Vida e obra de Erasmo Carlos
Conheça a vida e a obra de Erasmo Carlos, o melhor amigo do Rei e um dos pais-fundadores do rock brasileiro
Publicado em 28/07/2010
Reportagem: Marcelo Montenegro - Edição: Amanda Zacarkim
O Tremendã conta histórias de sua vida no livro Minha Fama de Mau
Foto: Daryan Dornelles
Histórias deliciosas, doloridas, tragicômicas e instrutivas estão em Minha Fama de Mau, livro que Erasmo Carlos publicou em 2008. Embora faça questão de frisar que não se trata de biografia ("São contos, histórias engraçadas que aconteceram comigo na vida", explica em entrevista), o livro nos converte em observadores privilegiados da trajetória profissional e afetiva de um dos grandes ícones da música brasileira.
Somado ao elogiado Rock'n'Roll, disco de inéditas em que revisita suas raízes roqueiras, lançado em 2009, o ano de 2010 flagra Erasmo Carlos a um só tempo produtivo e em dia com a própria história para comemorar seus 50 anos de carreira.
O marco é "Pra sempre", canção gravada em 1960 com os Snakes. O grupo era formado com os amigos China, Edson Trindade e Arlênio Lívio. Arlênio, antes, integrara os Sputniks, com Tim Maia, então simplesmente "Tião", e Roberto Carlos. Foi Arlênio o responsável por apresentar os futuros parceiros e amigos.
Farra no tempo
"A gente imagina um filminho", diz Erasmo sobre o ponto do qual ele e Roberto partem para fazer uma música. "Quando o disco é meu, eu conduzo o começo, o meio e o fim da história. E fazemos o contrário, quando o disco é dele". Difícil algum brasileiro que não carregue na memória uma cena em que a trilha sonora não tenha ao menos uma canção inesquecível da dupla. E não são poucas. Em torno de 400 - das mais ou menos 500 canções que Erasmo calcula ter composto até hoje - foram feitas com o amigo.
Ao lado da "ternurinha" Wanderléa, Erasmo e Roberto tornaram-se astros comandando o Jovem Guarda. O programa, que estreou em 28 de agosto de 1965, permaneceu por três anos no ar, transformando-se num dos mais importantes movimentos culturais dos anos 60. Como figuras centrais, a dupla que criou "Festa de Arromba" e "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" viveu os dois extremos da história. De um lado, sucesso gigantesco. De outro, acusações de alienar a juventude, vindas dos setores politizados. Para Erasmo, era uma visão, no mínimo, equivocada. "Mas o preconceito existe até hoje", diz.
Diferentemente de Roberto, Erasmo diversificou seus parceiros desde então - de Jorge Ben a Marisa Monte e Marcelo Camelo. "O coração do Roberto é cantor, o meu é compositor, então é uma coisa natural", afirma. Roberto, no entanto, permanece o único com o qual trabalha à moda antiga. Ou seja, fisicamente juntos.
Pioneiro
"Desde Marlon Brando e James Dean sou chegada num bad boy. E Erasmo era o bad boy da Jovem Guarda, o que para mim significa ser ele o verdadeiro pai do rock brasileiro", escreve Rita Lee, na apresentação de Rock'n'Roll.
Os caminhos do Tremendão se confundem com a própria história do rock nacional. Sua ligação com o estilo é tamanha que por vezes deixamos de mencionar que Erasmo é um dos precursores do chamado samba rock. Compôs clássicos do gênero, como "Coqueiro Verde", regravada pelo Trio Mocotó, e "Mané João", cantada com Gilberto Gil no disco de duetos Erasmo Carlos Convida (1980).
"Na verdade, eu me considero simplesmente um compositor brasileiro", diz Erasmo, que acaba iluminando, em outras palavras, sua condição de pioneiro: "Eu fui criado com batucada na Tijuca. Mas vi o rock'n'roll nascer. E a bossa nova logo depois. Foi algo muito especial viver a magia do nascimento".
É preciso saber viver
"Procuro sempre encarar as situações difíceis com leveza e considero o humor importantíssimo", diz. O Gigante Gentil - como é conhecido entre seus pares -, em suas palavras, é um sujeito simples. Basta um minuto de conversa para que ele dissolva em informalidade toda sua história.
Depois de toda a consagração, alguém como Erasmo Carlos ainda sente frio na barriga? "Toda hora. Não só antes de show. Mas de programa de TV, entrevista, tudo. E não é insegurança. É a expectativa do que vai vir do outro lado, que você nunca sabe o que é. E o artista vive disso. Dessa emoção que volta pra gente".
Como diz a famosa frase de Saint-Exupéry, que o compositor adora citar: "És responsável pelo que cativas". Se a vida, como diz em Minha Fama de Mau, "sorriu para o menino da Tijuca", é porque Erasmo Carlos vem sorrindo para ela há anos - e 50 deles tocando no coração das pessoas.
Livro
Minha Fama de Mau, Erasmo Carlos, Objetiva




































