Conheça a muçulmana Zilka Spahic-Siljak, que espalha mensagens de paz

A muçulmana Zilka Spahic-Siljak tem visitado diferentes vilarejos na Bósnia sempre com a mesma mensagem: é possível viver em paz

Atualizado em 25/08/2011

Mariana Del Grande

Zilka Spahic-Siljak

Ela luta pela paz e para unir as diferentes etnias da Bósnia
Foto: Divulgação / Ilustração: O Silva

Quando encontrei Zilka Spahic-Siljak, pesquisadora e professora do Centro para Estudos Interdisciplinares de Pós-Graduação da Universidade de Sarajevo, na Bósnia, o Ramadã já havia começado. Zilka, muçulmana praticante, jejuava. "Estou cansada, ainda não tive um dia de descanso", disse, com um sorriso. Além da atividade acadêmica - ela ensina disciplinas ligadas a gênero, direitos humanos e religião - , Zilka dirige há 15 anos a Fundação Educacional, Psicossocial e Transcultural, uma entidade voltada para trabalhos práticos de reconciliação e diálogo em vilarejos marcados pela guerra que devastou a Bósnia (1992-95), durante o esfacelamento da ex-Iugoslávia.

Num país formado por três etnias majoritárias frequentemente confundidas com identidade religiosa - sérvios (ortodoxos), croatas (católicos) e bosniaks (muçulmanos) - e que esteve quase 50 anos sob um regime socialista, o período pós-guerra propiciou o recrudescimento de antigos nacionalismos e de ódios latentes na sociedade. "Como é importante reunir pessoas de grupos étnicos e religiosos diferentes neste país! Temos muito trabalho", diz. Ela e sua equipe promovem workshops, reuniões e eventos em vilarejos ortodoxos, católicos e muçulmanos sempre com a mesma mensagem: é possível conviver com o outro. "Queremos contribuir para a melhora da relação entre as pessoas, ensiná-las a perdoar, a se reconciliar, a viver juntas de novo". Não se trata de tarefa fácil; a equipe encontra resistências por todos os lados, de cidadãos comuns a líderes políticos ou religiosos, todos céticos em relação às mudanças.

A guerra também deixou marcas em Zilka, que engravidou durante o período. "Não foi uma decisão racional, mas estou feliz que tenha sido assim". O conflito ainda estava em curso quando ela começou o trabalho de acolhimento e assistência aos refugiados, especialmente mulheres que foram estupradas ou sofreram algum tipo de violência.

Hoje, segundo ela, a situação é diferente. Por lidar com temas relacionados à paz e ao perdão, valores em que realmente acredita, acompanha muitas histórias positivas, de reconciliação e mudança de comportamento. "A paz é um processo que não pode ser interrompido, temos de ser agentes permanentemente", diz Zilka. Aos 42 anos, embora tenha vivido numa cidade sitiada durante a guerra e visto muitas atrocidades, ela não deixa que suas esperanças percam o frescor. Ao fim da conversa, confessa: "Sou uma romântica". O mundo lhe agradece.

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