Cidades solidárias

Para o economista canadense Ross Jackson, precisamos desenvolver o sentindo de comunidade

Atualizado em 24/11/2011

Reportagem Ana Paula Lückman - Edição MdeMulher

Ross Jackson e a sustentabilidade

Temos que aprender a viver de maneira mais simples. Quem nega essa realidade é que é sonhador
Foto: Reprodução revista VIDA SIMPLES

Nas próximas décadas, a humanidade estará caminhando para uma vida mais simples. Homens e mulheres vão se organizar em pequenas comunidades integradas ao meio ambiente, com base em relações solidárias. Um dos principais pregadores dessa idéia é o economista canadense Ross Jackson,67 anos, fundador da entidade Gaia Trust e incentivador do movimento mundial de ecovilas. A evolução para esse estágio, entretanto, não será fácil: Jackson acredita que a mudança para o novo paradigma será acompanhada, sim, de muita dificuldade, privação e sofrimento. Uma das possíveis lideranças para esse movimento, segundo avalia, seria o Brasil.

O senhor afirma que a humanidade está chegando ao colapso. Qual é o retrato que faz da nossa sociedade hoje e quais os caminhos para superar esses problemas?
Se um ser extraterrestre chegasse à Terra hoje, ele encontraria um mundo sem governança global, assolado pela fome, pela guerra e pelo terrorismo, com distribuição desigual de renda e no meio de uma séria crise ambiental. O crescimento populacional é desordenado e insustentável. Estamos realmente à beira de um colapso. Para superarmos a crise, eu vejo duas estratégias: uma de cima para baixo, baseada em mudanças no pensamento econômico mundial, e outra de baixo para cima, que consiste na mudança de paradigma no nível micro, com organizações sociais mais simples e solidárias.

É possível definir o momento histórico em que essa crise começou?
O colapso não começou da noite para o dia, mas é perceptível que o agravamento ocorreu a partir de 1970. Hoje se considera o Produto Interno Bruto (PIB) como um indicador de sucesso, mas é preciso também considerar o Indicador de Processo Genuíno (IPG), que subtrai os aspectos negativos dos processos como geração de resíduos, riscos sociais, danos ambientais etc. Se avaliarmos a evolução dos dois índices ao longo do século 20, veremos que os dois seguem em paralelo e em sentido ascendente até 1970. A partir daí o PIB continua crescendo, enquanto o IPG entra em estabilidade e em sutil declínio. Isso representa graficamente o início da crise. Para a economia alternativa, o IPG é um índice mais realista, por representar o quanto a sociedade está sendo beneficiada.

Que papel poderia ter o Brasil nas mudanças econômicas que o senhor aponta como necessárias?
Na minha opinião, para mudar a atual situação alguns países têm que romper com o atual jeito de pensar e desenvolver uma nova visão, mais justa, que inclua a todos, sem egoísmo. O Brasil poderia assumir o papel de líder nessas mudanças. A situação no mundo hoje, basicamente, está sem liderança. Os Estados Unidos deveriam ser o líder natural, e eles gostam de dizer que são os líderes, mas eles não agem como tal porque são excessivamente voltados para seus próprios interesses. Então, se nós precisamos desenvolver um mundo mais justo, de onde virá a liderança? Eu acho que o Brasil é uma possibilidade.

O senhor é fundador e membro do conselho consultivo da Rede Global de Ecovilas (GEN). O que é exatamente uma ecovila? Quantas delas já existem no mundo?
É difícil definir exatamente o que é uma ecovila. Mas há efetivamente um movimento que trabalha com a construção de pequenas comunidades, focadas na preocupação com o meio ambiente e na igualdade social. Há muitas delas pelo mundo hoje, com motivações espirituais, sociais e ambientais, voltadas para um novo paradigma. A maioria está em localidades do interior, onde a organização das comunidades é mais fácil do que nas cidades. No Sri Lanka, por exemplo, há uma rede com 16 mil vilas tradicionais. Há também ecovilas na Itália, na Escócia e na Índia, além da Dinamarca. Há um crescente número de pequenas comunidades sendo formadas, e é difícil precisar exatamente quantas pessoas estão envolvidas. É importante ressaltar que esse movimento inclui também as vilas tradicionais. Eu acredito que todos nós provavelmente acabaremos vivendo em ecovilas.

Mas a evolução para esse tipo de organização será sem percalços?
Não, a mudança certamente vai ser um processo doloroso. É a primeira vez que nossa civilização se vê no limite, em termos de recursos, então obviamente vamos ter que passar por um período dramático. Vai ser muito difícil para o ser humano aprender a mudar sua forma de pensar.Para muitas pessoas a estratégia de explorar recursos indiscriminadamente, gerar resíduos etc. tem parecido bem-sucedida. Esse é um pensamento equivocado e individualista. Nós temos que mudar a mentalidade, derrubar as fronteiras entre as nações e perceber que o planeta é uma nave muito vulnerável. Precisamos pensar no planeta como um organismo vivo, então não podemos pensar em soluções para nossos problemas de maneira individualista.

Qual será o princípio básico dessa nova sociedade?
Eu acho que numa sociedade futura nós vamos ter que distinguir bem entre o que precisamos e o que desejamos. Quando todos tiverem aquilo de que necessitam comida, moradia, justiça social , aí nós teremos uma sociedade estável.Hoje as diferenças são muito grandes. Quando diminuímos a distância entre ricos e pobres, temos um sentido maior de comunidade.

O que o senhor costuma responder a quem o aponta como um sonhador?
Eu acho que os políticos é que são os reais sonhadores. Eles não estão encarando a realidade, negam os problemas reais e não têm soluções para esses problemas. As pessoas que hoje já vivem em comunidades sustentáveis estão lidando com a realidade e superando problemas. Nós temos que aprender a viver de maneira mais simples e de modo sustentável. Quem nega essa realidade é que é sonhador.

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