Sabores e cheiros da infância
Edith M. Elek, autora do livro "Céu da Boca - Lembranças de Refeições da Infância", fala sobre o tema da publicação: sabores e cheiros da infância
Publicado em 23/09/2011
Lígia Menezes
Livro "Céu da Boca - Lembranças de Refeições da Infância" (Ed. Ágora)
Foto: Divulgação
Certos sabores e cheiros têm o poder de nos fazer reviver ao passado... E como têm! O livro "Céu da Boca - Lembranças de Refeições da Infância" (Ed. Ágora), reúne 18 depoimentos sobre o tema. Conversamos com a organizadora e editora do livro, Edith M. Elek.
Como surgiu a ideia de montar um livro com "sabores da infância"?
Eu trabalhava como terapeuta, com um grupo de pacientes com câncer. Me chamou a atenção o quanto as cenas de relações familiares eram importantes para eles e como o momento das refeições eram simbólicos.
Decidi fazer um livro sobre isso. Pedi às pessoas que contassem suas experiências - fiz uma lista de pessoas e pedi que relatassem suas memórias. Procurei misturar gente da área de psicologia, culinária (até para ver se esse passado tinha influenciado nessa escolha), com pessoas ligadas também à arte, como jornalistas.
O que descobriu ao fim do livro?
Descobri que todo mundo tem histórias nessa área. É impressionante: quando começamos a conversar com as pessoas sobre o assunto, elas já vêm com uma memória de datas da infância.
Todos têm essas histórias guardadas, porque as refeições sempre foram um momento de encontro familiar. Acho muito importante ter esses momentos. Infelizmente, isso tem se perdido com o tempo.
Na minha casa eu sempre tentei cultivar isso com meus filhos. É importante se reunir em torno de um prato de comida e conversar, e não comer em frente à TV. Isso se chama convívio. Muitas vezes é o que falta para as famílias.
Você escreveu um capítulo do livro. Como foi retornar à infância?
Como terapeuta, fiz muitas vezes esse retorno à infância. A gente acaba relembrando as coisas naturalmente. Percebi que essa relação com o alimento tem o significado muito forte na vida da gente. Temos histórias de brigas de famílias e memórias interessantes. Quer ver um exemplo?
Eu tinha convidado a Maria Rita [Kehl] e ela teve a ideia de convidar o irmão para fazer junto [Antonio Kehl]. Foi curioso porque eles falaram da mesma cena, mas de modo completamente diferente. Para cada um, teve um significado próprio.
Por que retornar à infância é uma experiência importante?
Por que a infância faz parte da nossa história de uma maneira muito profunda. E para retornar nem precisamos nos esforçar. Faça o teste, se você parar para relembrar coisas do seu passado, vão surgir memórias interessantes.
Mesmo que não comesse junto com sua família, ainda assim suas memórias terão um significado afetivo. Ainda que seja uma memória difícil ou triste, é importante olhar para o passado, até para se entender melhor.
Qual é o relato que acredita ser o mais intenso?
Gosto muito da história do Moacir Scliar. Ele conta uma história muito divertida, da época em que seu irmão "roubava" comida de marmiteiros. É uma honra tê-lo no livro!
[Veja parte da história dele: "Magrinho, sem apetite, eu só comia umas colheradas de sopa quando ligavam as máquinas da mercearia do meu tio. Meu irmão menor era ainda pior: ele não comia nada mesmo. Era um mistério saber como sobrevivia. Minha mãe acabou descobrindo: em frente à nossa casa havia uma construção. Meu irmão atravessava a rua e pedia comida aos operários que, condoídos, alimentavam-no. Sabendo disso, minha mãe fez um pacto com a classe trabalhadora: ela fornecia comida aos homens, que a colocavam nas marmitas. Assim, meu irmão acabava sendo alimentado por sua mãe judia"].
E qual a melhor memória que você tem de sua infância?
