Temos problemas maiores? O racismo no clipe de Mallu Magalhães

Porque um clipe não é somente um clipe.

Muito foi dito sobre o clipe “Você Não Presta” da cantora Mallu Magalhães. Ao que parece, mesmo com bons textos sobre o assunto analisando parte por parte da produção, muitos continuaram discursando que não havia racismo. Entretanto, os argumentos “não vi racismo” e “nem tudo é racismo” são falsas questões. Se você entende racismo como estrutural e estruturante, você entende que isso implica no racismo como fenômeno-estrutura atuante em todos os campos da sociedade. Sendo assim, racismo é um problema sério, inclusive nas suas manifestações mais banais. E, claro, também não é um problema estrutural que pode ser sanado apenas pelo indivíduo que é vítima dessa estrutura.

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Como diz a brilhante escritora norte americana Toni Morrison, “Cruel e crasso como grande parte se é, realmente, desinformado como quase tudo que é, o discurso sobre raça é importante. Porém a conversa verdadeira deveria ser feita entre pessoas brancas. Eles deveriam falar entre eles sobre isso. Não comigo. Eu não posso ser doutor e paciente”.

Repito: Eu não posso ser cobrada de ser doutora quando sou a vítima! Coloca-se sempre no próprio oprimido a mazela de resolver as questões que o atingem, e, mais do que isso, caso ele resolva discutir algo que para muitos soa banal, sempre vem a máxima: “temos problemas mais sérios”. Novamente, se esquecem de que, ao partirmos da premissa que a opressão é estrutural e estruturante, os problemas menos e mais sérios estão totalmente relacionados entre si. E como nós negros também somos humanos, cabe a nós discutir todos os assuntos e não ter nossa subjetividade cerceada.

Estou dizendo tudo isso para afirmar que não podemos e não devemos minimizar a crítica que foi feita ao clipe da Mallu Magalhães, resumindo tal crítica à “loucura da problematização”. Há dois pontos nessa questão. O primeiro: “loucura”, usada para se referir aos questionamentos feitos por mulheres e negros é historicamente um lugar de silenciamento e censura usado pela família, pelo Estado e pela religião. Negros e mulheres foram perseguidos e presos em manicômios por seus questionamentos e existência.

O intelectual Lima Barreto – cuja história será contada em biografia de Lilia Schwarcz a ser lançada em junho – é um exemplo de pessoa negra cerceada em um desses espaços extremamente opressores que são os manicômios, símbolo do higienismo e controle social da sociedade. Então, não há nenhuma piada ou leve mal entendido na atribuição que estamos e somos loucos. A loucura foi usada para nos calar. Não somos loucos quando somos questionadores: somos fora da norma e a norma nos oprime.

O segundo – e o que vou me estender nesse texto – é: a linguagem estética e a narrativa cultural são formas de poder usados para difundir ideais emancipatórios. Como o que os abolicionistas fizeram no século XIX, a exemplo de André Rebouças que encomendou a peça “O Escravo” para Carlos Gomes, em 1884. Ou, ainda, do lado dos opressores, como a própria ideologia nazista, que fez da narrativa pautada na estética pura e higienista uma das principais formas de reafirmar seus conceitos e ideias.

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Estética é poder. As narrativas culturais por meio da estética definem que é o Outro que passa a ser o exótico, o estranho, o impostor, o feio. No caso de um ideal eurocêntrico, higienista e racista, o Outro é todo aquele que não se encaixa no corpo do homem branco heteronormativo.

Portanto, as críticas ao clipe “Você Não Presta” não são direcionadas aos bailarinos que estão ali como profissionais prestando um serviço. Quem deteve poder de escolha e deve ser criticado é o patrão, no caso quem solicitou e pagou por aquele serviço. É a esse patrão que nossas críticas se dirigem, pois toda a composição do clipe é baseada na exotização de corpos negros. O discurso estético racista vai desde a escolha cenográfica com o fundo que remete a um casa sem revestimento, comum em algumas favelas e periferias brasileiras, até a oposição do corpo de Mallu – branco, magro, todo vestido – em relação aos corpos de dançarinos com curvas, negros, semivestidos e com peles brilhando.

Isso é uma construção estética intencional que alimenta a ideia do negro como exótico, oposto à figura do branco como angelical e puro. Esse clipe é exatamente isso, a construção do negro como um Outro, um objeto que, quando se faz necessário, é usado para passar determinada mensagem. No caso, a própria Mallu Magalhães deixou claro que a ideia era algo mais “selvagem”. E você pode até acreditar que não é intencional, mas quando a maioria dos brasileiros fecha os olhos e imagina uma mulher “bela, recatada e do lar”, pensa, sim, em uma mulher branca e com traços angelicais. Já quando fechamos os olhos e imaginamos um corpo sambando como passista seminua, o que geralmente nos vem à cabeça é a figura da negra, precisamente da Globeleza.

