Novelas, Passione
Ao atender o telefone, uma voz bonita de mulher me disse que se tratava de uma pesquisa a respeito de um conceituado jornal do qual sou assinante. Atendi prontamente. Quantos dias eu lia o jornal? Todos. Há quanto tempo eu era assinante? Vinte anos. E aí a pergunta fatal: quantos anos eu tinha? Quando disse minha idade, a conversa mudou de rumo. A pesquisadora me disse que a grade de perguntas solicitava a opinião de outro leitor que não fosse assinante. Mas, que diabos, eu sou leitora e assinante!
Então entendi: não sou mais o público-alvo! Para o jornal, eu não existo, mas o meu dinheiro no fim do mês eles aceitam. Minha opinião e dos que têm acima de 60 anos não vale mais. Um preconceito que enterra as pessoas vivas.
O jornal que se diz tão moderno é mal informado. Afinal, a população idosa, que também dá as cartas financeiramente, aumentou.
Pergunto: Cleyde Yáconis, a dona Brígida de Passione, 85 anos, ainda dirige, mora sozinha e comanda a própria vida. Está dando um baile de talento na TV. Ela também não será ouvida pela pesquisa? Fernanda Montenegro, 80 anos de capacidade, talento e classe. Também terá de emudecer? E Hebe Camargo, 81 anos, saindo de uma doença gravíssima e já de volta ao trabalho, comandando seu programa e a própria vida? E tantas mulheres que trabalham fora já em idade avançada? E outras que assumem as tarefas da casa, criando netos porque os filhos trabalham – eu incluída?
Cá entre nós, é um trabalho pesado, e nós aguentamos! Mas, para dar uma opinião, o mercado diz que não existimos! Armo o meu braço e dou uma solene banana para o tal mercado. Avante mulherada! Basta de hipocrisia! E punto!
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Gente, minha filha diz que meu parque de diversões é o supermercado, e está certa. Divirto-me com a variedade dos tipos que transitam por lá. Às vezes me escandalizo ou morro de rir, por dentro. Raramente fico comovida, como aconteceu um dia desses.
Estava pegando qualquer coisa quando ouvi uma voz macia de senhora perguntando: “Levo este, meu querido?”. Havia tanta ternura em sua voz que levantei a cabeça, crente que ela conversava com o neto. Que nada! Era o marido o motivo de tanta doçura. Distraídos, os dois velhinhos não perceberam que eu os analisava. Ela estava elegante e discreta, nada que não combinasse com a idade. Ele, também sóbrio: calça cinza, camisa azul, jaqueta bege e boné de lã. Chamava-se Antônio. Não sei o nome dela, pois ele só se referia à esposa como “minha querida”.
Há tempos não via um casal na plenitude do amor, da cumplicidade, do respeito. Deles, partia algo mágico, de quem leva a vida e os sentimentos a sério. Que bela família devem ter construído! Com certeza já completaram bodas de ouro, jamais pensaram em divórcio e não precisam de beijo de língua para se realizar sexualmente, pois o amor deles era puro erotismo!
Vou ao “casal” televisivo, dona Brígida (Cleyde Yáconis) e seu Antenor (Leonardo Villar), de Passione. Um amor às avessas, implicante. Ela, mais lúcida, sempre aponta os esquecimentos dele. A memória vai indo embora… ou não? Será uma forma de Antenor chamar a atenção? Faz parte do jogo.
Dois casais, um de verdade e um de mentira. Um amor maduro, outro ainda adolescente. Mas, em ambos os casos, se um morrer, o outro morre também.
Xênia Bier
A ex-apresentadora comenta toda semana na AnaMaria o que acontece na TV, sob um ponto de vista bem pessoal e muito polêmico.
@revistaanamariaCategorias
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