E se, em vez de amar nosso corpo, a gente só deixar de odiá-lo?

O movimento "body neutrality" defende que simplesmente aceitemos o corpo como ele é - e ponto final

“Ame seu corpo”. “Você é linda exatamente como é”. Basta um rápido giro pelas redes sociais para se deparar com mensagens como essa, encorajando as mulheres a gostarem de suas aparências, independente de como elas são. A orientação é que você olhe no espelho e ame o que vê. Que seja a fã número um da sua própria aparência.

Na semana passada, o site norte-americano Refinery29 publicou uma pesquisa feita com as leitoras. O assunto? A forma como as mulheres se enxergam. Foram cerca de mil as respostas, e os dados atingidos são chocantes: 65% das entrevistadas disseram, por exemplo, que tinham menos de 14 anos quando receberam a primeira crítica sobre os próprios corpos. Dá para acreditar?

Diante desse tipo de informação, fica evidente o valor de movimentos como o body positivity – em uma tradução livre, seria algo como ver o corpo de uma forma positiva.

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A ideia divulgada pelo movimento é de que as mulheres podem (e devem) amar os próprios corpos. Isso tem ajudado muita gente a superar as críticas externas. O body positivity defende que as mulheres amem até mesmo o que sempre encararam como defeito: o peso fora do padrão, as celulites, estrias, espinhas e pelos.

Also, WHO CARES IF YOU HAVE ACNE YOU ARE BEAUTIFUL 💕 (A love note to myself & others struggling) #honest

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Mas nem sempre é fácil olhar no espelho e ficar 100% feliz com o que se vê. E todo mundo sabe o quanto é difícil fingir algo que não se sente de verdade. Ao tentar amar a própria aparência de qualquer forma, mais uma vez coloca-se a aparência em primeiro lugar, como prioridade. Será que é a isso mesmo que as mulheres devem prestar tanta atenção e dedicar tanta energia?

Body Neutrality – a aparência é importante?

O movimento body neutrality, ou seja, ver o corpo de uma forma neutra, questiona justamente isso. Terapeutas, coaches pessoais e usuários de redes sociais têm defendido que, melhor do que tentar amar os corpos a qualquer custo, talvez seja o caso de simplesmente parar de dar tanta atenção à aparência.

Faz sentido, não?

“Meu problema com o amor ao corpo, além do fato de ser muito difícil de atingir, é o fato de que ele pede às mulheres que regulem também suas emoções, não só seus corpos”, diz Autumn Whitefield-Madrano, autora de do livro “Face Value: The Hidden Ways Beauty Shapes Women’s Lives“, ainda não publicado no Brasil. Em entrevista ao Huffington Post norte-americano, ela completa:

Eu não vejo a pressão em cima das mulheres terminando – e aí ainda cobram que a gente tenha uma autoconfiança de ferro, apesar de tudo.

Autumn Whitefield-Madrano

A coach de amor-próprio e escritora Anastasia Amour concorda com essas novas ideias.”Você não tem que amar seu corpo para não odiá-lo”, ela diz em entrevista ao site Man Repeller. “Quando tiramos nosso foco de  ‘Eu tenho que amar meu corpo!’ para colocá-lo em ‘Esse é o meu corpo, e eu aceito ele’, nós podemos aprender a neutralizar aquele tipo de raciocínio”, completa, referindo-se às críticas sobre nossa aparência que desde muito cedo nos fazem sofrer.

Como mudar de atitude?

Parece óbvio, sim – mas não é fácil aplicar tanto as premissas do “body positivity” quanto do “body neutrality” na vida cotidiana. O levantamento da Refinery29 mostra que as dificuldades com o próprio corpo fazem com que 74% das leitoras do site frequentem menos praias, 39% comprem roupas online para não frequentarem provadores públicos e (sim!) 38% façam sexo com menos frequência.

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De acordo com o Global Dove Research de 2016, pesquisa da Dove sobre autoconfiança, 66% das brasileiras concordam ser importante manter os padrões de beleza na sociedade atual, 70% acreditam que atender aos padrões de beleza traz mais oportunidades profissionais e 80% admitiram já ter deixado de comparecer a um compromisso social por não se sentirem bem com a própria aparência.

Chocante, né?

Além disso, 91% delas sentem que damos atenção demais à beleza como fonte de felicidade – e 76% pensam que a mídia estabelece um padrão de beleza inalcançável.

I am F • A • T I'm the kind of fat where they don't stock my size in most stores. I'm the kind of fat that isn't represented in regular TV shows, unless it's to be made fun of. I'm the kind of fat whose worth comes into question because I don't look 'healthy', or sexy, or active, or attractive. I'm the kind of fat that is frowned upon in a bikini. I'm the kind of fat that is stretch-marked and has rolls. I'm the kind of fat that is deemed unloveable by society. I'm the kind of fat that was and is bullied and put down. I'm the kind of fat that still strives for a stronger voice, better representation, self-love, fat positivity and self-confidence. I'm the kind of fat that is a force to be reckoned with. I'm the kind of fat that will fight for better body image. I'm the kind of fat that is going to change things. Just watch. ✌🏼

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Sim, as redes sociais onde a “body positivity” tem se instalado são uma alternativa ao padrão que a mídia vinha reproduzindo há tempos sem questionamento. Mas é preciso lembrar os padrões também são reproduzidos nas redes. Uma pesquisa recente mostra que o  Instagram faz 70% dos jovens ingleses se sentirem infelizes com a própria imagem.

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O que o “body neutrality” propõe, então, é que as mulheres não sintam que precisam amar o espelho o tempo todo. O corpo, afinal, é o veículo que proporciona que as pessoas vivam e realizem coisas – e isso é muito, muito mais do que uma imagem.

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