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PUBLICADO EM

31/08/2012

ATUALIZADO EM

13/07/2015

O que fazer quando a criança só quer a mamãe

A dependência excessiva pode ocorrer com os filhos pequenos e, em muitos casos, a responsável é a própria mãe. Mas é possível solucionar o problema com ações simples.
Quando a criança só quer a mamãe
gpointstudio/Thinkstock/Getty Images

Sair para trabalhar ou cumprir outro compromisso e deixar o filho na creche, com a avó ou a babá, não é fácil para nenhuma mãe. Mas, em alguns casos, a situação se torna ainda mais difícil, porque o pequeno simplesmente se recusa a ficar com outras pessoas. O apego excessivo à mãe pode começar bem cedo, nos primeiros meses de vida, quando o bebê quer apenas o colo dela, chora ao ser carregado por outras pessoas ou ao ser deixado no carrinho ou no berço.  Se você já passou por isso ou ainda enfrenta esta, digamos, resistência, entenda por que ela acontece e o que você pode fazer para mudar o comportamento do baixinho.
 
Quando a criança não fica bem com outras pessoas
Para evitar deixar os filhos muito pequenos em creches, alguns pais optam por uma babá ou contam com a ajuda dos avós. Porém, basta a mãe sair de cena para que a criança a abra o berreiro.

Este comportamento é natural, nas primeiras vezes em que os bebês se distanciam das mães. “Em seu cérebro, a criança tem um programa de reconhecimento e apego em relação à figura materna. A mãe é sempre vista como o modelo protetor, aquela que nutre, acolhe e protege”, conta o psicobiólogo Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Se a adaptação estiver complicada, porém, os pais precisam compreender que o filho não é o único responsável pelos tropeços na separação. “Trata-se de uma interação entre bebê e mãe, portanto a atitude de um interfere na do outro, mas é uma relação dissimétrica, já que a mãe é adulta e está bem inserida no meio, enquanto o bebê é desamparado”, diz a psicanalista Leda Bernardino, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Uma das principais causas da dependência tão grande é o zelo excessivo dos pais. “A mãe que quer fazer tudo sozinha pelo filho e não permite aproximação dos outros pode atrapalhar o desenvolvimento social da criança”, afirma Monezi. A personalidade do pequeno também entra no rol dos fatores que interferem na capacidade de adaptação, quando determina uma tendência ao apego exagerado ou à não aceitação do distanciamento, após o término da licença-maternidade.
 
Afaste-se aos poucos
É importante que, durante os primeiros meses de total proximidade entre mãe e filho, ela tenha consciência de que esta condição não irá durar para sempre. “Quanto mais você grudar no seu filho e não pensar que no mês que vem terá que trabalhar, mais difícil será a separação. Se você está em casa, de licença-maternidade, aproveite e vá até a esquina fazer a unha ou à feira e deixe a criança ficar um pouco com outra pessoa”, aconselha a psicóloga Ana Maria Mello, ligada à Faculdade de Educação da USP.

Para auxiliar na adaptação da criança a outras pessoas, Monezi propõe realizar um processo chamado dessensibilização, no qual o vínculo excessivo se afrouxa aos poucos. O método consiste em adaptar o pequeno, gradualmente, à condição que causa desconforto. Ou seja, a mãe deve procurar ficar cada vez menos tempo com o cuidador e a criança.  “Desta forma, ela  se sente segura e percebe continua assistida”, explica o especialista.

O cuidador também pode tomar atitudes que facilitam a aproximação. Inicialmente, é aconselhável que ele fique próximo da mãe para que a criança veja que o outro adulto também merece a confiança dela.  Outra boa dica é se abaixar na altura da criança e conversar com ela olhando nos olhos, o que atenua a postura de superioridade. Se a criança estiver no espaço dela com os brinquedos, é interessante que este cuidador também se aproxime e tente iniciar uma brincadeira.

Outra orientação valiosa é não assustar a criança. Para evitar que isso aconteça,  o adulto nunca deve se aproximar de maneira brusca. É importante se certificar de que o baixinho notou sua presença. Forçar um vínculo ao abraçar ou beijar o pequeno a todo o momento também não é uma boa estratégia. Com relação à alimentação, primeiramente o cuidador precisa observar como a mãe alimenta o filho para, depois, assumir este papel.  “O adulto deve ser perseverante para conquistar o amor que a criança tem para dar, mas nada funciona de maneira súbita e agressiva, pois pode causar trauma”, alerta Monezi.

Caso a criança fique na casa do cuidador, vale tornar o local mais agradável a ela. “Trazer objetos da casa da criança ajuda bastante, pode ser um brinquedo ou um paninho, por exemplo”, sugere Bernardino.

Até um ano de idade, é esperado que o bebê leve entre três e seis meses para se adaptar com o cuidador, já entre um e três anos a expectativa é que a adaptação aconteça entre um e três meses. Caso a criança continue infeliz, é importante que os pais fiquem atentos. “Se ela não quiser ficar com o adulto, você pode se questionar se existe alguma razão pessoal. Talvez não seja uma boa ideia forçar o seu filho a ficar com este cuidador específico”, propõe a psicóloga Maria Luisa Valente, professora de terapia familiar na Universidade Estadual Paulista (Unesp).  
 
