Entre o luxo e a justiça
Essa é a escolha que a nossa geração deverá fazer para salvar o planeta, afirma o pensador francês André Comte-Sponville
Atualizado em 08/09/2011
Reportagem: Carol Bensimon - Edição: MdeMulher
O pensador francês trata de temas da vida contemporânea, como ética e economia
Foto: Reprodução
Nascido em Paris, em 1952, André Comte-Sponville é autor de uma obra filosófica bastante popular na França e fora dela, na qual ele transita por temas clássicos, como o amor e a felicidade, e as urgências da vida contemporânea. Em um de seus livros mais célebres, O Capitalismo É Moral?, o filósofo discute a relação entre ética e economia. Ateu declarado, Comte-Sponville não renega, no entanto, a educação católica recebida durante a infância e a adolescência, e suas obras estão carregadas de referências ao budismo e a outras religiões orientais, das quais ele diz ser grande admirador. O que parece contraditório à primeira vista pode ser resumido assim: o pensador francês é partidário de uma espiritualidade que pretende ir além das religiões e da crença em Deus, pensamento que ele expõe na obra O Espírito do Ateísmo. André Comte-Sponville já foi professor da Sorbonne, mas hoje dedica-se exclusivamente a seus livros e às palestras que ministra. Confira a entrevista.
Para ter a consciência tranquila, há muita gente disposta a pagar mais caro por produtos menos agressivos ao ambiente. A moral se tornou um argumento de venda?
É um pouco mais complexo. O que eu digo é que a economia não é moral. Isso não quer dizer que a moral não tenha qualquer relação com a economia, mas que essa relação passa exclusivamente pela consciência dos indivíduos. Há um fenômeno de moda na onda ecológica, é claro, mas há também um problema de verdade, que é moral: que planeta queremos deixar para nossos filhos? Que a ecologia tenha virado um argumento de venda para as empresas, isso não impede que ela seja também uma exigência moral para os indivíduos!
Se todos pudessem ter os hábitos de consumo de um europeu médio, o resultado seria desastroso para o meio ambiente. A desigualdade é necessária para a manutenção do planeta?
Se todos os seres humanos tivessem, por exemplo, o mesmo nível de vida de um africano médio, o planeta estaria muito melhor. O que é incompatível com a sustentabilidade do planeta não é simplesmente a igualdade, mas a igualdade na abundância e no luxo. Então será preciso escolher, em algum momento, entre o luxo e a justiça, entre a abundância e a sobrevivência. Esse é o problema do desenvolvimento sustentável, sem dúvida a questão política mais importante da atualidade.
A felicidade é um tema recorrente em sua obra. No que a filosofia pode ajudar na busca por ela?
Em primeiro lugar, ajudando a compreender o que ela é. E o que é a felicidade? É o contrário da tristeza. É preciso partir daí. Ora, e o que é a tristeza? Todo período, para um indivíduo, no qual parece impossível sentir-se alegre. A felicidade é o contrário da tristeza: sou feliz quando tenho a sensação de que a alegria é imediatamente possível, que pode aparecer de um momento a outro, que ela talvez já esteja aqui, claro que não de maneira permanente, mas com essa facilidade, essa espontaneidade, essa leveza que torna a vida agradável. A felicidade não é algo absoluto, mas como é bom!
E o que pode fazer as pessoas se sentirem felizes?
Nenhum aspecto externo é suficiente: nem o dinheiro, nem o sucesso, nem o poder, nem a família, nem mesmo o fato de ser amado por fulano ou beltrano. A felicidade depende de uma disposição interior. Qual? A que os antigos chamavam de "sabedoria", e que nós poderíamos chamar, de forma mais simplificada, amor à vida. E eu estou dizendo "amor à vida", feliz ou infeliz, e não à felicidade.
Na sua opinião, quais são hoje as grandes questões contemporâneas que devem aparecer na filosofia?
A maioria das grandes questões filosóficas são mais eternas que contemporâneas: a questão do ser, a de Deus ou de sua inexistência, a vida, a morte, a liberdade, o amor, a moral, o conhecimento
o suficiente para ocupar uma vida! O que não impede o interesse pelas questões atuais. Em primeiro lugar, porque essas questões eternas devem chegar, hoje, a respostas que convenham à nossa época. E também porque há novas questões que surgem e que é preciso enfrentar. As principais me parecem ser a do desenvolvimento sustentável, da bioética e da globalização (sobretudo no aspecto cultural). Além disso, é preciso repensar a questão política: levar em conta o fracasso do marxismo, sem desistir, no entanto, de transformar a sociedade.
Para saber mais
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Martins Fontes
O Capitalismo É Moral?, Martins Fontes




































