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Morar

O refúgio

O que faz de uma casa um lar? E o que faz de um lar o ponto mais importante do seu mapa sentimental? Sinta-se em casa

texto Rafael Tonon

Depois de uma rotina frenética e cheia de compromissos, repleta de reuniões, de mexericos e burocracias, de trânsito sem fim, de apertos de mão, de envio de emails e de fechamento de relatórios, não tem nada melhor que poder, enfim, chegar em casa. Poucas horas do dia são mais prazerosas que esta: de colocar a chave na fechadura, girar a maçaneta, respirar fundo e perceber que se está de volta ao lar, doce lar. Parece que em nenhum outro lugar do mundo somos tão bem-vindos e nos sentimos tão reconfortados quanto em nossa morada. E não é só uma percepção. Realmente é nela que retomamos o contato com o nosso eu mais autêntico, que estava escondido nos bastidores esperando só que o dia acabasse. De todos os endereços, é ali na rua não sei das quantas, número tal, que você tem um lugar só seu – mesmo que o divida com algumas pessoas. É na sua privacidade que você pode se jogar no sofá, estender as pernas e, por uns instantes, dar as costas para o mundo. Nos próximos parágrafos, vamos explicar o que faz da nossa moradia nosso lar. Pode entrar. Tire o sapato, vire a página e fique à vontade. A casa é sua.

Abrigo para o corpo No princípio eram as pedras. E, há alguns milhares de anos, nossos ancestrais as ergueram com as mãos para construir abrigos. Com o tempo, começaram a levantar coberturas utilizando ramos de árvores, a cavar grutas nos montes e a imitar os ninhos dos pássaros, com barro e ramos. As casas se tornaram o lugar que nos protege do ambiente em que vivemos: é lá que estamos seguros, resguardados do frio, da chuva... Mas o conceito de casa como conhecemos hoje surgiu no Império Romano, com as construções de madeira e barro, bastante semelhantes às cabanas e choupanas.

Um dos maiores arquitetos desse período, o romano Marcos Vitrúvio foi o primeiro a teorizar sobre a essência da casa. Para ele, ela estava justamente na lareira, cujo fogo era o elemento inseparável das cabanas rústicas. Em seu tratado De Architectura, ele relata que “com o fogo surgiram entre os homens as reuniões, as assembleias e a vida em comum”. E também a convivência doméstica. “A palavra lar é uma corruptela de lareira. Tem a ver com o conceito do fogo de unir ao seu redor todos os integrantes de um laço familiar, sendo, de modo figurativo, um manto que aquece, aproxima e protege todos os seus integrantes”, afirma Jorge Marão Miguel, diretor do Centro de Tecnologia e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina.

Refúgio para a alma Essa proteção pura e simples ganhou uma relação afetuosa com o passar dos séculos. Nossa casa não é só um local em que estamos protegidos fisicamente – é um lugar no qual gozamos de pleno conforto emocional. Saber que temos onde morar, deixar nossos pertences e viver nossa vida íntima nos dá uma segurança tremenda. Porque a moradia representa o controle que temos sobre nossa vida privada. Se somos donos de uma casa, aquele espaço nos é assegurado por direito. Ninguém pode contrariar nossa vontade. É por isso que a segurafnça emocional está tão ligada ao “sonho da casa própria”. Sem um lugar para chamar de nosso, nos sentimos vulneráveis, sem controle de nossa vida. Temos a ilusão de que só no lar estaremos a salvo. É a proteção da nossa incerteza da existência, como dizia Sigmund Freud.

Já outro ramo recente da psicologia tratou de estudar a relação do ser humano com o ambiente em que vive. A psicologia ambiental defende que, ao mesmo tempo que o homem modifica o meio, é também modificado e influenciado por ele. Dessa forma, a casa em que vivemos tem um papel importante no desenvolvimento de nossa personalidade. Ela é a extensão do nosso “eu”. Essa relação começa ainda na infância. Quem não tem aquela lembrança boa de um lugar da casa em que tenha morado quando pequeno? O quintal dos fundos, aquele esconderijo debaixo do tanque, a bagunça da garagem. “As primeiras impressões afetivas de um indivíduo surgem na infância, geralmente no lar, que é o lugar em que passamos mais tempo quando somos bebês. Por isso o conceito de lar está tão ligado à família em nossa mente”, diz Zenith Delabrida, do Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília.