São papeis sociais que nos oprimem enquanto mulheres, porém pautados por raça. Então não me diga que teríamos corpos brancos, magros e até mesmo loiros, caso a ideia do clipe fosse a mesma de trazer algo mais “selvagem” e “urbano” como a própria cantora defendeu. Veja as personagens de novelas, ou de romances do século XX. A nossa figura negra é a da pessoa agressiva, boçal, não inteligente, sem delicadeza, com sexualidade aflorada e descontrolada. Vale lembrar que essas construções estéticas não surgiram do nada.

A arte que explora

Perguntei para a cineasta Sabrina Fidalgo que estudou na Escola de Televisão e Cinema de Munique, na Alemanha, e fez especialização em roteiro na Universidad de Córdoba, na Espanha, a respeito dessa produção de Mallu Magalhães e sua construção estética racista e ela afirmou:

“A estética racista é uma das principais armas do racismo e, de ingênua, ela não tem nada. Não se iludam que basta uma cantora branca, brasileira e de origem abastada resolver, de repente, ‘ilustrar’ o seu novo videoclipe – dirigido por um homem branco português e filmado em Lisboa – com dançarinos negros, cujos corpos estão expostos e besuntados de óleo, para posar de contemporânea. De contemporânea essa imagem não tem nada. Corpos negros besuntados remetem à revenda de negros escravizados nas próprias colônias, quando os feitores decidiam vendê-los como mercadoria e, para ‘incrementar’ o ‘produto gasto’, besuntavam seus corpos com banha de porco para esconder as ‘mazelas’ e embelezar o ‘produto’.

A alemã Leni Riefenstahl criou toda a estética nazi-fascista de Hitler, idealizada pelo marqueteiro nazi Goebbels em vários filmes que exaltavam a superioridade da ‘raça ariana’ perante o mundo. Depois da 2ª Guerra, Leni se redimiu no continente africano, onde passou a fotografar nativos, abrindo caminho para uma estética pós-colonial em que o corpo negro era o objeto ‘exótico’ da lente ocidental e ‘civilizada’. Só nós negros, munidos de conhecimento é propriedade podemos pensar e exaltar uma estética nossa tal qual o cineasta Spike Lee ou o fotógrafo Koto Bolofo, para citar alguns. Temos que descolonizar nossos corpos e nossa beleza e avançar no protagonismo absoluto de uma nova vanguarda.”

O primeiro filme que vi da alemã Leni Riefenstahl foi “Olympia”. Estava em uma aula de Estética e Política. No debate, é claro que começamos falando que o filme reafirmava um ideal nazista pelas aparições de Hitler em determinados momentos. No decorrer do debate, porém, foi se tornando perceptível para todos que a construção da estética do filme, com corpos brancos e atléticos mesclados por meio de efeitos com deuses greco-romanos, deixava nítida uma das premissas dos ideais nazistas: a exaltação da arte clássica, pois ela representava para Hitler seus ideais higienistas e de pureza. Então ali, na escolha dos corpos, no tempo de filmagem, na construção da estética de todo o filme, temos um recado que parece inconsciente, porém é devastador, pois adentra nosso imaginário e passa a conformar o que é belo, certo, normal. No caso do sistema escravocrata, o ideal colonizador que nos colocou sendo negros como um Outro que não pertence a nós, que é só corpo e não gente, está no clipe de Mallu Magalhães, assim como está na pintura de Tarsila do Amaral em 1923 chamada “A Negra”.

Reafirma-se esteticamente sempre a imagem do nosso corpo negro como fator principal em contraposição à nossa capacidade mental. Somos corpos exóticos, e não mentes. Identificados como intelectualmente incapazes e perigosos, pois não conseguimos controlar nosso instinto e corpos. Para uma cantora que está em terras europeias, a imagem que vende é essa do negro exotizado. Foi nesse continente que corpos negros africanos foram expostos em museus por serem tidos como “diferentes”.

O que é produzido no Brasil e vende para fora é a estética do filme “Cidade de Deus”, do safári na favela, da “mulata exportação” traficada para sexo, do carnaval com foco na nudez negra feminina. O campo da arte tem isso, tem pessoas que ganham dinheiro com cadeira de plástico cheia de furos simulando tiros. A exploração da miséria e do racismo é a arte brasileira que vende para fora.

Então não é uma discussão banal: além do assunto ser sério, ele está extremamente relacionado com a possibilidade do Estado matar negros a cada 23 minutos, já que o genocídio só importa para nós negros. Apenas nós nos vemos como gente em um país que foi construído e existe com a desumanização dos negros.

Finalizo com a frase de Nadiéjda Krúpskaia, um dos nomes da Revolução Russa de 1917, que consta no livro “A Revolução das Mulheres – A Emancipação Feminina na Rússia Soviética:

A arte tem total papel organizador.

E isso pode ser usado para questionar ou para naturalizar as opressões que nos cercam.

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