O valor das brincadeiras em todas as idades

Da infância à fase adulta, as brincadeiras são formas de autoconhecimento e transmitem valores que interferem indiretamente no modo de viver

Publicado em 07/11/2008

Reportagem: Leandro Quintanilha - Edição: MdeMulher

Brincar em qualquer fase da vida só depende da imaginação de cada um
Foto: Dreamstime

Boa parte das brincadeiras infantis são um ensaio para a vida adulta. Criança brinca de ser mãe, pai, cozinheiro, motorista, polícia, ladrão (e isso, você sabe, não implica nenhum tipo de propensão ao crime). E, ah, quando não há ninguém por perto, brinca de médico também. É uma forma de viver todas as vidas possíveis antes de fazer uma escolha ou descoberta. Talvez seja por isso que a gente pare de brincar aos poucos - como se tudo isso perdesse o sentido quando viramos adultos de verdade. E tudo agora é para valer. Mas será que parar de brincar é, de fato, uma decisão madura?

Atividades de recreação e lazer estimulam o imaginário e a criatividade, facilitam a socialização e nos ajudam a combater o estresse. Mas, se tudo isso for o objetivo, perde a graça, deixa de ser brincadeira. Vira mais uma atividade produtiva a cumprir na agenda. Você só brinca de verdade (ainda que de mentirinha) pelo prazer de brincar. E só. Como escreveu Rubem Alves, quem brinca não quer chegar a lugar nenhum - já chegou.

Jogo da vida

Na verdade, a gente nunca para de brincar completamente. O humor, por exemplo, é herdeiro em primeiro grau da brincadeira. Outra forma corrente de brincar na vida adulta é no contato com crianças, com a justificativa de estimulá-las e entretê-las. São os adultos que repassam antigas brincadeiras adiante, como a amarelinha. Se não houver gente grande empenhada em preservar o patrimônio lúdico, ele vai se extinguir. Quem tem filhos, sobrinhos ou primos pequenos sabe o quanto isso pode ser divertido, ainda que se perca de propósito.

O poeta gaúcho Mário Quintana escreveu certa vez que nunca se deve tirar um brinquedo de uma criança - tenha ela 8 ou 80 anos. Nunca se é velho demais para jogar dominó, ludo, gamão. A fabricante Grow estima que cerca de 20% dos usuários desses jogos sejam adultos. Isso sem mencionar os jogos do tipo quiz, de cultura geral - ou "inútil", veja que apropriado. Há outras formas de brincar na vida adulta - mas são estas, as que reproduzem momentos vividos na infância, as mais puras de objetivo. Brincadeiras que se bastam em si.

Um ditado inglês diz que a única diferença entre homens e meninos é o preço de seus brinquedos. Hoje, o consumo é uma forma de lazer largamente experimentada em todas as idades. E mesmo que um carro (de verdade) proporcione algum contato entre imaginário e matéria, característica fundamental da brincadeira, esse bem-estar pode ser comprometido por uma série de implicações associadas ao consumo - a competição social por status, a afirmação de uma autoestima fragilizada e a negação do envelhecimento.

Para a psicopedagoga Tânia Ramos Fortuna, coordenadora do projeto "Quem Quer Brincar?", da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o que causa mais cansaço e estresse no mundo dos adultos não é o excesso de trabalho, mas a falta de diversão. Ela cita o poeta Álvaro Moreyra: "Infância, juventude e velhice são aparências do corpo: a alma faz coleção". O adulto que você é hoje pode ter muito mais de condicionamento social que de amadurecimento pessoal - pense sobre isso.

A brincadeira é, antes de tudo, uma forma de relação com o mundo. Brincando, o bebê aprende o que é o seu corpo - e o que é o do outro ou o que é coisa. "Só depois dos 4 ou 5 meses a criança compreende que ela não é também a fraldinha, a grade do berço, a mamãe", diz Tânia. É nesse momento que o bebê experimenta uma espécie de depressão primária, como definiu a psicoterapeuta Melanie Klein. Descobre que é fisicamente limitado.

Mas é também brincando que ele transcende essa realidade (para lidar com ela), ao estabelecer uma conexão entre a matéria e o pensamento, a realidade e a imaginação. A criança que brinca vai além do que é. O adulto também. A arte, a espiritualidade e o sexo são brincadeiras de adulto - formas mais sofisticadas de transcendência. Um trabalho apaixonante também. Mas tudo isso pode estar impregnado de outros objetivos além da experiência do momento. Uma partida de jogo-da-velha, não.

Conhecimento

Faz sentido: brincadeira é uma forma de autoconhecimento. E tudo bem se você não se sentir confortável com todo tipo de brincadeira. Mesmo na infância a gente sempre prefere um determinado tipo de jogo ou atividade. Se baralho ou gamão não fazem seu gênero, procure outra turminha. Você pode brincar até conversando. Hoje, é possível encontrar em livrarias uma espécie de baralho de bate-papo. Cada carta tem um tema ou uma pergunta para dar um rumo mais criativo (ou inusitado) à conversa.

Às vezes, a brincadeira está na transgressão do sentido de uma situação racional, "sensata". Na verdade, como explica Neusa Karlan, a brincadeira depende mais de sua atitude que do brinquedo ou da atividade em si. "Se você abraça um travesseiro pensando em alguém, é uma brincadeira." Porque você já nasce equipado - o melhor brinquedo é a sua imaginação.

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