As feiras de rua podem desaparecer

Conheça o projeto "Vá pra Feira" e entenda por que as barracas nas ruas correm o risco de desaparecer

Publicado em 16/02/2012

Lígia Menezes

As feiras levam as pessoas a andarem nas ruas, conversarem...
Foto: Dulla

A feira de rua reúne a vizinhança e oferece alimentos saudáveis e fresquinhos, além de ser um ótimo lugar para exercitar a arte de negociar. Mas, veja só, elas estão correndo o risco de sumir. Quem avisa é a arquiteta Marina Morelli, idealizadora do site Vá pra Feira. Aqui, ela conta como proteger esse patrimônio:

Como surgiu a ideia do Vá pra Feira?

Acabei de me formar em Arquitetura. Vivo em São Paulo e decidi fazer o Projeto Vá pra Feira como meu trabalho final de graduação. Tinha vontade de produzir um material que discutisse questões urbanas, podendo levar essa discussão para outras pessoas, não somente arquitetos.
Não precisei ir muito longe para começar a registrar as impressões e sensações que vivia nas feiras livres, sempre muito agradáveis. Lembrei-me do período em que vivi em Barcelona - fiz um ano de intercâmbio pela faculdade, em 2010 -, quando costumava viajar muito. Sempre que chegava a uma nova cidade, procurava ir a uma feira livre, pois lá podia, além de conhecer os alimentos mais típicos da cidade, observar as relações sociais entre as pessoas. Isso me fez enxergar as feiras como uma ocupação simbólica de uma situação urbana, que leva as pessoas a andar nas ruas, conversar... Mas, além das trocas pessoais, as feiras oferecem um comércio justo, em que o preço é negociável de acordo com a qualidade do produto, além de incentivar pequenos comerciantes e produtores.

Por que você diz que as feiras estão congeladas?

Em uma conversa na Secretaria de Abastecimento da cidade, descobri que as feiras estão cada vez menores, devido à falta de incentivo público, já que as reclamações a respeito delas são inúmeras, seja por causa de trânsito ou vizinhos que sofrem com as feiras semanais nas suas ruas...  Isso fez com que a prefeitura decidisse "congelar" as feiras do centro expandido da cidade, ou seja, no atual momento não é possível comprar um espaço para instalar uma barraca em nenhuma feira da cidade, a não ser na periferia, onde as feiras ainda aparecem como única ou principal maneira de distribuição de alimentos.
Não podendo colocar mais barracas nas feiras, elas tendem a diminuir, visto que somente há feirantes que fecham barracas e nenhum que abre. Essa foi a maneira para ir acabando com as feiras na cidade no longo prazo, sem que essa questão causasse polêmica.

Isso influenciou no foco do seu trabalho?

A partir desses fatos decidi que o meu trabalho mostraria a importância das feiras para as cidades, qual sua simbologia, valor cultural e social, além de discutir as formas como estamos ocupando as cidades hoje. Por isso, no meu site, faço um paralelo entre o supermercado e a feira; o shopping center e a cidade; procurando mostrar como, cada vez mais, estamos nos voltando para o centro e não para fora. Deste modo, nossas ruas perdem seu fluxo fundamental de pedestres, que gera movimento, comércio e segurança.  Quis incentivar as pessoas a ir às feiras, a ocupar o espaço público das suas cidades, a exigir qualidade e a ter mais contatos pessoais.

Seu site tem surtido o efeito desejado?

O site foi a mídia que escolhi para atingir uma gama maior de pessoas e públicos. Além de ser atualizável, tenho retorno do público. Para fazer as pessoas acessarem ao site, produzi dois vídeos, que mostram algumas feiras. A ideia era que os vídeos se espalhassem pela internet, divulgando a causa. Os números de acesso são crescentes, com picos de acesso quando o site é mencionado em algum outro site ou blog. Já recebi diversos e-mails de pessoas que se solidarizam com a causa e me contam suas experiências com as feiras. Acho muito bacana ter esse retorno e ver o quanto as feiras são importantes para as pessoas.

No site você fala que as feiras estão acabando. Como os feirantes reagem a isso?

Os feirantes que não conhecem o congelamento das feiras acreditam que elas estão diminuindo por outros fatores, como o horário não flexível e não compatível com a vida de muitas pessoas, e também porque alguns filhos de feirantes não querem seguir a carreira do pai, como eles próprios fizeram. Os dois fatos são verdadeiros e também influenciam na diminuição das feiras.

