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Guardiã cibernética

por Mariana Lacerda

No dia em que nasceu, havia Carnaval e fogos brilhavam no céu de Olinda e Recife – cidades-irmãs que festejam seus aniversários na mesma data. Maria Elizabeth Santiago de Oliveira nasceu no dia 12 de março, há 45 anos. No candomblé, tornou-se filha de Oxum, o orixá das águas. De onde veio seu segundo nome de batismo: Beth de Oxum. Ela logo se tornou a primeira dama a tocar um instrumento percussivo em um grupo de afoxé, o Candomblé em Cortejo. Mãe de quatro filhos, Beth resolveu, “para brincar em casa com os meninos”, recuperar o coco de umbigada, dança e ritmo que têm origem nas tradições negras e indígenas. A brincadeira cresceu. Saiu do seu quintal e ganhou o terreiro em frente a sua casa. Que não foi o suficiente para mestres percussivos, poetas e amigos, que vinham dançar e cantar com a família de Beth. A moça resolveu ganhar o mundo. Fez isso ao associar a cultura popular a algo novo para ela: a tecnologia. Aprendeu a usar o teclado de computador para escrever um projeto para o Ministério da Cultura. Aprovado, criou a Casa de Dona Oxum, onde se dá a alfabetização digital para muitos de sua comunidade, além de colocar músicas tradicionais na rede para democratizá-las. Ao fazer isso, recuperou a dignidade de antigos mestres de coco de roda e de maracatu, preservando, como uma guardiã cibernética, a cultura de seu lugar.
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