Problemas na escola
Se a adaptação pode ser difícil quando a criança ainda é o centro das atenções do cuidador, ao ter que dividir os cuidados com outros pequenos a situação pode ficar bem complicada. A fase em que a criança costuma enfrentar mais dificuldades para se adaptar à escola ou à creche é entre um e cinco anos de idade.

Assim como nos problemas de adaptação a um cuidador, neste caso os pais também têm a sua parcela de responsabilidade. “Muitas vezes os pais não conseguem perceber que a dinâmica de seu relacionamento com a criança causa extrema dependência. Em alguns casos, a mãe fala para o filho ficar na escola, mas está quase chorando também”, diz a pedagoga Silvia Colelo, professora de psicologia da educação na Faculdade de Educação da USP.

Os pais podem tomar algumas atitudes para fazer com que a adaptação seja mais fácil. Uma delas é deixar a criança na sala de aula com os colegas, o professor e os brinquedos, enquanto a mãe fica em um lugar sem atrativos, mas que a criança consiga acessar. Algo como um corredor ou uma antessala.  

A mãe não pode entrar no espaço da sala  de aula porque a criança irá entender que pode ter tudo: a mãe, os brinquedos e os coleguinhas. Ela pode permanecer na escola durante alguns dias, cada vez por menos tempo, até que a adaptação seja completa.

Também é recomendado que ela avise ao filho que vai embora, sem nunca mentir, dizendo que vai ficar e sair de fininho. Ao explicar para o pequeno quando irá voltar para buscá-lo, é interessante que o faça por meio das atividades. “Não adianta dizer ‘daqui a duas horas venho te buscar’, tem que pensar em função das atividades, por exemplo: primeiro você vai para o parque, depois vai lanchar, depois brincar com massinha e depois a mamãe chega”, exemplifica Colelo.

O período de adaptação dura no máximo 20 dias. “Quando os problemas persistem, tentamos detectar o que está acontecendo e, não raro, encontramos uma mãe angustiada e com medo”, diz Colelo.

O educador também precisa colaborar. É importante que ele se informe sobre os hábitos da criança. Em alguns casos, o problema pode, de fato, ser com a escola, mas isso costuma ser constatado a médio prazo, após alguns meses. Os pais devem desconfiar quando percebem que a criança não está bem, mesmo que vá para as aulas sem grande resistência. “Até os dez anos, os pequenos devem amar a escola”, conta Colelo.

Quando isto acontece, o assunto deve ser abordado com os educadores e a solução pode variar desde uma transferência de sala até a mudança para outra escola. “Há pais que são mais liberais e colocam os filhos em colégios mais rígidos, ou ao contrário. Assim, podem ocorrer conflitos. Os pais devem buscar uma escola ligada com o seu modelo de vida”, afirma Colelo.
 
Só no colo da mamãe

Nos primeiros meses de vida, o bebê tende a ficar bastante no colo da mãe. A encrenca é quando ele se acostuma tanto que não aceita outros lugares. Daí, o nenê chora ao ser colocado em um carrinho ou no berço. A explicação para este comportamento é muito mais biológica do que psicológica.

O responsável por isto é o hormônio ocitocina. “É ele que faz com que a mãe reconheça o filho e vice-versa, ele estreita os laços da mãe com o bebê e está muito presente na primeira infância”, explica Monezi. Então, o hormônio contribui para que, nesta fase, o bebê queira ficar, apenas, com aquela pessoa que ele tem maior capacidade de reconhecer. 

Apesar de auxiliar na relação especial entre mãe e filho, a ocitocina também pode ser vilã. Isso porque algumas mães apresentam taxas elevadas deste hormônio, a ponto de desenvolverem um sentimento tão forte pelo filho que não quer compartilhá-lo com as demais pessoas. “Isto ocorre mais frequentemente com mulheres que tentaram engravidar por um longo tempo”, observa Monezi.

O costume de não largar o colo da mãe leva um tempo para ser solucionado. “Não adianta que o bebê fique 6 meses no colo e, de repente, a mãe tente adaptá-lo ao carrinho ou berço. Vale começar fazendo pequenos intervalos entre o carrinho e os braços, algo como: colo da mãe, do pai e carrinho”, diz Monezi.

Torne o local em que a criança irá ficar mais interessante. Brinquedos e objetos lúdicos contribuem bastante. A presença da mãe é importante, mesmo quando o baixinho estiver no carrinho ou no berço.

Se você ainda não se convenceu que deve resistir à tentação de pegar o seu filho no colo a todo instante, mais um argumento irrefutável: em demasia, o costume pode acarretar problemas à sua saúde. “Os tendões em torno dos ombros e cotovelos ficam sobrecarregados e o movimento de se abaixar para pegar a criança prejudica a lombar”, afirma o ortopedista e traumatologista Luis Eduardo Munhoz da Rocha, presidente da Sociedade Brasileira de Coluna. Para atenuar esse impacto, procure apoiar o pequeno em seu quadril, pois, assim, o peso é direcionado para os membros inferiores.

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