas Itinerantes de Vídeo. "As oficinas são tão bem-sucedidas e os realizadores de baixa renda têm tanto a dizer que, em pouco menos de dois anos, já vimos curtas selecionados para importantes festivais de cinema", relata Laís, orgulhosa.
Além do curso, os aprendizes têm a oportunidade de conhecer personalidades do cinema brasileiro, como Cao Hamburguer, Hector Babenco, Paulo Betti, entre outros. "Até o momento, foram implementadas 40 oficinas com 880 inscritos que, por sua vez, produziram 120 curtas", revela Luiz.
Certos de que o cinema é uma importante ferramenta de complementação da educação, a dupla lançou ainda o portal Tela Brasil. O endereço virtual integra o projeto O Cinema Vai à Escola, que disponibiliza ensinamentos de cinema, além dos curtas realizados pelos jovens ao longo dos anos de oficina. Mas o casal não para aí. Já estão apostando numa parceria com o Ministério da Educação (MEC) para implantar o cinema como atividade na educação estendida e estão produzindo um livro para auxiliar a empreitada. Esse ainda será um roteiro de um filme inédito a que iremos assistir;
O Cine Tela Brasil contabiliza, desde 2004, números grandiosos. Foram percorridas quase 300 cidades e realizadas mais de 3 mil sessões. A taxa de ocupação da sala é de 88%, a maior do Brasil, superando 600 mil espectadores. Até o final de 2009, 71 filmes nacionais já foram exibidos gratuitamente.
PARA TODOS
O Cine Tela Brasil confirma a impressão que tivemos com a primeira incursão pelo interior do Brasil. O público quer ir ao cinema, quer assistir a filmes nacionais e quer cinema de qualidade. Talvez, a falta de salas seja uma das grandes questões que precisam ser resolvidas para democratizar a cultura cinematográfica no país, fazem coro Laís e Luiz. Para mudar essa realidade e profissionalizar a ação, eles contaram com o patrocínio da CCR, em 2004, e da Fundação Telefônica, em 2008, ano em que montaram a segunda sala itinerante do país. Nosso objetivo é estender o tapete vermelho ao povo brasileiro, esclarece Luiz.
Hoje, o projeto percorre os estados do Paraná, Rio de Janeiro e de São Paulo. Por onde passa, permanece cinco dias dois dedicados à montagem e desmontagem e os demais às projeções. O programa oferece de três a quatro sessões de filmes para o público infantil, infantojuvenil e adulto. Em algumas cidades, o impacto é tão grande que parece até que aterrissou um disco voador, brinca Luiz. Certa vez, em Francisco Morato, localizado na Grande São Paulo, uma garota de 6 anos insistiu para que a mãe a levasse até o local de exibição. Ela queria ver de perto a desmontagem do cinema, se despedir de cada membro da equipe e desejar boa sorte nas próximas paradas, lembra o cineasta, com evidente carinho.
É assim. Em cada estada, uma surpresa e um perfil diferente de público. Dependendo do lugar, determinados filmes agradam mais que outros. Segundo Luiz, essa oscilação se dá por uma questão de afinidade. O Menino da Porteira foi um sucesso no Paraná, por se tratar de um tema caipira, e um fracasso no Rio, ao passo que Era Uma Vez, que retrata as favelas, teve maior aceitação na Cidade Maravilhosa. Isso mostra que as pessoas querem ver a vida delas refletida na tela, conclui. Entusiasmado com os resultados obtidos até agora, Bolognesi revela um dado animador. Nesses anos na estrada, nunca nos roubaram uma única lâmpada. Mesmo em locais que nos disseram para não pisar, por serem dominados pelo tráfico, enfatiza. Mais uma mágica promovida pela sétima arte.
De 2007 para cá, foram realizadas 40 oficinas para 880 alunos, num total de 120 curtas.
REVOLUÇÃO DIDÁTICA
Projetos bem alinhavados costumam gerar filhos pródigos. Com o Cine Tela Brasil não foi diferente. Quando tudo parecia estabelecido e dando muito certo, começamos a pensar que a verdadeira revolução seria ensinar as comunidades de baixa renda a produzir, contar ou inventar suas próprias histórias, relata Laís. Assim surgiram, em 2007, as Oficinas Itinerantes de Vídeo.
Um mês antes de a sala de cinema chegar à cidade, um time de socioeducadores detalha aos jovens cada etapa da produção de um curta-metragem. Assimilada a lição, os alunos fazem sua própria obra. As oficinas são tão bem-sucedidas e os realizadores de baixa renda têm tanto a dizer que, em pouco menos de dois anos, já vimos curtas selecionados para importantes festivais de cinema, relata Laís, orgulhosa.
Além do curso, os aprendizes têm a oportunidade de conhecer personalidades do cinema brasileiro, como Cao Hamburguer, Hector Babenco, Paulo Betti, entre outros. Até o momento, foram implementadas 40 oficinas com 880 inscritos que, por sua vez, produziram 120 curtas, revela Luiz.
Certos de que o cinema é uma importante ferramenta de complementação da educação, a dupla lançou ainda o portal Tela Brasil (www.telabr.com.br). O endereço virtual integra o projeto O Cinema Vai à Escola, que disponibiliza ensinamentos de cinema, além dos curtas realizados pelos jovens ao longo dos anos de oficina. Mas o casal não para aí. Já estão apostando numa parceria com o Ministério da Educação (MEC) para implantar o cinema como atividade na educação estendida e estão produzindo um livro para auxiliar a empreitada. Esse ainda será um roteiro de um filme inédito a que iremos assistir;
O Cine Tela Brasil contabiliza, desde 2004, números grandiosos. Foram percorridas quase 300 cidades e realizadas mais de 3 mil sessões. A taxa de ocupação da sala é de 88%, a maior do Brasil, superando 600 mil espectadores. Até o final de 2009, 71 filmes nacionais já foram exibidos gratuitamente.



































