O humor e a graça da vida

Conheça e aprimore seu humor, só ele é capaz de trazer mais encanto aos seus dias

Publicado em 16/05/2008

Reportagem: Leandro Quintanilha - Edição: Amanda Zacarkim

Ter humor é questão de inteligência - e de treino
Foto: Reprodução

Coisa mais sem graça explicar piada. Mas, ok, vamos lá: um gracejo é uma luta entre intelectos. De um lado, o humorista, para quem só serve a vitória. Do outro, o espectador, para quem o melhor resultado é... a derrota. O espectador vai resistir até o fim, protegendo a guarda dos clichês. No ringue do humor, só vale a pena perder se o golpe for certeiro, imprevisto. Desses que deixam o abdome dolorido, do tanto que se ri.

Mas... para que serve a comicidade? De forma breve: para aliviar a tensão, estabelecer contato, espantar o medo, protestar contra a ordem vigente, denunciar uma hipocrisia, escapar do vazio existencial ou, ufa, apenas deixar essa vidinha besta um pouco mais divertida. No livro O Riso, o filósofo francês Henri Bergson propõe um exercício: Basta tapar os ouvidos ao som da música, num salão de baile, para que os dançarinos lhe pareçam ridículos. Porque a comicidade, ele acredita, exige algo como uma anestesia momentânea do coração - ela se dirige à inteligência pura. É um descanso para as emoções.

E um elixir para o corpo, como explica o médico Roberto Leal Boohrem no Dicionário de Medicina Natural. Quando rimos, acentuamos nossa freqüência respiratória, introduzindo mais oxigênio no sangue e aumentando os batimentos cardíacos. O humor também está relacionado à liberação de hormônios estimulantes, como a adrenalina. Você fica fisicamente mais disposto e mentalmente mais alerta.

Questão de treino

Anote aí: piada é só uma reorganização autoral das circunstâncias. Você pode se identificar com o humor de alguém, mas é preciso achar o seu. Como se faz isso? Você observa a sociedade, os costumes, e pinça o que lhe parece engraçado. Depois, frio na barriga, você precisa testar a piada em público. Entenda piada aqui não como uma anedota completa, dessas que se contam em rodinhas nas festas: às vezes, é um pensamento, uma frase, um trejeito, um conceito.

Às vezes, é o detalhe que faz a diferença. Mas sem apego. Se não der certo, você parte para outro gracejo e uma nova sessão de testes. O importante é não ter medo do fracasso e aprender a usar o retorno que recebe das pessoas como um meio de se aprimorar. Como já disse Luís Fernando Veríssimo, a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.

Nada para rir

Mas a função primordial do humor talvez seja solucionar, com irreverência, as perguntas não respondidas pela ciência, pela filosofia e pelas religiões. Como escreveu o acadêmico francês Armand Petitjean, não há nada que um humor inteligente não possa resolver com uma gargalhada, nem mesmo o nada. O humor é uma forma de coragem, é antimedo.

Freud, o pai da psicanálise, afirmava que o riso é uma tentativa de recuperação da espontaneidade na infância. No ensaio O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente, de 1905, ele define o instante da comicidade como a eliminação temporária da censura diante da angústia e da ansiedade, assim como o sonho, o imaginário e a fantasia. O humor seria a percepção sublimada das tragédias humanas.

O chiste (piada, trocadilho ou afins) pode ser inocente ou tendencioso. Nesse caso, uma forma de distorcer, agredir ou manipular. Um golpe baixo, para retomar a metáfora pugilista. É um tipo de humor que até entretém determinados públicos, mas pode desencadear sofrimento e incitar reações violentas. A depreciação é mais humana quando autodepreciação.

Sem hora certa

Humor é para a vida. Mas é claro que a arte pode dar algumas deixas. A companhia de palhaços improvisadores Jogando no Quintal, de São Paulo, treina três vezes por semana para apresentar espetáculos sem... roteiro. Com uma estrutura inicial simples, uma partida de futebol, eles se entregam às idéias do público para a concepção de um humor instantâneo e colaborativo.

Um espectador levanta um tema e os palhaços já começam a vivenciar as histórias. Sem comunicação prévia, privada, os colegas precisam se manter atentos uns às escolhas dos outros. "No humor, você não pode se tornar refém das próprias expectativas", ensina Marco Gonçalves, o palhaço Fonseca. É um exercício de liberdade e generosidade, em que o mais importante, quem diria, é o processo não o fim. Nem parece piada.

Porque a vida é assim, não? Pode acabar de repente, sem o arremate esperado. Por isso, aceite esse humilde trocadilho: ri melhor quem ri durante. Quando você vive o humor no cotidiano, já descobriu a graça. E pode, numa boa, abrir mão de um desfecho engraçadinho.

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