A era do "tô me achando"

Por que necessitamos cada vez mais da aprovação dos outros? Entenda como funcionam os mecanismos da vaidade - e saiba como se imunizar para não ficar se achando

Publicado em 05/10/2009

Reportagem: Ronaldo Bressane - Edição: Amanda Zacarkim

Nos dias atuais, a impressão é de que vaidade pouca é bobagem
Foto: Claus Lehman

A cada segundo somos expostos às biografias mais irretocáveis, à pose generalizada de famosos e anônimos. Mas um momento: você já experimentou sair por aí toda desleixada ou esconder de parentes e amigos aquele êxito no trabalho? Impossível, não? Porque, hoje, não ter vaidade - não ter o hábito de apregoar aos quatro cantos, reais e virtuais, o quanto você pode ser atraente, sensacional e única - parece ser um dos maiores pecados da nossa era, esse tempo em que todo mundo parece estar "se achando".

Narcisismo epidêmico

Na sua ampla e incansável psiquiatrização do cotidiano, os norte-americanos já tratam a vaidade como patologia. Autora de Generation Me ("Geração eu", sem edição brasileira), a psicóloga Jean Twenge crê que a autoconfiante geração nascida em 1980 - que passa horas lambendo as migalhas da própria existência no Facebook - é muito mais narcisista que as gerações anteriores.

Twenge trabalhou com o colega W. Keith Campbell no recém-lançado best-seller a analisar os miolos moles dos ianques: The Narcissism Epidemic ("O narcisismo epidêmico", ainda sem edição brasileira). Numa amostragem de 35 mil jovens, a dupla de psicólogos descobriu que 6% sofriam de transtorno obsessivo narcisista. Contudo, somente 3% das pessoas acima de 65 anos tinham esse transtorno. "Um dado a comprovar que estamos em uma epidemia fora de controle", afirma o psicólogo.

Ele enumera quatro causas: a educação dos pais, a cultura de celebridades, a mídia e o crédito barato. "Muitos pais tratam seus filhos como reis", diz. "Reality shows são altamente narcisistas, e supõe-se que sejam a vida real; neles, subentende-se que o narcisismo é algo normal". Campbell é especialmente duro com a rede. "As pessoas colocam fotos sensuais, a coleção de amigos, as músicas legais no Facebook. Para piorar, crédito barato faz com que os jovens gastem para se parecerem melhores do que realmente são. Têm coisas que não fizeram força nenhuma para pagar". Claro que esse argumento financeiro tem muito a ver com a realidade americana - mas, afinal, o mundo está cada vez mais parecido com os Estados Unidos.

Solidão em massa

Na outra ponta do estudo do narcisismo, o filósofo francês Gilles Lipovetsky faz uma abordagem ao mesmo tempo eufórica e catastrófica - espelho fiel do espírito da época, a que ele nomeia como A Era do Vazio. Em O Império do Efêmero, ele interpreta a cultura contemporânea através da importância cada vez mais crescente da moda. Diz que a moda condensa na ideia de individualidade os ideais da Revolução: liberdade, igualdade, fraternidade.

"A promoção das frivolidades só se pôde efetuar porque novas normas se impuseram, desqualificando o culto heroico de essência feudal e a moral cristã tradicional, que considera as frivolidades como signos do pecado do orgulho", afirma Lipovetsky. "Da ideia de altivez relativa à dignificação das coisas terrestres saiu o culto moderno da moda, uma das manifestações (...) da humanização do sublime". O filósofo não separa a moda - e, assim, o fascínio pelo Novo - da ideologia individualista, do culto ao bem estar, aos gozos materiais, à vontade de enfraquecer a autoridade e as coações morais, ao triunfo da ideologia do prazer.

No entanto, Lipovetsky lembra que a busca dos valores individuais traz um fenômeno ainda mais estranho que o estudado pelos senhores psicólogos acima: a "solidão em massa" refletida no número cada vez maior de suicídios. "A era da moda consumada é inseparável da fratura na comunidade e do déficit de comunicação: as pessoas se queixam de não serem compreendidas ou ouvidas, de não saberem se exprimir".

O pensador francês sugere que vivemos um segundo momento da Era do Vazio, em que "a busca da riqueza não tem nenhum objetivo senão excitar admiração ou inveja". Nesse mundo ultracompetitivo, o Outro só faz sentido se viabilizar o sucesso do Eu. Em A Era do Vazio, Lipovetsky aproxima os conceitos de vacuidade e vaidade, vazio e Narciso: "Que outra imagem é melhor para significar a emergência de individualismo na sensibilidade psicológica, centrada sobre a realização emocional de si mesma, ávida de juventude, de esportes, de ritmo? (...) O neonarcisismo é psicologia pop: a expressão sem retoques, a prioridade do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença em relação aos conteúdos, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário".

LIVROS
O Império do Efêmero, Gilles Lipovetsky, Companhia das Letras
A Era do Vazio, Gilles Lipovetsky, Manole

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