Orlando: o branco querido pelos índios
A vida de Orlando parece lenda. Ele e seus dois irmãos foram os primeiros brancos homenageados pelos indigenas
Publicado em 22/06/2007
Reportagem: Marcia Bindo - Edição: Lígia Scalise
Texto: A família Villas Boas lutou em defesa dos índios e receberam o carinho em troca
Foto: foto Arquivo família Orlando Villas Boas
Orlando Villas Bôas tem uma vida que parece lenda ou filme de ação. Sua jornada começa em 1943, quando é criada uma expedição para explorar áreas do Brasil. Era a Expedição Roncador-Xingu, assim como conta Orlando em sua autobiografia. Nascido em 1914 em uma fazenda de café no interior de São Paulo, Orlando passou a infância com a família em Botucatu. A fazenda ia mal, o que fez a família se mudar para São Paulo. Os pais morreram logo depois.
Animado com a possibilidade de mudança, Orlando mais seus dois irmãos tentaram se inscrever na expedição, sem sucesso. Mas isso não era um problema. Com uma trouxa nas costas, os Villas Bôas viajaram para Aragarças, em Goiás, base da expedição. Conseguiram passar por sertanejos e ganhar emprego como trabalhadores braçais. Até que um dia foram desmascarados por serem alfabetizados e nomeados para cargos mais importantes. Tudo pronto, Orlando começa a marcha para o oeste, um percurso que iria mudar sua vida.
A olho nu: os índios
À medida que a expedição, com seus 20 e tantos homens, abria picada mata adentro, os índios começavam a dar sinais de que estavam por perto. Ao mesmo tempo que Orlando se embrenhava na mata e fazia contato com um universo totalmente desconhecido, mais clara ficava sua visão sobre os indios.
Seus relatos dão conta de que ele se encantou com aquelas sociedades, como ele mesmo dizia, estáveis, organizadas, onde ninguém manda em ninguém e as pessoas respeitam a natureza, as crianças, os idosos.
Com o mesmo olhar cuidadoso, Orlando conseguiu estreitar a relação com um personagem peculiar e desconhecido da sociedade urbanizada: o sertanejo. Afinal, a maioria dos braços contratados para a expedição foi recrutada entre os esparsos grupos de extrativistas da mata - seringueiros, castanheiros, garimpeiros, enfim, aquela gente sem lei, embrutecida e acostumada com o crime.
Da mesma maneira como viu o ser humano que havia debaixo da pele nua pintada e enfeitada com penas dos índios, Orlando descobriu que o sertanejo, por trás das palavras rudes, era um homem de extrema boa-fé. E, como Orlando relata, era nas cantorias feitas no improviso que os sertanejos deixavam transparecer sua alma.
Criação do Xingu
Orlando achou que era preciso garantir a sobrevivência e a cultura das numerosas tribos da região. Ele acreditava que o índio só sobreviveria em sua própria cultura e que o governo brasileiro deveria protegê-lo, assegurando suas terras, sem a preocupação de assimilá-lo em nossa sociedade.
Sua postura lhe valeu muitas críticas, mas suas idéias prosperavam, a despeito da resistência, um pouco por seu charme pessoal e sua capacidade de diálogo. Ele sabia cativar as gentes, falava muitas línguas e assim dialogava com todos. Após quase dez anos de campanha dos irmãos Villas Bôas, foi criado pelo governo brasileiro em abril de 1961 o Parque Nacional do Xingu, hoje conhecido como Parque Indígena do Xingu, localizado na região nordeste do estado do Mato Grosso.
Um dos objetivos da criação do parque era o isolamento do índio xinguano, para evitar contatos prematuros e nocivos com a sociedade urbana em expansão.O segundo objetivo era manter no centro do país uma grande reserva natural.
O Grande Cacique Branco do Xingu, como Orlando ficou conhecido entre os índios, passou 40 anos na região do Xingu. E foi lá que conheceu sua mulher, Marina, uma moça que chegou em 1963, aos 25 anos, para trabalhar como enfermeira no parque. Eles tiveram dois filhos.
Seu marido achava que seria necessário pouco a pouco preparar as comunidades indígenas para enfrentar o inevitável contato com a civilização. Até o fim de sua vida ele visitava a reserva, ensinando os índios para um dia assumirem a organização do parque. Foi o que aconteceu.
Kuarup, a despedida
Dia 20 de julho de 2003. Aos poucos o pátio da aldeia Yawalapiti é tomado por gente de todas as tribos xinguanas para assistir ao kuarup, cerimônia realizada quando morre alguém de importância nas tribos. Era o kuarup de Orlando, falecido em 12 de dezembro de 2002. Os primeiros brancos homenageados na cerimônia foram seus irmãos Cláudio, falecido em 1998, e Leonardo, que morreu no início da expedição, em 1961. O kuarup é a encenação da lenda da criação. Há cantos, danças e lutas. Cada família enfeita seu morto com enfeites e chora um dia e uma noite. Ao pé de cada toro de madeira é aceso um pequeno fogo pela família.
Acredita-se que o morto continua vagando pelos lugares de que gostava quando era vivo. Só quando acontece o kuarup e a chama do fogo se apaga o morto finalmente se desliga da vida terrena. Para a família de Orlando, que foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1976 pelo resgate e pacificação das tribos xinguanas, o kuarup foi a maior das homenagens.
Para saber mais
A Marcha Para o Oeste, Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas, Globo
A Arte dos Pajés, Orlando Villas Bôas, Globo
O Xingu dos Villas Bôas, coordenação Agência Estado, Metalivros




