Quais são os benefícios de fazer compras nas feiras?

Na feira você tem sempre certeza de que o produto é mais fresco, que no máximo está há um dia com o feirante. Se a qualidade não for excelente, você paga menos por ele. Os produtos são mais vistosos e atraentes, além do fato de você poder experimentar as frutas. Quase sempre o feirante recompensa o consumidor com algumas mercadorias de presente, para que a pessoa volte a comprar com ele. São poucas as feiras que contam com produtos orgânicos, mas se isso virar uma exigência do consumidor, os produtores e comerciantes irão se adaptar. Na feira há fidelidade. Os clientes que vão semanalmente às compras contam com atendimento preferencial, já que o feirante o conhece e agiliza a separação dos produtos e os ajuda a carregá-los. As feiras atendem a uma demanda local, permitem que as pessoas caminhem até elas.

Algumas curiosidades das feiras são peculiares... Há barracas, por exemplo, que não vendem bananas junto com outras frutas. Como assim?

Na legislação da prefeitura, você encontra todos os produtos que podem ser vendidos em uma mesma barraca. As bananas são uma exceção engraçada a primeira vista, pois, de fato, as barracas de frutas podem vender todas e quaisquer frutas nacionais e internacionais, exceto bananas, que devem estar em uma barraca separada. As batatas, que não podem ser vendidas com alhos nem cebolas, também são uma regra interessante, pois a barraca que vende batata pode vender conservas e todos outros produtos que são vendidos com as cebolas, mas uma não pode ter a outra.

Sobre a organização das barracas, há uma regra ou lei? As que vendem a granel não vendem por unidade ou bacia? Como isso é definido?

Quase tudo nas feiras segue uma legislação. O preço é o único fator "livre" para a escolha do feirante. Porém, as formas como são vendidos os produtos não são estabelecidas pela prefeitura, ou seja, se o feirante quiser fazer uma promoção e colocar três cenouras em um pacote ele pode. Há leis para a implantação das barracas: as barracas que mexem com fogo e máquinas devem estar nas extremidades, assim como os pescados precisam de um caminhão de apoio para a refrigeração do gelo, que além de estarem nas extremidades, devem ser posicionados contra a incidência direta do sol.

O preço da feira vai baixando com o passar das horas. Por quê?

Porque os feirantes precisam vender a maioria de produtos que conseguem por dia, além disso, no final da feira, muitas vezes, sobram produtos que por algum motivo foram rejeitados pela maioria dos consumidores.

Isso faz com que a feira atenda a todas as camadas da população, certo?

Sim. As feiras são comuns tanto em bairros centrais de alta classe social, como nas regiões periféricas mais desvalorizadas.
Além de atenderem a todas as classes sociais, é interessante notar que as feiras surgiram mais de 2.500 anos atrás e sobreviveram a uma série de eras e períodos de diversas características. Ou seja, elas não tratam de servir a uma população específica, são somente uma eficaz e, às vezes, necessária ou vantajosa maneira de comercializar produtos.

Como os feirantes conseguem os produtos com boa qualidade?

A maioria dos feirantes faz suas compras no Ceagesp, que é a central de distribuição de alimentos da cidade de São Paulo. Alguns têm sua própria fazenda, onde plantam. Outros compram do vizinho. Mas estes são poucos. Porém, é comum que os feirantes comprem sempre dos mesmos fornecedores, garantindo a boa qualidade. O preço não é sempre tão atrativo. É comum um feirante vender um produto em uma feira pelo preço X e em outra feira, de um bairro mais rico, por 2X. O bom é que o valor é sempre negociável. Além disso, aqueles antigos feirantes, não irão nunca te passar a perna.

Há quem diga que as feiras atrapalham o trânsito e deixam a rua suja. Como você poderia rebater essa informação? Há alguma lei que penalize os feirantes "sujos"?

