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Jardim japonês é espaço de meditação na casa
Saiba como manter um jardim japonês e utilizar o espaço para aprender mais sobre o mundo
Publicado em 22/06/2007
Jardim japonês é espaço de meditação e relaxamento no lar
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Continuação da matéria.
Quando monge noviço no templo Zuioji, em Niihama, Japão, o brasileiro Francisco Handa tinha a tarefa de cuidar diariamente de um jardim japonês (ou jardim zen), de areia e pedras usado pelos monges para meditação. Ninguém pisava no jardim, a não ser os noviços na hora da limpeza. Ao seu redor, havia uma varanda com salas reservadas de onde os monges contemplavam a paisagem como na maioria dos jardins zen, aliás. Ao contrário da maioria dos trabalhos monásticos, para aprender a cuidar de um jardim zen não havia mestre.
Para transformar um monte de pedras e areia numa paisagem que acalmasse os olhos e a mente, Handa, hoje na Comunidade Budista Soto Zenshu, em São Paulo, seguia os contornos naturais do jardim. Assim, os desenhos começavam retos, acompanhando as margens, e só perdiam essa forma quando contornavam as pedras.
A reta simboliza o pensamento correto, um caminho a ser seguido. O círculo é a união, diz a mestra Si nceridade, do templo Zu Lai, de São Paulo. O budismo não estimula as fórmulas com pontas (como o triângulo) porque as pontas são como espinhos, machucam.
Embora seja chamado de jardim, o retângulo de areia e pedras representa o mundo. A areia e os pedriscos representam o mar. As pedras são rochas e ilhas. Portanto, os círculos ao redor das pedras seriam como ondas, que batem na rocha e voltam, batem e voltam, no mesmo movimento contínuo, cheio de altos e baixos, que é a vida. Entender e visualizar essa dinâmica de forças é essencial para conseguir a harmonia necessária para a contemplação.
Só podia ser idéia de japonês, né? É, mas esse jardim de areia e pedra, popularmente conhecido como jardim japonês, foi inventado por monges chineses, em algum momento entre os séculos 7 e 10. A idéia já era representar a dinâmica da natureza, para contemplação. Foi de lá que os zen-budistas japoneses importaram a idéia e começaram a construir os seus em seus templos. Sorte nossa, porque a maioria dos jardins chineses não resistiu à história turbulenta daquele país, e hoje os jardins mais antigos estão no Japão, onde são chamados de kazan ou kazansui (paisagem seca). O mais famoso do mundo fica no templo de Ryoan-ji, em Kyoto.
Contemplação
Ainda que o jardim zen seja conhecido como a natureza em miniatura, sua interpretação não é fechada. Depende do estado espiritual da pessoa. Ela pode sentir o Universo, mas também pode sentir-se no meio de um monte de pedras, diz o paisagista de São Paulo Hiroyoshi Ishibashi.É como olhar uma casa de perto e de longe. De longe, você consegue enxergar a casa inteira, sem precisar se prender a nada. Mas, se você olha de perto, começa a reparar na cor da cortina, no trinco da porta, e não consegue visualizar o todo. E é por isso que o jardim zen não tem muitos detalhes.
Paisagens com poucos elementos e cores confortam a mente. Diante de tão pouca informação, o pensamento pára de saltar de um assunto para o outro, como ocorre no dia-a-dia. O equilíbrio visual é o que permite nos concentrarmos. Por essa razão o kazansui está tão ligado à meditação, que nada mais é que a atenção total no momento presente. Assim como no zazen (meditar sentado) é preciso concentrar-se na respiração, na meditação sobre o jardim o foco está na paisagem. É meditar com os olhos. Ou simplesmente contemplar.
Impermanência
Para traçar seu caminho no jardim zen, tem que puxar o rastelo devagar, não pode ter ansiedade. Relaxar, prestar atenção na respiração e concentrar-se totalmente na atividade. Quando questionado se arrumar um jardim zen era também um momento de meditação, Handa respondeu que não havia diferença entre lavar um banheiro e fazer um jardim. "Tudo que se faz num templo é meditação".Tolerância é um dos três ensinamentos do budismo trabalhados na manutenção do jardim zen. Não é fácil. Às vezes, é preciso assumir que não deu certo e tentar de novo, sucessivas vezes, até alcançar um resultado harmônico. Uma harmonia não só visual, e sim da energia representada ali (o mar, as ilhas, lembra?).
Antes que você desista de vez de ter um jardim zen em casa (sim, dá para encomendar a um paisagista, no espaço que você tiver), é bom lembrar que ele precisa de manutenção, e isso faz até parte de sua filosofia. Mas não precisa virar tarefa religiosa, o ideal é refazê-lo a cada dia. Mas, se não der, pelo menos tome conta para que não vire um tanque de areia. É preciso tirar uma ou outra grama intrusa, limpar a sujeira e fazer os contornos, usando o rastelo.
Se falta espaço, tudo bem apelar para um jardim zen em miniatura, desses vendidos por aí como peças decorativas. Por razões óbvias, esses menorzinhos não servem como um espaço de contemplação, mas quebram um galhão num momento de desequilíbrio. Numa hora de raiva ou tristeza, saque o rastelinho e desenhe o que passar pela mente. Sempre com atenção plena na atividade, porque concentração é fundamental para a manutenção de um jardim zen. É com ela que se conseguem traços harmônicos intuitivos, não racionalmente calculados.
Não bastasse tudo isso, aquele punhado de areia e pedras ensina ainda que nada é permanente, tudo é dinâmico, pois a cada vez que bate um vento ou se passa o rastelo o jardim é outro. O jardim zen está sempre sendo construído.




































