A Vida da Gente
Gente, o que leva uma pessoa a sentir-se dona do mundo, com o direito de tratar os outros com desprezo, descaso, humilhando os mais humildes com os olhos faiscando ódio? O que leva uma pessoa a desprezar a própria mãe, dedicando a ela um sentimento tão vil como se fosse o resto da humanidade? E o fato de ser ela, a mãe, humilde, sensata, generosa, causa nessa pessoa uma revolta porque considera sentimentos menores? O que leva uma pessoa a odiar uma filha sem motivos? Se é que existe motivo pra isso. E de uma maneira torta, desequilibrada e perigosa “amar” a outra filha.
Esse é o centro do conflito da novela A Vida da Gente, por sinal, ótima direção, elenco e história. Poderia estar no horário nobre, bem melhor que a desarrumada Fina Estampa! Voltando ao tema, temos uma soberba atriz na pele de Eva, a mãe desajustada (será?), Ana Beatriz Nogueira, que dá um show de interpretação. A rejeição odiosa que Eva tem pela filha Manuela – e aqui temos que aplaudir muito a jovem atriz Marjorie Estiano. Ô menina talentosa! Quando mãe e filha contracenam, é show, é dez, é mil!!!
A filha amada Ana, por enquanto, nem bu, nem bá, porque esteve em coma quase todo o tempo. Mas Fernanda Vasconcellos (Ana) não tem peso ainda para grandes interpretações. É boa e será uma ótima atriz. Está acordando do coma e tem convencido. Quanto a Eva, ela me assusta. Não tem o mínimo respeito ao próximo. Todo o seu sentimento está focado em Ana, que não vai aceitar ser dilacerada por essa posse doentia. Já vi isso acontecer fora da ficção. O resultado é perigoso!
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Insensato Coração
Gente, estou escrevendo esta coluna aqui no meu cantinho da cozinha. Adoro esse aconchego. Minha cozinha é o coração da casa em todos os sentidos.
Da cozinha, minha mãe comandava tudo. Temperando, mexendo as panelas, dando bronca entre frituras e fumaças, ela comandava seu mundo particular, a família.
Uma mulher sábia a minha mãe. Lutadora e vencedora. Criou sozinha três filhas com a cabeça erguida. Claro que não era perfeita. Na preocupação de não me ver sofrer, às vezes foi injusta, invasiva. Eu brigava toda vez que isso acontecia… Hoje vejo que, quando ela interferiu, me salvou de coisas muito desagradáveis! Se a tivesse ouvido mais, teria sofrido menos.
Sempre que tive a tentação de agir menos corretamente, me lembrava dos joelhos dela, que não dobravam mais de tanto ajoelhar para encerar a casa do patrão. Eu tinha obrigação de ser decente tendo essa mãe.
Acabei de assistir Eunice (Deborah Evelyn) justificando para as filhas porque é tão ambiciosa. Ela disse que foi muito pobre, que sentia-se humilhada na escola por seu lanche e suas roupas simples. Não queria para as filhas uma situação igual à dela. Ela tem horror de ver uma filha sofrendo, e acho que todas nós, mães, temos esse medo. Inútil. São nossos filhos, mas o destino é deles.
Curioso como uma mãe segura e ambiciosa joga nos filhos a frustração por aquilo que ela queria ter tido e não conseguiu. Escolhi duas mães, uma de verdade e outra da ficção, mas ambas, certas ou erradas, agarradas ao desejo de fazer os filhos felizes.
Insensato Coração
Gente, não é verdade que os pais sintam amor por seus filhos com a mesma intensidade. Também não procede que homens amem seus filhos como as mulheres. Que ambos amem seus filhos, ninguém duvida. Mas fazem isso de maneira diferente.
E aí estão Raul (Antonio Fagundes) e Wanda (Natália do Vale) para provar que, mesmo em novelas, quem disser que isso não procede, mente. Raul tem clara preferência pelo filho Pedro (Eriberto Leão) que, até então, era o vencedor.
Isso é bem cabeça masculina: adora mostrar o filho bemsucedido, como se ele, pai, estivesse recebendo um atestado de “bom comportamento genético”. E os homens não têm vocação para carregar filho problemático.
Homem não sofre de complexo de culpa, esse departamento é feminino. Veja como Wanda leva seu amor para o filho mau-caráter, com traços de psicopata. Léo (Gabriel Braga Nunes) é tudo de ruim, mas a mãe não vê, ou não quer enxergar. Ela vive pronta para justificar as faltas dele e, mesmo quando ele revelar a ela as maldades de que é capaz, ela achará uma justificativa.
As mães sempre estão ao lado do filho problemático, sensível, fraco. São elas que, de uma forma ou de outra, impulsionam o filho necessitado pra frente na vida.
E também carregam o fardo do filho mau-caráter nas costas como um troféu que as alivia da culpa que nós, mulheres, ainda carregamos. Cada filho é um indivíduo e, de acordo com as suas necessidades, será amado. Temos cinco dedos em cada mão, nenhum é igual ao outro. E assim são nossos filhos.
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Novelas, Passione
Gente, nos últimos capítulos de Passione, Bete Gouveia (Fernanda Montenegro) e Candê (Vera Holtz) protagonizaram uma belíssima cena, onde Candê, desesperada ao ver o filho atrás das grades, apela para os sentimentos de Bete, cujo filho morto também era um canalha. As duas perguntam o que toda mãe se pergunta: “onde foi que eu errei?”.
Eu respondo assim: não está na hora de tirar esse peso dos ombros? Não é tempo de admitirmos que somos mães, e não deusas? E, antes de mães, somos mulheres, já existíamos antes de nascerem nossos filhos. Ser mãe não nos liberta de nossos medos, erros, fraquejos e toda a carga emocional que forma uma pessoa.
É preciso aceitar que, se damos à luz nossos filhos, eles não nos pertencem. Sei que é difícil abrir mão dessa “propriedade”, mas veja, o que damos aos nossos filhos é o corpo que um dia irá apodrecer debaixo da terra. O que fica é o mistério, que vamos chamar de alma. O caminho a seguir pertence só ao seu filho. Não adianta interferir ou julgar com sua experiência de vida, pois ela é sua e não serve para mais ninguém!
Pergunta Bete para Candê: “onde é que nós os perdemos?”. Quando eles começaram a escrever a própria história, certa ou errada, não importa. Como mães, nos resta apoiar, chorar e ajudar caso um filho traga na alma uma caminhada dolorosa de erros.
Um filho problemático pode ensinar mais que um certinho. Jogue fora o chicote da penitência, cara leitora. Somos mães, não donas do destino de nossos filhos. Com certeza fizemos o melhor, o resto é com Ele.
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Xênia Bier
A ex-apresentadora comenta toda semana na AnaMaria o que acontece na TV, sob um ponto de vista bem pessoal e muito polêmico.
@revistaanamariaCategorias
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