Colecionador de histórias

José Mindlin, o leitor impulsivo que ergueu com amor e humor a maior biblioteca particular do país

Atualizado em 20/11/2011

Reportagem: Redação VIDA SIMPLES - Edição: Lígia Scalise

Texto: O maior apaixonado por livros colecionou e criou a maior biblioteca particular
Foto: Reprodução revista VIDA SIMPLES

A biblioteca de José Mindlin resulta de seu amor pela leitura, que despertou nele a busca pelos livros, as sagas por obtê-los, o prazer de olhá-los, que resultou numa paixão incansável por publicações. A ponto de ele mesmo, o maior bibliófilo brasileiro, resumir como sendo "uma loucura mansa".

Árvore das letras
José Mindlin nasceu em São Paulo. Foi o terceiro entre os quatro filhos de um casal de russos que imigraram para o Brasil no final do século 19. Tinha 13 anos quando, em 1927, já fuçava livrarias e sebos e comprava seus primeiros livros. Entre eles, um que contava a história do Brasil e que estava recheado de indicações bibliográficas. Que Mindlin seguiu, pois queria saber mais. Escreveu para várias livrarias, perguntando pelas obras citadas que já eram, naquela época, bem raras. Recebeu apenas uma resposta. Veio da Livraria Francisco Alves, no Rio de Janeiro, que lhe ofereceu uma edição chamada História do Brasil, publicada em seis volumes, em 1862. Aí, sim, foi o começo da história.

"Fui me interessando cada vez mais por leitura, descobrindo autores, e daí em diante foi ladeira abaixo". Amante de literatura estrangeira e brasileira e mais de tudo aquilo que se relaciona ao Brasil, Mindlin dizia ter sido picado por uma mosca, responsável pela transmissão do vírus da leitura.

Chegou a trabalhar como redator do jornal O Estado de S. Paulo com 16 anos. Mas se bandeou para a advocacia. Passou boa parte das suas aulas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) lendo sem parar. Ali conheceu a moça de nome Guita Kauffmann. Quando a viu pela primeira vez, ela estava cercada por moços que tentavam convencê-la a se inscrever em algum partido estudantil. "Olhei para aquela confusão, ela no meio. Então me aproximei e disse-lhe que tudo aquilo era bobagem, que o bom partido dali era eu", conta Mindlin. Os dois se casaram em seguida e tiveram quatros filhos. Deles vieram os dez netos e mais sete bisnetos. Todos crescendo à sombra da imensa biblioteca.

Em Guita Mindlin encontrou sua parceria na vida, em suas andanças em busca dos livros. Houve muita cumplicidade entre os dois. Se Mindlin mergulhou fundo na procura de obras raras, Guita especializou-se em restauração de livros. Outro exemplo: ele adorava ler poesias em voz alta, enquanto o que ela gosta é de sentar-se para ouvir poesias.

O melhor amigo do leitor
Os livros foram os responsáveis por várias de suas amizades. Tornou-se amigo, por exemplo, do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Foi ainda amigo de João Guimarães Rosa (1908-1967), de quem guardou, com todo cuidado e orgulho que possa existir neste mundo, o original de Grande Sertão: Veredas, um calhamaço datilografado e corrigido a mão. Outra preciosidade: um original de Graciliano Ramos (1892-1953).

Os exemplos acima seriam o ápice da paixão de Mindlin, que começava quando lia os livros em edições comuns. Depois, procurava por outras obras do mesmo autor, até ler sua obra completa. Aí, então, muitas vezes em conversas, percebia que existem outras edições, do mesmo autor, porém mais bem impressas, às vezes fartamente ilustradas.

Erguida graças à paixão, a coleção de Mindlin ganhou proporções não apenas gigantes, mas ainda bem valiosas. Dentre elas, o mais antigo livro data de antes da chegada dos europeus a estas terras. Trata-se da primeira edição ilustrada dos Sonetos, de Petrarca, impressa em 1488. Há ainda um manuscrito com orações datado do século 15. E a primeiríssima edição de Os Lusíadas (1572), de Camões.

Algumas das obras raras foram adquiridas em sagas que mostram como a vida de José Mindlin se misturava à da sua biblioteca. Como a vez em que se meteu a vender publicações raras, na livraria que montou no centro de São Paulo, A Parthenon. Na década de 1940, ele e um amigo receberam um investimento para montar o negócio. Seguiram então para uma Europa devastada em busca de livros. O problema, contava Mindlin, era o momento em que chegavam os compradores.

Como nem só de livros vive o homem, Mindlin tornou-se empresário. Em 1949 ele fundou, com alguns amigos, a Metal Leve, uma potência na fabricação de autopeças. Para ele, o que importa foi o papel social que sua empresa conseguiu exercer. Foi assim que a empresa começou a patrocinar edições fac-símiles de documentos sobre a história da literatura brasileira. Na companhia de sua filha Diana, Mindlin cuidou especialmente do aspecto gráfico das obras, com a intenção de manter as reproduções bem próximas das originais. Ressurgiram publicações como A Revista, originalmente editada por Carlos Drummond de Andrade, e a Revista de Antropofagia, um dos mais importantes documentos da história do modernismo brasileiro.

Loucura Mansa
Numa decisão da família, a parte dedicada ao Brasil da coleção (mais da metade dos livros) será doada à Universidade de São Paulo (USP), num projeto acalentado há pelo menos 20 anos. "A ideia é que a biblioteca não se pulverize, não se espalhe e que,ao menos num período de 100 anos, não seja privatizada", explicou Sérgio, filho de Mindlin.

Mindlin chegou, inclusive, a fazer um cálculo de quanto tempo precisaria para ler todos os seus títulos: 300 anos. "Mas não conseguiu achar a fórmula para viver tanto. Então resolvi me contentar com o tempo de que eu disponho, que eu não sei qual é, mas que, enquanto durar, eu vou aproveitando", disse antes de morrer no ano de 2010. É esta, enfim, sua loucura mansa.

Para saber mais

Não Faço Nada sem Alegria - A Biblioteca Indisciplinada de Guita e José Mindlin , São Paulo, Museu Lasar Segall
José Mindlin, Editor, Tereza Kikuchi (org.), São Paulo, Edusp
Uma Vida entre Livros - Reencontros com o Tempo, José Mindlin, São Paulo, Edusp/Companhia das Letras
Memória Esparsas de uma Biblioteca - Entrevista a Cleber Teixeira e Dorothée de Bruchard, São Paulo, Escritório do Livro e Imprensa Oficial

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