Sem dúvida, as férias que eu passava com a minha avó. Eu era muito ligada a ela. Ela era linda, ruiva... Nós íamos juntas a Poços de Caldas. Era muito bom. Não me lembro de nenhuma comida em especial, mas me lembro que ficávamos em um hotel que tinha um ritual na hora da refeição, com talheres de prata, garçons...
A minha vó sempre me estimulou bastante nesse ramo. Lembro-me que eu era pequena e ela já me levava a casas de chá da cidade. Acredito que hoje, em minha personalidade há um resquício da história da minha família, que veio da Europa no final do império austro-húngaro e valorizava muito essas coisas... Minha avó me transmitiu isso.
O que te dá água na boca?
Eu sou filha de húngaros, gosto muito da comida húngara. Agora que você perguntou, não consigo imaginar nada melhor do que um purê de castanhas servido com chantilly. Era tradição em minha família, comíamos todos os natais. Para mim é a melhor sobremesa do mundo, tanto por causa do gosto, quanto da memória. Ela tem a ver com a minha história, com os natais da minha família e meus avós.
Prefere prato doce ou salgado?
Prefiro um bom prato salgado, seguido de uma pequena sobremesa muito especial. Não sou de quantidade quando falamos em doces... Prefiro uma coisa pequena e muita qualidade.
Qual a memória mais marcante que você tem de comidas em qualquer momento de sua vida?
Algum prato que me marcou na vida? Deixa eu pensar... Lembro-me de ser surpreendida por um sabor maravilhoso em um restaurante de hotel em Santiago (Chile). Era uma cordorna recheada com patê de foá [fígado de ganso] e castanhas. Nossa, foi maravilhosa! Um sabor surpreendente.
É verdade que as crianças preferem pratos básicos e simples?
Em geral, sim. Eles se acostumam aos poucos com cada sabor. Agora, a educação alimentar modifica completamente o paladar da criança. Em uma casa onde só se oferece o básico, ela terá um repertório mais limitado para aprender a gostar de outras coisas.
Meus filhos são muito "bons de boca", porque na minha casa eu sempre variei muito a comida. Eu cozinho pouco, mas gosto do tema, tenho muitos livros e leio sobre isso. Consegui passar isso para eles.
Quando você era criança, qual era seu alimento preferido?
Sabe que eu não me lembro? A minha mãe não sabe nada de cozinha. Nunca cozinhou..
Mas uma memória forte - que até contei no livro - foi um prato que minha mãe fazia para mim quando eu estava doente: um mingau de semolina! Até hoje ele me persegue... Eu continuo desejando o mingau de semolina. Não tinha nenhum segredo, mas era a única comida que ela fazia pra mim. Imagine, ela era ausente, a relação era fria. Por isso, esse mingau tem uma força simbólica. De vez em quando eu ainda o como.
Alguns cheiros e sabores ativam nossa memória e nos fazem retornar ao passado. Você tem algum outro que seja bem marcante em sua vida?
Lembro-me do cheiro da flor Dama da Noite. Quando o sinto, me vem uma euforia, uma alegria... Isso porque tive um momento na juventude, aos 16 e 17 anos, em que eu saia para dançar e sentia esse cheiro pelas ruas. Ele me faz lembrar até das roupas que eu usava na época.
Outro cheiro é quando conheci a Anna Veronica Mautner [uma das autoras do livro]. O quarto dela tinha o cheiro do quarto da minha avó, era familiar - foi bem intenso.
Conheça Edith M. Elek
Edith é jornalista, terapeuta e editora de livros. Tem dois filhos, uma de 37 anos, que mora em Barcelona há bastante tempo, e um filho de 36 anos, também editor de livros.
Saiba mais sobre o livro "Céu da Boca - Lembranças de Refeições da Infância"
O livro é a reunião de memórias de escritores famosos, como Ruth Rocha, chefs, como Renata Braune, jornalistas e um historiador e conta sobre sabores da infância. Foi organizado por Edith M. Elek e publicado pela Editora Ágora.




































