A obra de Nietzsche: entre razão e instinto
A obra de Nietzsche é marcada pelo fatalismo da existência humana. Conheça as ideias de um dos maiores pensadores do século 20
Atualizado em 08/09/2011
Reportagem: José Francisco Botelho - Edição: MdeMulher
Nietzsche se inspirou as tragédias gregas para teorizar sobre a existência humana
Foto: Flavio Demarchi
Insatisfeito e provocador, o alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) foi o maior enfant terrible da filosofia ocidental nos últimos dois séculos. Ele cortejou o escândalo, brincou com a loucura e amargou uma vida solitária e infeliz. Sua recompensa é o fascínio que continua exercendo sobre gerações de leitores mais de 100 anos após sua morte: pode-se discordar de suas opiniões, mas é impossível não se enredar em sua prosa vertiginosa. Escritor, poeta, músico e crítico da cultura, Nietzsche foi acima de tudo um pensador hiperbólico - em suas paixões, em seus rancores, em sua lucidez e em seu delírio.
É de sua lavra aquele mantra repetido pelo ateísmo moderno: "Deus morreu". A força original de seu pensamento é a revolta contra os exageros do racionalismo - sua controversa façanha foi a ideia de que a razão humana possa estabelecer verdades absolutas. Contra esse fundamentalismo do intelecto, Nietzsche propôs a madura aceitação do que exista de irracional no universo e em nós mesmos. Ele se inspirou na sabedoria das tragédias gregas para elaborar sua mistura de pessimismo e afirmação da vida, numa espécie de misticismo sem Deus, que vê na arte a única redenção possível para o ser humano.
Anticristo?
O autoproclamado Anticristo da filosofia veio ao mundo em uma família de tradição religiosa. Brigou com a família por sua perda de fé, tornou-se um erudito precoce e, com apenas 24 anos, virou professor de língua e literatura grega na Universidade de Basileia. Em 1870, começou a escrever sua primeira obra-prima: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Publicado em 1872, o livro é um fascinante mergulho no espírito da antiga civilização grega, em que a reflexão filosófica flerta com a poesia.
Para Nietzsche, a chave da sabedoria está em aceitar o lado selvagem e transitório da vida - o que não significa renunciar a ela. Esse perigoso equilíbrio entre o prazer de viver e o fatalismo existencial é regido, na filosofia de Nietzsche, por duas figuras opostas e complementares: os deuses Apolo e Dionísio, enfezados irmãos olímpicos, que entre socos e abraços regulam o estado de espírito da humanidade.
Na obra de Nietzsche, esses são dois impulsos que determinam a postura humana diante da vida em diferentes épocas e lugares. Na mitologia grega, Apolo é o deus da harmonia, da ordem, da civilização, recalcando o lado sombrio da existência. O apolíneo leva o homem a desafiar o cosmos desumano e a criar a mais doce das ilusões - a vida em civilização.
De tempos em tempos, contudo, o límpido reino de Apolo é invadido por seu irmão escandaloso e mal comportado. Deus da embriaguez, do êxtase e das emoções descontroladas, Dionísio é o símbolo da desmedida, do reencontro com a pulsão caótica da natureza. O dionisíaco quer rasgar o véu das ilusões e colocar-nos em contato com o verdadeiro fundamento da vida - o eterno ciclo de destruição e recriação do universo, regido por forças incompreensíveis, além do nosso entendimento. Dionísio traz a intuição de que todas as regras humanas, como a moralidade, são convenções, abrindo-nos um espaço que está "além do bem e do mal" - expressão que dá título a outra obra famosa de Nietzsche.
Perigos do intelecto
O "homem trágico", modelo de conduta para Nietzsche, é aquele que conhece os limites do entendimento humano e, contudo, não perde a libido pela vida. Para Nietzsche, essa difícil simetria foi rompida pelo triunfo do racionalismo, que ocorreu com a filosofia de Sócrates e Platão no século 4 a.C. Renunciando ao mistério, ele põe suas supostas verdades acima dos prazeres indecifráveis da arte e da vida.
Após O Nascimento da Tragédia, Nietzsche continuou sua cruzada contra a tirania racionalista em obras cada vez mais ácidas e mordazes. Sua verve explosiva acabou lhe arruinando a carreira acadêmica e afastou- o dos amigos. Sua saúde deteriorou-se e Nietzsche começou a perder a voz e a visão, deixando a vida universitária. Essa descida aos infernos completou- se aos 45 anos, quando a sombra da loucura, que sempre o havia rondado, atingiu-o de forma devastadora.
Cem anos após o ato final dessa tragédia, a obra de seu anti-herói continua fonte de perturbação e inspiração. Loucamente lúcido, ele continua a lançar-nos seu desafio: conseguiremos aceitar o estranho, o obscuro e o caótico em nós mesmos, sem cair no precipício? O próprio Nietzsche tropeçou em sua busca do ideal trágico: embora pregasse o equilíbrio entre Apolo e Dionísio, acabou resvalando para o lado da desmedida - prova disso é a megalomania de alguns de seus últimos escritos. Mas, apesar das polêmicas, Nietzsche foi um grande escritor e expressou como poucos a fragilidade heroica do homem em um mundo nem sempre acolhedor e raramente compreensível.
Para saber mais
O Nascimento da Tragédia, Friedrich Nietzsche
Nietzsche, Jean Granier, L&PM Pocket















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