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A lógica de Aristóteles

O pensador grego Aristóteles deixou uma obra incompleta que é uma das grandes maravilhas da humanidade

Atualizado em 08/09/2011

Reportagem: José Francisco Botelho - Edição: MdeMulher

Aristóteles é chamado de "O" Filósofo mesmo depois de séculos de estudos e evolução do pensamento
Ilustração: Catarina Bessel

Modelo do erudito que une paixão e rigor, moderação e ímpeto, Aristóteles deixou uma obra incompleta e imperfeita que é uma das grandes maravilhas da inteligência humana. Ele ganhou séculos após sua morte um cognome de sucinta reverência: Ille Philosophus, ou, simplesmente, "O" Filósofo. Para o bem ou para o mal, é nas pegadas desse gigante que andamos e meditamos há mais de dois milênios.

Discípulo e mestre

Embora tenha ganhado fama em Atenas, Ille Philosophus nasceu na cidade de Estagira, na região da Calcídica, dominada pela vizinha Macedônia. Aos 18 anos, ingressou na Academia, escola fundada e chefiada por Platão. Ao longo de 20 anos, Aristóteles foi o discípulo brilhante de um mestre incomparável. Mas havia meio século de diferença entre eles - além disso, ambos eram gênios, e isso significa que mais cedo ou mais tarde acabariam brigando.

Após a morte de seu tutor e rival, em 347 a.C., Aristóteles deixou Atenas e passou alguns anos vivendo como pensador itinerante pela costa do Mediterrâneo. Foi à Macedônia, a convite do então monarca Felipe II, que o encarregou de uma missão formidável: educar o rebelde e fogoso príncipe Alexandre. Assim, o discípulo do maior filósofo da época tornou-se mestre do futuro conquistador do mundo conhecido.

Pensador universal

O filósofo retornou a Atenas em 334 a.C. e fundou uma nova escola, o Liceu, para rivalizar com a Academia platônica. Sua reputação de brilhantismo atraiu multidões de alunos de todas as partes da Grécia. Nesse período, Aristóteles ainda produziu uma obra de proporções mitológicas. Minúsculo resquício dessa biblioteca, a coleção conhecida como Corpus Aristotelicum é assim mesmo uma enciclopédia universal: são 47 livros que tratam de assuntos tão variados quanto a meteorologia, a mecânica dos astros, os meandros da política e da ética e os enigmas da poesia. Os livros que o filósofo publicou em vida perderam-se após a queda do Império Romano, no século 5. Os extraviados trabalhos de Aristóteles são um dos grandes tesouros invisíveis da literatura mundial - por injustiça poética, tudo o que conhecemos são os rabiscos de sua genialidade.

A ferramenta lógica

Aristóteles talvez tenha sido o mais eclético dos pensadores, mas antes de tudo, ele foi o pai da lógica, a arte ou a técnica do pensamento metódico e disciplinado. Não é um fim, mas um meio: um instrumento preliminar para a reflexão sobre a realidade. Por isso, as anotações que Aristóteles compôs sobre o assunto foram reunidas com o nome de Organon - em grego, "a Ferramenta".

Para Aristóteles, o ato de conhecer começa pelos sentidos - vendo, ouvindo, sentindo, gravamos uma série de impressões sobre a infinidade de coisas e seres que formam o universo. Mentalmente, computamos o que os indivíduos têm em comum e no que diferem, formando sobre eles conceitos gerais. Essa acrobacia do múltiplo ao inteligível, do particular ao universal, é o que Aristóteles chama de indução. Um exemplo de conhecimento indutivo: nossa experiência sugere que todas as pessoas que conhecemos (ou das quais ouvimos falar) nascem, envelhecem e um dia morrem; disso induzimos o princípio de que "todos os humanos são mortais". A indução, contudo, não gera certezas, mas axiomas - princípios aceitos pelo senso comum, embora indemonstráveis na prática.

Limites do conhecimento

Os axiomas são o ponto de partida para o segundo tipo de raciocínio na lógica aristotélica: a dedução ou silogismo, que faz o caminho inverso à indução, estabelecendo fatos particulares a partir de verdades supostamente universais. O silogismo clássico é formado por duas afirmativas iniciais - as premissas - e uma conclusão.

Ao destrinchar essas engrenagens, Aristóteles plantou a semente do pensamento científico - mas também deixou um implícito grão de insegurança no coração do conhecimento humano.

Além desse insolúvel duelo entre o conhecimento e a incerteza, Aristóteles deixou um legado moral ao afirmar a dignidade da vida contemplativa. Para ele, o intelecto e o gosto estético são os maiores dons humanos - e nossa felicidade possível está na fruição desinteressada dessas faculdades: "o funcionamento da inteligência é um fim em si mesmo, e em si mesmo encontra o prazer que o faz funcionar mais".

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