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"Eu fiz um aborto" - depoimentos de quem já abortou uma gestação

Acompanhe os depoimentos de duas mulheres que fizeram aborto: o que pareceu um alívio para uma se transformou em martírio para a outra

Atualizado em 25/06/2012

Depoimentos a Monique Dos Anjos - Edição: MdeMulher

Aborto

Duas mulheres contam como se sentiram ao fazer aborto
Foto: Getty Images

"Tomei a decisão certa naquele momento" - Clara*, 30 anos

"Tudo começou quando decidi morar algum tempo fora do país, no ano de 2000. Eu tinha 22 anos e queria descobrir como seria viver em um lugar diferente. Então, parti para o Canadá. Fiquei hospedada na casa de um casal de amigos dos meus pais com um filho da minha idade, o Bruno. Minha intenção era aproveitar a hospitalidade da família apenas pelo tempo necessário para encontrar um apartamento. Só não contava que me apaixonaria logo de cara. Como eu estava sozinha numa terra desconhecida, Bruno e eu saíamos juntos direto para nos divertir. Quando dei por mim, já estávamos transando. Até aí nada de mais, a não ser o fato de estar comprometida havia sete anos com Gustavo. O problema é que nosso relacionamento chegara àquele ponto em que se fica junto por comodismo. Assim, quando conheci melhor o Bruno, calmo e seguro, não foi difícil me sentir atraída. Apesar disso, nunca levei esse romance realmente a sério. Ao contrário do Bruno, que até fazia planos de voltar ao Brasil por minha causa.

Quando o fim do ano chegou, decidi voltar ao Brasil. A gente se despediu sabendo que seria impossível manter aquela relação. Um mês depois do meu regresso, no entanto, ele veio com a família passar as férias em São Paulo. Ficamos juntos uma vez só e transamos. Detalhe: sem camisinha. Logo depois, ele partiu e comecei a estranhar meu corpo. Sentia fortes dores no útero, os seios bastante sensíveis. E minha menstruação, que sempre foi regulada, atrasou. Na mesma hora, pensei: ‘Estou grávida’. Senti tudo à minha volta girar. A sensação de enjôo piorou quando me dei conta de que não sabia quem era o pai, pois na mesma semana tinha transado com meu namorado. Eu não tomava anticoncepcional nem usava camisinha. Conosco, era aquele esquema de tirar na hora H.

Apreensiva, fui à ginecologista e o exame de sangue confirmou a gravidez. Conversei com a médica sobre uma interrupção e saí de lá com o nome de um médico na zona sul da cidade. Antes de ir à consulta, conversei com o Bruno. Num primeiro momento, ele ficou animado. Até pensou que poderíamos formar uma família. Mas depois de pesarmos os prós e os contras acabou se convencendo de que aquela não seria a melhor opção para nós. Eu estava recém-formada, não trabalhava e morava na casa dos meus pais. Na minha cabeça eu não possuía estrutura suficiente para criar um filho. Enquanto o Bruno estava crente de que a criança era dele, o Gustavo não desconfiava que eu o traísse. Não via propósito em contar o que acontecera. Dizer a verdade só pioraria as coisas. Descobri a gravidez na primeira semana e, na segunda, já tinha consulta marcada com o tal médico. O preço do aborto, cerca de 2 mil reais, em dinheiro vivo. Quem bancou tudo foi o Bruno, que me mandou o valor pelo banco. Uma semana depois, lá estava eu na porta do local indicado, tendo de falar uma senha ao segurança. Esse é o truque que usam para encaminhar as pacientes que farão o aborto. Depois de entrar em uma salinha, me lembro de ter tomado uma anestesia e apagar antes que pudesse perguntar se ia doer. Acordei meio sonolenta em outra sala com a curetagem já feita. Não senti nada, apenas cansaço. Tanto que dormi um tempão.

Acordei na manhã seguinte com sangramento, o que, segundo o médico, era normal. Senti também fortes dores. Por causa da febre, ele me receitou alguns antibióticos. Só melhorei uma semana depois. Morria de medo que minha família descobrisse tudo, mas ninguém nunca percebeu. Depois de alguns meses, comecei a trabalhar e a tocar a vida normalmente. No fundo, sou prática e dona de personalidade forte. Por isso, a decisão do aborto foi tomada como todas as escolhas que faço: de forma rápida e consciente. Terminei meu namoro com Gustavo depois de me apaixonar pelo meu atual marido. Estamos casados há quatro anos e compartilhamos tudo. Ele sabe da minha história e nunca me julgou por isso. Pensamos em ter filhos, claro. Mas não agora. Ainda estamos curtindo a vida a dois. Viajamos bastante e estamos cheios de planos. Às vezes, penso no que teria acontecido se eu tivesse mantido a gravidez — mas tudo isso sem culpa. Acredito que fiz o que era certo e não me arrependo por não ter trazido ao mundo um bebê no momento errado. Afinal, outras chances virão".