Onde mora o afeto Para o agrônomo Rafael Valamede Alves, esse conceito está mais que arraigado. Desde que nasceu, mora no mesmo apartamento em Campinas (SP). Durante os anos de faculdade em outra cidade, ficou longe de casa, mas sempre que dava regressava nos fins de semana. Formado, voltou – com o diploma debaixo do braço – a morar no apartamento. Dessa vez sozinho, já que a família tinha se mudado para uma chácara. “A relação que tenho com este apartamento é especial. Nasci aqui, formei grande parte dos meus amigos aqui e todo meu conceito de lar sempre esteve ligado a ele.”

Hoje, casado, Rafael continua a morar no mesmo apartamento, agora com a mulher (que só teve de mudar de andar para viverem juntos, já que morava no mesmo prédio). “No começo foi meio estranho, parecia que eu ia apenas mudar de quarto, ia passar a dormir no quarto que era dos meus pais”, diz. Mas, depois da reforma “para dar um novo ar”, ele diz que gostou da ideia de mudar de vida, mas manter o mesmo lar. “Claro que meu papel mudou, agora eu sou responsável por cuidar das coisas de casa, organizar, fazer tudo dar certo”, afirma. “Mas o mais legal é que, apesar de ser tudo diferente, o apartamento é o mesmo. E eu continuo a viver em um lugar em que realmente me sinto em casa.” Mas por que será que é só na nossa casa que temos a sensação de conforto absoluto? O filósofo Alain de Botton nos dá a pista. No livro A Arquitetura da Felicidade, defende que o lar reflete nossa personalidade, é ele o guardião da nossa identidade. É dentro da nossa própria morada que podemos vivenciar todas as nossas convicções, reafirmar nossos valores, ratificar nossos pontos de vista. Enfim, sermos nós mesmos. “É por isso que tendemos a honrar aqueles lugares cuja perspectiva combina com a nossa e a legitimiza chamando-os de ‘lar’”, afirma. Da porta para fora, somos cidadãos do mundo. Ali dentro, somos donos do nosso próprio mundo. E, mais que nos oferecer abrigo, nosso lar é também o abrigo das nossas crenças, dos nossos afetos – quaisquer que sejam eles. “Falar em lar com relação a uma construção é simplesmente reconhecer sua harmonia com nossa própria canção interior preferida”, afirma De Botton. Como cada um de nós toca dentro de si uma canção diferente, também possui um conceito de lar todo único. “Um lar pode ser um aeroporto ou uma biblioteca, um jardim ou um trailer de comida na beira da estrada.”

Mar, doce lar Ou até, quem sabe, um veleiro, como no caso da administradora de empresas Julia Acordi Lima. Durante uma regata no litoral paulista, ela conheceu Simon, um velejador suíço, e a paixão em comum pelo mar logo virou uma paixão em comum. Depois de meses de namoro, o visto dele expirou e o obrigou deixar o país. Entre a escolha de se separarem ou viverem juntos, optaram pela segunda opção.

Julia pediu demissão, juntou suas coisas e foi morar em um veleiro de 37 pés. O primeiro endereço foi a Patagônia. Logo partiram para a Antártida e, depois, para o Chile. Lá conceberam o primeiro filho e cruzaram o oceano Pacífico. “O Timo nasceu no Brasil, mas voltamos com ele ao barco quando já estava com 8 meses”, diz. Julia conta que, no começo, a mudança foi difícil. Mas ela jura que logo se acostumou com a nova morada e que hoje não se imagina vivendo mais seus dias num apartamento. “Eu nunca fui muito apegada às coisas e aos lugares, e ser assim ajudou na adaptação. Lar, para mim, é um cantinho onde você cuida e cria suas coisas: as refeições, o cotidiano e, principalmente, o amor”.

Agora a família está na Austrália, esperando o nascimento de Lucas, o quarto integrante. Quando ele estiver com 2 meses, voltam a navegar. “A ideia é seguir velejando até as crianças completarem a idade de ir para a escola, então temos mais ou menos cinco anos dessa vida”, diz ela, pronta para mudar para um catamarã de 44 pés – com direito a geladeira, freezer e, ufa, chuveiro. A nova “casa” está pronta e definida. Já o endereço continua dependendo do humor da família – e das condições do mar.

LIVROS A Arquitetura da Felicidade, Alain de Botton, Rocco A Casa, Jorge Marão Carnielo Miguel, Imesp

 

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