Esta é uma questão delicada. O lixo das feiras é talvez um dos pontos menos organizados. Nem mesmo os fiscais e responsáveis pela organização das feiras sabem explicar como isso funciona ou porque acontece desta maneira. Ouvi dizer que o processo de limpeza das feiras ia começar a ser feito por um só órgão, porque até o ano passado era feito por duas ou três empresas. Sei que o feirante deve recolher o lixo "grosso" da sua barraca. Depois passa uma empresa que recolhe o restante. Vale lembrar que os feirantes são punidos, caso não obedeçam qualquer ponto da legislação, como vender produtos que não estão autorizados, usar uma cor de toldo que não é correspondente a sua barraca, estar com a balança desregulada e por aí vai.

Comentários

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Angélica - Concordo com a Tatiana aqui acima! Os politicamente corretos que amam feiras certamente nunca tiveram uma na frente de casa! - 03/06/2012 15:48:04

Larissy - Nas cidades centenárias da Europa as pessoas valorizam seus patrimônios culturais, mas brasileiro só sabe copiar coisa ruim de estrangeiro, o fascínio por shopping center é um deles! Pra mim, as feiras deveriam receber incentivo da população para a permanência e reorganização das mesmas e não tentar acabá-las. Um povo precisa guardar suas referências ou tornam-se iguais a qualquer um! E feira é referência cultural! - 26/04/2012 14:48:31

Larissy - Fico impressionada com cada comentário acima, pois mostra o quanto as pessoas estão cada vez mais egoístas, individualistas e preocupadas apenas com sua própria vida e nariz. As feiras incomodam no máximo um dia da semana, vcs aturam tantas coisas piores no dia a dia da cidade de São Paulo e querem reclamar das feiras?! Sinceramente acho que feira é o menor dos problemas urbanos da grande São Paulo. As feiras, por anos, são responsáveis pelo sustento de várias famílias e pessoas. Feira é tradição, é cultura, é patrimônio; ou vocês acham que São Paulo já surgiu cheia de hipermercados e shopping center? A maioria das cidades brasileiras, em suas origens, tiveram problemas com abastecimento de alimentos e as feiras foram a solução encontrada para resolver esse problema. Agora todos acham que não precisam mais delas. A cidade que se expandiu de maneira errada e descontrolada, tirando o espaço das feiras. - 26/04/2012 14:46:04

Renata - Acho um absurdo familias inteiras serem incomodadas com feiras e, consequentemente, muita sujeira e barulho na porta de suas casas. Todos n¿s pagamos nossos impostos e merecemos paz e sossego . Vivenciei uma experi¿ncia alguns anos atr¿s, que requisitava a mudan¿a de uma feira estabelecida em uma avenida para uma rua paralela, onde um dos feirantes residia. O mesmo n¿o aceitou a mudan¿a para a rua de sua resid¿ncia alegando que era inconveniente e, apresentou os mesmos motivos descritos acima. Se os pr¿prios feirantes n¿o querem uma feira na porta de suas casas, por que outras pessoas s¿o obrigadas aceit¿-las? Total Absurdo! - 27/03/2012 23:08:45

MARCIO CAPECCI - Gostei de como foi abordado o tema. Vejo muito mais pontos positivos em se ter feira na rua de casa , como todos ja descritos. Em relacao as inconveniencias, tudo e socialmente adaptavel com um boa relacao. Geralmente os moradores que necessitam de sair com seu veiculo devem retira-los antes da montagem das barracas.As feiras sao planejadas em pontos residenciais onde menos ira atrapalhar o transporte publico.Existe leis de horario de chegada dos feirantes (6:00 hrs), desmontagem (13;00hrs de terca a sexta), e total liberacao da via as 14:00 hrs. Sendo 30 minutos a mais aos fins de semana. A populacao das periferias sao os que mais ganham com as feiras pois os precos que se conseguem nao exite em nenhum outro lugar, e muito barato mesmo, garantido uma boa alimentacao para essa populacao carente. - 17/03/2012 18:14:27

Elisabete - S¿o Paulo n¿o tem mais espa¿o para feiras livres. Deveria ter um lugar fixo, um terreno cedido pela prefeitura, assim n¿o haveria transtornos para os moradores nem para o fluxo de autom¿veis. Reclamar dos abusos dos hor¿rios dos feirantes, que aqu¿ come¿a ¿s 3:30 hs da madrugada, desrespeitando totalmente os moradores e a lei do sil¿ncio, n¿o resolve. Os hor¿rios e as leis n¿o s¿o cumpridas pelos feirantes e n¿o h¿ nenhuma fiscaliza¿¿o. - 07/03/2012 15:28:48

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