"Se eu pudesse voltaria atrás" - Marcela*, 27 anos.

"Engravidei pela primeira vez aos 15 anos. Namorava fazia pouco mais de 1 ano com o Douglas, cinco anos mais velho do que eu. Estava na fase de descobrir o sexo, conhecer meu próprio corpo, explorar a sexualidade. Nós só usávamos camisinha uma vez ou outra, e olhe lá. A maior parte das transas era na base da tabelinha ou de tirar antes de terminar. Tudo ia bem até que a minha menstruação atrasou. Fiz um teste comprado em farmácia. Deu negativo e sosseguei. Só que nos dias seguintes o fluxo não apareceu e resolvi procurar uma médica. A ginecologista disse que provavelmente seria apenas um problema hormonal, ou mesmo nervoso, por causa da situação. Ela me pediu alguns exames e marcou um retorno. Quando voltei lá com os resultados, ela soltou a bomba: eu estava mesmo grávida.

Voltei para casa desnorteada. Queria que um caminhão me atropelasse ou que um buraco se abrisse para me engolir. Dois anos antes eu ainda brincava de bonecas, era uma criança. Não tinha ideia do que seria lidar com um bebê de verdade, tampouco me responsabilizar por alguém. Contei ao meu namorado e à mãe dele. Os dois ficaram felizes e até tentaram me convencer a levar a gestação adiante. Já com a minha família a história seria bem diferente. Assim, só a minha irmã, com quem eu morava, ficou sabendo da verdade. Meus pais, conservadores, teriam me matado. Em pânico, decidi tomar uma atitude drástica. Soube por meio de um amigo do Douglas que chá de maconha era abortivo e quis arriscar. Nos trancamos na casa dele numa tarde e fizemos a bebida. Nunca passei tão mal em toda a minha vida. Tive alucinações, suei muito e senti dores horrendas no útero. Apesar de tudo isso, o tal preparado não fez efeito nenhum. Continuava gravidíssima. A partir daí, as coisas só pioraram. Eu estava com quase um mês e já não sabia mais se queria abortar, ao mesmo tempo morria de medo só de pensar que o bebê nasceria defeituoso. Comecei a sentir os enjoos e a gestação passou a ser algo real, concreto.

Depois de dias e mais dias me remoendo de culpa por ter tomado aquele veneno, resolvi marcar uma consulta com o médico indicado por uma amiga. O lugar parecia uma clínica qualquer, com secretária, revistas e outras pacientes. O médico era atencioso. Chamou o Douglas na sala e perguntou há quanto tempo nós estávamos juntos. Também questionou se tínhamos certeza da decisão. Ele explicou como seria o procedimento, falou da anestesia, do sangramento nos dias posteriores e das cólicas. Eu não conseguia perguntar nem responder nada, só chorava. Para me acalmar, ele dizia que eu estava fazendo a coisa certa, pois tinha o direito de escolher o melhor para mim. Durante o exame, ele afirmou que eu estava de dois meses. Fechamos o valor em 1 500 reais, e ele pediu que eu esperasse na recepção até que a clínica esvaziasse. Foram as duas horas mais longas da minha vida. Quando finalmente me chamaram, vesti aquela roupa de hospital tremendo e chorando tanto que parecia seguir para a cadeira elétrica. Após receber anestesia, apaguei. Só me lembro de ouvir vozes e experimentar a sensação de cair num túnel. Acordei assustada, com frio e sonolenta. Passado algum tempo, o sangramento e as cólicas começaram.

Pior do que lidar com a dor física era encarar o sentimento de culpa. Fiquei tão mal que perdi o ano no colégio. As semanas seguintes foram dificílimas. Sonhava todas as noites com bebês e às vezes acordava com a sensação de que uma criança estava ao meu lado, na cama. Só fui entender tudo isso depois que recorri ao espiritismo. Tomei consciência de que impedi uma vida de nascer. Acredito ter cortado o ciclo de vida de alguém que já estava predestinado a nascer e meu remorso não me deixava esquecer. Com tudo isso, Douglas e eu nos afastamos um pouco e comecei a sair com outro cara. Seis meses depois, engravidei novamente. Sabia que o nenê era do meu namorado, pois com o ficante eu nunca transava. Dessa vez, não hesitei em levar a gravidez adiante. Foi quando um pensamento começou a tirar meu sono. E se meu filho nascesse com algum problema por causa daquele aborto? Mas a gravidez transcorreu sem maiores problemas. Embora minha família tenha ficado em choque, tive apoio dos parentes do Douglas. Hoje, minha menina tem 10 anos e é a razão da minha vida. Por causa dela me esforcei, ingressei na faculdade, consegui emprego e, só de olhar para seu rosto lindo, já começo a sorrir".

*Os nomes foram trocados para garantir a privacidade das entrevistadas

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