- › MdeMulher
- › Moda
- › Tá na moda
O que está por trás da roupa que você veste agora?
A jornalista Ana Cândida Zanesco conta o que está por trás da roupa que vestimos e incentiva o consumo consciente
Publicado em 12/02/0108
Reportagem: Priscilla Santos - Edição: Amanda Zacarkim
Conheça a iniciativa Eu Visto Consciente
Foto: Raquel Espírito Santo
O que existe por trás da calça jeans que se coloca às pressas antes de sair para o trabalho? Quantas histórias, quantas pessoas envolvidas, quantos materiais retirados da natureza? Em tempos de moda ecológica, a jornalista Ana Cândida Zanesco levanta a bandeira: Eu Visto Consciente. Esse é o nome da campanha lançada pelo Instituto Ecotece, organização sem fins lucrativos que ela criou para divulgar uma forma mais responsável de se vestir. A jornalista despertou para essa visão humana do vestir quando, na estrada, viu um varal de roupas esquecido num posto de gasolina. Pensou: quem seriam as pessoas por trás daquelas roupas? Afinal, há muito mais no ato de se colocar uma camiseta do que se imagina.
Qual é a proposta da campanha Eu Visto Consciente?
A campanha pretende informar as pessoas e, em sua primeira versão, contribuir para o crescimento do mercado de algodão orgânico no Brasil. O primeiro passo para uma mudança de atitude é estar consciente do que se está vestindo, é tentar rastrear a origem das roupas que você compra: qual é o processo e quem são as pessoas por trás do produto? A roupa é a bandeira de cada um. Saber se a roupa que se veste gera vida ou morte é essencial e pode ser um distintivo de identidade. No planeta, somos mais de 6 bilhões de pessoas e o algodão está presente em mais de 40% dos têxteis mundiais. A primeira ação da campanha foi a adaptação em nosso site do vídeo Fibra Ética: Algodão Orgânico, que fala sobre a contaminação de agricultores no plantio de algodão com agrotóxicos em Benin, na África.
Quais os problemas gerados pelo cultivo de algodão hoje?
O algodão é a cultura agrícola que mais polui e mais mata agricultores no mundo. De terras cultiváveis no planeta, a fibra tem apenas 3%, mas contabiliza 25% dos agrotóxicos consumidos no mundo. Por ter a justificativa de que não é alimento, coloca-se no plantio do algodão até oito vezes mais pesticidas do que em lavouras de alimentos. São usados cerca de 160 gramas de agrotóxico para produzir algodão suficiente para confeccionar uma camisa que pesa 250 gramas. O que pouca gente sabe é que do caroço do algodão se produz óleo comestível e também uma ração para alimentar gado leiteiro, pois o caroço da planta tem uma propriedade que aumenta a quantidade de leite produzido pela vaca. Portanto, indiretamente esse agrotóxico está presente em nossa alimentação.
O orgânico seria uma alternativa?
No Brasil, 90% do cultivo de algodão vem dos grandes produtores. O sistema orgânico é uma alternativa de geração de renda para os pequenos agricultores, além de canalizar a educação desses trabalhadores e de suas famílias, pois quem acessa os valores e princípios contidos no conceito de orgânico não é apenas quem consome, mas também quem produz. Estive presente em um seminário sobre algodão na Paraíba, onde o filho de uma agricultora me disse: Não podemos usar veneno na lavoura porque o veneno mata as formigas e elas são afofadoras do nosso solo. Isso é educação, sem dúvida.
Mas o orgânico não é para poucos?
O foco do vestir consciente não está no produto, mas no processo, no conteúdo que o produto é capaz de trazer. Há histórias ali, valores, houve gente que trabalhou para fazer aquele produto. Uma roupa é também um veículo de educação, de conceitos, de princípios. E, quando alguém entra em contato com essa roupa, acessa todo esse conhecimento junto. Como as peças orgânicas ainda são mais caras no Brasil, ficam restritas à elite. Mas a proposta do vestir consciente pode chegar às classes sociais de baixa renda através de outras matérias-primas, como roupas doadas e retalhos. Montamos a Retece, uma oficina de estudos e práticas para mulheres de uma comunidade em Santo André, na Grande São Paulo. Apresentamos conceitos e desenvolvemos atividades para reformar roupas usadas. É uma maneira de contribuir, pois aumenta o tempo de vida de uma peça e reduz a demanda por algodão convencional.
O que difere vestir consciente de moda ecológica?
A moda ecológica está mais ligada à preservação da natureza. A expressão vestir consciente transcende a questão militante ambiental para chegar à presença da consciência em uma ação cotidiana. Por isso escolho a palavra vestir, pois vestir é um verbo, uma ação de todo dia.
E como é possível estar mais consciente nessa ação?
Saber se estamos consumindo ou sendo consumidos pelo ato de comprar é um bom começo. Depois, é preciso saber a origem, o processo por trás do que se veste. Também podemos prolongar a vida das roupas e usar a criatividade para isso. O ideal é o ativo social e o ambiental caminharem juntos, mas, como estamos engatinhando nesse processo, é preciso ter flexibilidade.
É possível ser consciente sem perder o foco da roupa como expressão de identidade?
A roupa é a bandeira de cada pessoa. Nossa proposta é nos vestirmos com a consciência de que a vida é um tecido onde tudo e todos são como fios que se conectam. O bem que praticamos em nosso pequeno mundo tem reflexo em todo o Universo. Os tecidos das roupas materializam essa realidade da conexão da vida, que é invisível. O tecido é visível, uma metáfora materializada. A proposta do vestir consciente não é perder o próprio estilo. Pelo contrário. É buscar esse estilo, romper com os padrões que a moda prega, é ser autêntico, buscando a consciência, a valorização do trabalho manual. Quem sou eu? Como me expresso através de minhas roupas? Afinal, qual é minha bandeira?
- Conheça o projeto Ecotece no site www.ecotece.org.br;
- Assista "Fibra Ética - Algodão Orgânico": http://www.youtube.com/watch?v=3NWiE4eDkEU&feature=player_embedded




































