Concepção de leitura passa por mudanças na era da internet
Em uma época de textos curtos e fragmentados, cheios de hiperlinks, como fica nossa relação com a leitura?
Publicado em 29/08/2011
Ramon Mello
Alguns especialistas defendem que o meio não influencia a leitura
Foto: Getty Images
Em uma cena, Marylin Monroe, com uma expressão concentrada, retira um livro da prateleira. Em outra fotografia, Vinicius de Moraes posa com uma de suas antologias poéticas. Ambas as imagens fazem parte do blog O Silêncio dos Livros, nome emprestado de um dos títulos do crítico francês George Steiner. Apesar de falar de livros, o espaço virtual não traz textos, apenas imagens variadas de pessoas lendo.
"Grande parte das imagens que conhecemos relacionadas com leitura são de um silêncio absoluto. Existe melhor silêncio que aquele que o leitor exige durante a leitura?", diz o português Hugo Miguel Costa, livreiro de profissão e criador do blog. A relação entre quem lê e os livros é uma relação íntima, silenciosa, cheia de carinho. Mas será que essa relação permanecerá a mesma, em uma época em que os computadores estão em toda parte, e as coisas que lemos são cada vez mais fragmentadas?
"Nos tempos que correm somos praticamente todos leitores, mas cada vez menos leitores de livros", afirma Costa. Lemos o tempo todo: e-mails, reportagens e artigos enviados por email, frases e histórias contadas por amigos nas redes sociais, como Facebook e Twitter. Mas será que toda essa atividade faz bem ou mal para nossos hábitos de leitura? A discussão não é gratuita: para um texto ganhar vida, ele precisa da interação com o leitor, e a forma como ele vai interagir com o texto vai alterar sua percepção do conteúdo.
A concepção de leitura na sociedade contemporânea é muito diferente da sociedade de duas décadas atrás; ela exige uma atenção múltipla para aprender a lidar com enorme quantidade links e hiperlinks conectados a um texto.
Segundo a pesquisadora Maria Lucia Santaella Braga, professora da PUC-SP e autora do livro O Perfil Cognitivo do Leitor Imersivo (Paulus, 2004), hoje existem três tipos de leitor convivendo ao mesmo tempo. Um deles é o leitor contemplativo, da era préindustrial. Outro é o leitor que ela chama de "movente", que lê não só o livro impresso mas também os signos urbanos. E, finalmente, o leitor imersivo, que navega pelas redes de comunicação e tem a atenção necessária para lidar com a enorme quantidade de links e hiperlinks ligados a um texto. São três perfis, três formas de ler, que convivem lado a lado - e sem uma ser melhor que a outra.
Segundo a poeta e professora Suzana Vargas, autora de Leitura, uma "Aprendizagem de Prazer" (José Olympio, 1997), os livros não devem ser confundidos com a leitura. Ela acredita que os suportes se modificam, mas a leitura permanece a mesma. "A minha fé é na leitura e não na forma como ela se dá", diz. "O ato de ler é um ato de entrega. Eu leio um papiro da mesma forma que leio um livro. Eu leio um e-book da mesma forma que leio um livro."
Independentemente do suporte, os brasileiros estão lendo mais. Ao menos segundo a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", a principal fonte sobre o comportamento leitor no país. O estudo, apresentado em maio de 2010 pelo Instituto Pró-Livro, constatou que 95 milhões de pessoas, ou seja, 55% da população, são leitoras. O número é maior que os 49% da pesquisa anterior, realizada entre 2000 e 2001.
A pesquisa apontou também que o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. "A maioria dos brasileiros associa a leitura ao conhecimento, seja aquele que será utilizado na vida, seja aquele ligado a situações específicas, como a escola. A internet pode mudar esse perfil na medida em que enfrentar, como se espera que aconteça, a exclusão digital", afirma o organizador de "Retratos da Leitura no Brasil" (Imprensa Oficial/SP, 2008), livro que reúne artigos de especialistas que se debruçaram sobre os resultados da pesquisa.




































