Consciente coletivo
Graças à internet, cada vez mais o conhecimento e as artes são produzidos coletivamente. Bem-vindo à cultura da colaboração
Atualizado em 04/09/2011
Ronaldo Bressane
A inteligência colaborativa pode render novas ideias em trabalhos criativos
Foto: Adriana Momura
Socializou geral: a criação individual passou a ser questionada por uma série de artistas, produtores de conteúdo e até comerciantes. São os tempos, como dizem alguns, da "cultura wiki" (de Wikipédia, a enciclopédia online construída por milhões de autores anônimos). Mas será mesmo possível que o conhecimento seja criado coletivamente?
Façamos uma diferença clara entre a inteligência individualista, do ponto fixo, e a colaborativa, da obra aberta, da rede. Sobre esta segunda é fundamental a Obra Aberta de Umberto Eco, revolucionário estudo da teoria da informação lançado, não por acaso, no ano de 1968. Ali o ensaísta italiano propõe uma divisão entre o discurso aberto (pense na internet, de múltiplos emissores e receptores) e no discurso persuasivo (pense na TV, um só emissor, vários receptores).
Essa verdadeira inteligência colaborativa foi definida nos termos de hoje pela cientista norte-americana Vera John-Steiner, em Creative Collaboration ("Colaboração criativa", sem edição brasileira). A autora investiga como as ideias surgem através da observação do método de trabalho de parcerias famosas, como entre os artistas Georges Braque & Pablo Picasso, ou os físicos Albert Einstein & Niels Bohr.
O editor
Pesquisando inteligência colaborativa na web, topei com o blog de Gilberto Jr., que indica a leitura de um artigo de Kathy Sierra sobre a sabedoria das multidões. Segundo essa crítica professora de programação e criadora de games norteamericana, aproveitar a inteligência coletiva pode trazer muitos benefícios - e a interdependência é a senha aqui. Kathy exemplifica:
- Inteligência coletiva são todas as fotos no Flickr, tiradas por indivíduos independentes, e as novas ideias criadas por esse grupo de fotos. Burrice das multidões é esperar que um grupo de pessoas crie e edite uma foto juntas;
- Inteligência coletiva é pegar ideias de diferentes perspectivas e pessoas. Burrice das multidões é tirar cegamente uma média das ideias de diferentes pessoas e esperar um grande avanço.
Isso significa que, mesmo socializada, a inteligência colaborativa não dispensa um eixo organizativo; em outras palavras, é preciso um editor.
O autor
O modelo colaborativo tem uma faceta mais radical: a dissolução da autoria. Nesse terreno batalham os coletivos profissionais de fotógrafos. A massificação da oferta de imagens e a saturação dos meios de difusão tradicionais apresentam aos autores a necessidade de gerar novos modelos de representação, capazes de destacar sua produção entre milhões. Assim, os coletivos atuam tanto como banco de imagens como plataforma comum para furar um mercado fechado, ou como máquina de criação conjunta, gerando interessantes sinergias e fóruns de discussão entre os membros da equipe. No Brasil, grupos como o paulistano Cia de Foto e o carioca Fotonauta fazem seus autores desaparecerem por trás de suas lentes - mais ou menos como se Lennon e McCartney jamais assinassem canções sob seus nomes, e sim sempre como os Beatles.
Ainda na dúvida sobre quem vence a briga pela criação, se o bloco do eu-sozinho ou os conectados? Fique com um trecho de uma carta de Mário de Andrade escrita para Otto Lara Resende, que tinha 22 anos na época. Mário, líder do Modernismo, incitava Otto e colegas (Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos) ao exercício da criação coletiva:
"Queria louvar o grupo que vocês fazem, pela força de cada um, pela diferença de cada um, pelo exercício da amizade que soube escolher sem por isso depender de nenhum estreito 'espírito de grupo'. Talvez tenha sido o que mais me faltou. E os meus companheiros de geração, guardo deles este ressentimento, ainda vinham tão apegados ao exercício do individualismo que jamais pudemos viver os benefícios, as forças do grupo. Vocês precisam amar o vosso grupo e não será invejar demais se me ponho antes de mais nada amando o grupo de vocês e refazendo nele o que eu nunca pude ter. Não é inveja, é saudade".
Mário de Andrade escreveu a carta em 25 de setembro de 1944. Se você, como eu, saiu deste artigo com mais perguntas que respostas, fique tranquilo. A inteligência colaborativa apenas começou. Caso queira uma iluminaçãozinha que seja, aqui vai uma, apoiada em lugar-comum: nada substitui o talento. Porém, também o talento não substitui o nada que circunda uma inteligência solitária.




































