A vida e a obra do cantor Serge Gainsbourg
O cantor francês Serge Gainsbourg era toda uma atitude diante da vida: irônico, sexy, frágil e macho. Saiba mais sobre esse mito da cultura pop
Atualizado em 09/08/2011
Daniel Benevides
A vida e a obria do polêmico Gainsbourg podem ser inspirações para o dia a dia
Foto: Divulgação Mauvaises nouvelles des étoiles
Condenado pela Igreja e proibido em metade do mundo, o single Je T'Aime Moi Non Plus, de Serge Gainbourg poderia ser chamado de "liturgia lúbrica", tal a pureza da melodia. A voz frágil de Jane Birkin aumenta a confusão de sentidos. Serge Gainsbourg, artesão imbatível desse tipo de provocação, se defendia dizendo que "Je T'Aime..." era uma declaração de amor - a primeira que havia feito.
Em 1979, Serge voltou a mexer no vespeiro conservador. Foi à Jamaica e gravou o hino francês em versão reggae, num tom que pendia bem mais para deboche que para homenagem. Vestiu o orgulho pátrio com as cores de uma antiga colônia europeia. Fez da "Marselhesa" um hit radiofônico do verão. Confrontado por ameaças e protestos da extrema direita, declarou ter devolvido ao hino seu espírito revolucionário, já que o reggae é uma música não conformista, de resistência.
Gênio e mártir
O que une essas canções, além do teor de escândalo, é que são grandes criações artísticas. Desde muito cedo, o pequeno Lucien Ginsburg, nascido em 1928, já tocava piano e desenhava. O talento fora herdado do pai, Joseph, pianista de jazz e amante das artes, e da mãe, Olia, cantora lírica de forte personalidade, ambos judeus russos.
E foi com essa autoconfiança tirada da cartola que conquistou algumas colegas na academia de pintura onde estudava. Depois, trocou a pintura pelo piano, com o qual conseguia pagar as contas em cabarés de travestis em Pigalle e boates na Rive Gauche. Abandona também o nome. Troca-o por Serge, mais "russo" e viril, e afrancesa o sobrenome judeu. Inspirado em Boris Vian, romancista, cantor e compositor, começa a compor canções que causavam estranhamento. Alegres ou bonitas por fora, mas cínicas e sombrias por dentro, tinham letras de um humor tão genial quanto desdenhoso, que falavam de álcool e mulheres, e eram cheias de trocadilhos.
Timidez embriagada
O primeiro disco veio aos 30 anos. Du Chante à la Une não encantou o grande público, mas sua forma peculiar de jazz à francesa fez algum barulho no meio artístico. A ponto de a musa existencialista da chanson, Juliette Gréco, pedir que compusesse para ela, o que ele fez com enorme sucesso.
Mas a grande virada aconteceu mesmo quando conheceu Brigitte Bardot. Juntos, encarnaram a bela e a fera com paixão arrebatadora e abertamente sexual. No espírito festivo da época, mas com um charme especial, gravaram Bonnie and Clyde, Initials BB e Comic Strip. Isso, sem contar um compacto intitulado Je T'Aime Moi Non Plus. O teor erótico da música e os boatos levaram o marido a impedir o lançamento e reconquistar Bardot na marra.
Gainsbourg ficou arrasado com a separação e se afundou no álcool, cigarros e mulheres. Até que foi apresentado a uma inglesinha impertinente. Escalados para um filme, precisavam parecer apaixonados e não tinham ido com a cara um do outro. Jane Birkin, recém-separada de John Barry (o autor das trilhas de James Bond), achava-o um velho bêbado e chato.
Mas saíram para jantar e... deu certo. Vinte anos mais nova, Jane era tudo o que buscava numa mulher: divertida, linda, inteligente e aberta a participar, como coprotagonista, de sua vida e obra idiossincrática.
Renascentista torto
A segunda versão de "Je T'Aime Moi Non Plus", dessa vez com Jane, havia lhe dado enorme liberdade criativa, tal o sucesso. Em 1971, compôs Histoire de Melody Nelson, álbum que para muitos é seu melhor trabalho. Renascentista meio torto, também dirigiu e atuou em filmes, compôs trilhas sonoras, escreveu uma novela, fez publicidade. Mas continuou compondo para outros intérpretes: fez álbuns inteiros para Jane, Isabelle Adjani, Catherine Deneuve, Alain Bashung e Charlotte, adorada filha, além de criar uma nova Lolita, Vanessa Paradis, e sair em turnê com a banda francesa de rock Bijou.
Nos anos 1980, no entanto, seus discos começaram a decair, assim como a saúde. A situação piorou depois que Jane, cansada de suas loucuras, o trocou por um diretor de cinema. O consumo de álcool e cigarros, se algum dia o ajudou a combater a timidez, agora era um obstáculo à sobrevivência.
Mas o público continuava lotando seus shows para adorar sua figura cada vez mais instável. Quando morreu, dormindo em sua cama, a França parou. Naquele dia de 1991, suas músicas foram entoadas como hino nacional.
No ano passado, foi lançada uma cinebiografia caricata, mas divertida: Gainsbourg (Vie Héroïque). No fim das contas, para muitos, deus é mesmo um fumador de cigarros.
Assista a uma seleção de clipes do grande poeta francês do amor:
http://www.youtube.com/watch?v=duAk5um3B30&feature=fvst
http://www.youtube.com/watch?v=trLGhbFDIAk&feature=fvst
http://www.youtube.com/watch?v=NuZklVrHspM
http://www.youtube.com/watch?v=LE06lqT0Y2g&feature=related




































