Sumi-ê: pintura espontânea
A técnica derivada do zen-budismo forma figuras únicas. É a arte sem esboço
Atualizado em 19/11/2011
Reportagem: Gabriel Grossi - Edição: Lígia Scalise
Texto: Em poucos minutos nasce uma pintura sumi-ê, técnica chinesa que se espalhou pelo mundo
Foto: Reprodução revista VIDA SIMPLES
É preciso estar totalmente concentrado na atividade, para deixar o braço deslizar sobre a folha e refletir os sentimentos do autor naquele exato momento. É assim, em poucos minutos, que nasce uma pintura sumi-ê, uma técnica chinesa que chegou ao Japão no século 13 e de lá se espalhou pelo mundo. Sua principal característica é mesmo a rapidez. O artista sabe que o trabalho deve ser único, espontâneo. Concentração total como a meditação. Em vez de formas perfeitas, figuras subjetivas que nos obrigam a buscar na memória os pedaços que faltam.
Sumi, em japonês, quer dizer tinta preta. Ê é desenho, pintura. Até o início do século passado, o sumi-ê era só preto no branco mesmo. Mais recentemente, as tintas coloridas (gansai), sempre em tons suaves, passaram a ser aceitas pelos mestres nipônicos. Agora, aliás, elas estão na moda, mas só para pontuar detalhes ou compor um pedaço do fundo. O que realmente importa é valorizar os espaços vazios. Você não pode invadir o branco porque essa é uma pintura que honra o silêncio, resume José Roberto Bueno, dono de uma academia de aikidô e artista diletante. São os espaços não pintados que dão vida à cena.
Os praticantes do zen procuram libertar a mente dos fatos cotidianos por meio de exercícios de meditação, a mesma busca pelo desprendimento, pelo vazio, que orienta os desenhos. No papel, esses princípios estéticos e filosóficos se traduzem em assimetria, singeleza, naturalidade, profundidade, desapego, quietude e serenidade interior.
Conheça a técnica
Mas como alcançar tantas coisas boas? Como quase tudo na vida, esse caminho requer dedicação e treino. Primeiro, é essencial aprender a dominar os materiais. O pincel deve ser japonês e feito com pêlos de animais (o mesmo usado para caligrafia). A tinta é feita à base de carvão e cola e precisa ser diluída em água. No Japão, muitos preferem o papel de arroz. Aqui, o melhor é o papel-filtro, encontrado em laboratórios químicos, justamente para absorver instantaneamente a água e não deixá-la se espalhar, como na pintura de aquarela.
Depois, vem a técnica. No começo, a base é copiar, como em diversos processos orientais. O mestre faz e o aluno reproduz. A idéia é fazer o mesmo traço tantas vezes até ele passar a ser seu. O "alfabeto" do sumi-ê (linha fina, cheia, curta, longa, só um pontinho) está todo contido em quatro figuras básicas: orquídea selvagem, bambu, ameixeira e crisântemo. As figuras representam as quatro estações e expressam, por suas características, valores como humildade, integridade, firmeza e lealdade, entre outros. Depois de executá-las à exaustão, você está apto a desenhar qualquer outra coisa.
Percebe-se que é preciso ter muita concentração e disciplina. Assim como a maioria das práticas orientais, esta também exige não só dedicação, mas integração, porque existe um objetivo maior: expressar a espiritualidade humana.




































