Como apreciar uma obra de arte?
Uma obra de arte exige percepção de novas sensações e seu sentido vai muito além das salas de exposição
Atualizado em 10/08/2011
Bruno Moreschi
O mundo das artes é o mundo das nuances, fundamental em nossa vida
Foto: Eduard Frapont
Muita gente afirma não gostar de artes plásticas, porque não entende nada de pintura, escultura e, principalmente, de manifestações artísticas contemporâneas. Mas que tal aceitar o fato de que a arte é algo inexplicável? Algo em aberto para as mais diversas interpretações? O mundo das artes plásticas é das nuances. E, por isso mesmo, fundamental em nossa vida.
O artista e crítico de arte Fernando Cocchiarale, que já deu cursos com o sugestivo título "Quem tem medo da arte contemporânea?", acredita que uma obra de arte possui funções muito mais sensoriais que a de simplesmente ser entendida num discurso escrito ou falado. Ele explica: "A reivindicação de um entender fácil e objetivo é quase sempre uma resistência diante das sensações que uma obra pode causar. No fundo, quem acha que um trabalho precisa ter uma explicação completa está simplesmente se recusando a experimentá-lo como arte".
O contexto
Mas e a relutância em aceitar as múltiplas manifestações da arte contemporânea? Um dos maiores preconceitos para com ela vem do fato de várias pessoas não verem a arte de hoje com os olhos de hoje. Uma das obras mais conhecidas do artista plástico brasileiro Cildo Meireles são garrafas de Coca-Cola. Mas alguns detalhes devem ser levados em conta. Cildo escreveu nos rótulos das bebidas a frase "Yankees, go home!". Em seguida, devolveu as garrafas de vidro para circulação. Por fim, a obra foi produzida em 1970, período em que o Brasil vivia uma ditadura militar, se não apoiada, pelo menos vista com complacência pelo governo americano. Naquele momento, produzir arte numa garrafa de Coca-Cola era algo pertinente e cheio de significado.
Para a arte de hoje, o museu tradicional nem sempre é o local ideal. Grande parte da produção artística atual precisa de muito mais que uma parede ou uma sala branca para ser exibida. O espaço criado até hoje mais propício para a arte contemporânea fica no Brasil, mais precisamente em Brumadinho, uma cidade mineira de quase 34 mil habitantes e localizada a cerca de 50 quilômetros de Belo Horizonte. Ali está o Instituto Inhotim, com 97 hectares de mata nativa e mais de 500 obras produzidas de 1960 até os nossos dias. "Museus convencionais muitas vezes só podem colecionar ilustrações ou fragmentos das obras contemporâneas", afirma Rodrigo Moura, um dos curadores do Inhotim. As palavras de Moura lembram as do artista Hélio Oiticica, que também tem obras no acervo da instituição e sempre questionou a arte mais tradicional. Ele dizia: "Já se vê que a velha sala de museu não dá mais pé".
O ganho
A arte não cura os males e tampouco nos deixa mais cultos da noite para o dia. Mas o exercício imaginativo que ela nos oferece faz um bem fundamental - e o bem aqui não é sinônimo de apenas contentamento, já que uma obra de arte pode nos causar angústia. Afinal, um mundo sem as experimentações vistas nas artes plásticas é um mundo menos humano. Talvez isso seja a única coisa que realmente precisemos entender quando observamos uma obra de arte.




































