As ideias visionárias do filósofo Walter Benjamin

O filósofo alemão Walter Benjamin é (ainda hoje) um dos melhores intérpretes de nossa época. Conheça suas ideias

Atualizado em 10/08/2011

José Francisco Botelho

Walter Benjamin é um dos filósofos que mais soube interpretar a contemporaneidade
Ilustração: Estúdio Área

Muitas vezes, quem melhor capta a essência de uma época são aqueles que nela não se ajustam: os náufragos da história, condenados a lutar contra o tempo em que nasceram - e, por isso mesmo, capazes de vivê-lo e de interpretá-lo com intensidade única. Nesse sentido, o judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940) encarnou a alma da modernidade - porque nela se sentia desconfortável, desorientado e cheio de angústia. Homem de aspirações utópicas, foi um espírito do século 19 transportado para o século 20: viu a civilização industrial com olhos de estrangeiro e por isso foi capaz de compreendê-la profeticamente.

Inadequação crônica

Walter Benjamin nasceu em Berlim, em uma família de judeus, nos tempos do Império Alemão. No início da juventude, assistiu o Velho Mundo descer aos infernos nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Das ruínas da belle époque, emergiu uma Europa mecanizada e cheia de traumas.

Benjamin jamais se adaptou aos novos tempos. Seu campo de estudo e fascínio era a vida humana: refletia com igual profundidade sobre a literatura alemã, a história dos brinquedos e a Hagadá (livro da Páscoa) judaica. Sua recusa à especialização custou-lhe a carreira acadêmica. Impossibilitado de lecionar, por excesso de inteligência, Benjamin passou a ganhar a vida com traduções e esporádicos artigos para jornais e revistas (o que faz dele, hoje, uma espécie de santo padroeiro dos escritores freelancer).

Outro motivo de desentendimento entre Benjamin e sua época foi um fenômeno moderno que o próprio autor diagnosticou, em ensaios como O Narrador, de 1935: a perda da experiência coletiva. Para Benjamin, as sociedades baseadas no artesanato viviam num tempo lento e orgânico, ritmado pelos trabalhos manuais, um tempo em que as experiências individuais podiam sedimentar-se e transmitir-se gradualmente em tradições compartilhadas. No século 20, os acontecimentos passaram a se amontoar de forma tão veloz que a mente humana se tornou impermeável à realidade. O homem industrial estava condenado a ser o fragmento de um quebra-cabeça cuja forma não percebia. "Por isso, parecemos estar perdendo uma faculdade que antes nos parecia segura e inalienável", escreve Benjamin, "a faculdade de intercambiar experiências".

Em agosto de 1939, o ditador soviético Joseph Stalin assinou um pacto de não agressão com Hitler - o que lançou boa parte dos intelectuais marxistas da Europa num estado de perplexidade. Dois meses depois, os nazistas invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. E foi sob o choque desses acontecimentos que Benjamin pôs-se a redigir, no início de 1940, um de seus textos mais pungentes: as curtas e eloquentes Teses sobre o Conceito de História, último escrito que completou antes de morrer.

Ruínas ao léu

A decepção política com o marxismo e o sonho teológico judaico perpassam suas Teses, escritas em tons de parábola. Nessa reflexão, Benjamin lança um ataque certeiro contra o credo do mundo: a fé no progresso inelutável da humanidade.

No centro dessa concepção, está a ideia de que o presente é necessariamente melhor que o passado - em todos os aspectos. Segundo Benjamin, o culto ao Deus Progresso era uma neurose universal da qual o marxismo também padecia.

No lugar do Deus Progresso, Benjamin colocou o demônio da catástrofe. O avanço da técnica, o domínio material sobre a natureza, a capacidade de detonar bombas - nada disso, argumenta Benjamin, tem um valor em si mesmo. O desenvolvimento moderno pode ser uma aceleração rumo ao desastre.

Naufrágio anunciado

Benjamin fugiu de Paris em junho de 1940, um dia antes que o exército alemão entrasse na capital. Em agosto, conseguiu escapar para a Espanha. Ele já estava na cidade fronteiriça de Portbou, na Catalunha, quando recebeu a notícia fatídica: o governo de Franco cancelara os vistos de todos os refugiados vindos da França. Após meses de pânico e fuga, Walter Benjamin tomou uma overdose de morfina em seu quarto de hotel, em 25 de setembro de 1940. As folhas rabiscadas com as Teses sobreviveram: antes de fugir de Paris, ele entregara uma cópia a sua amiga, a filósofa Hannah Arendt, que, meses depois, conseguiu escapar para os Estados Unidos.

O suicídio de Benjamin simbolizou de forma exemplar o naufrágio da modernidade. Em sua concepção da história, cada nova era estraçalha algo de precioso que o período anterior conseguiu preservar.

Livros
Obras Escolhidas I, Walter Benjamin, Brasiliense
A Filosofia de Walter Benjamin, Benjamin/Osborne, Zahar

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