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Poucos dias antes de morrer, em 1994, Iberê Camargo, já bastante debilitado por um câncer, acordou no meio da madrugada a esposa e companheira de décadas, Maria, e pediu a ela que o levasse até o ateliê. Como Maria não tinha forças para carregá-lo até lá sozinha, uma vizinha foi chamada para ajudar. Iberê queria trabalhar numa tela, pois sabia que era a última oportunidade de fazê-lo antes de ser internado. Solidão é o título da obra, que ficaria inacabada, e o episódio ilustra bem a postura do artista gaúcho em relação à arte. A começar pelo fato de que, em sua opinião, “arte e vida confundem-se”. Não se trata apenas de uma questão de postura, de um modo de se relacionar com a própria criação, mas também a forma como tal relação se dá: exorcizando o sofrimento, a dor e as experiências traumáticas.
Apesar do peso e da carga dramática das pinturas de Iberê Camargo (“pinto porque a vida dói”, confessou), não se pode reduzi-las a meros exercícios terapêuticos. Elas são o resultado de um homem que encontra prazer genuíno no pincel, que precisa daquilo para se manter vivo. E se essas telas transmitem a obsessão pela morte e pela desumanização do mundo, potencializada depois de um trágico incidente em que o pintor assassinou um homem no Rio de Janeiro, é inegável que transbordam também o humor peculiar e cínico de alguém que trilhou um caminho de poucos paralelos na arte brasileira. “Mesmo doídas, as telas tardias do Iberê proporcionam alegria estética e representam uma afirmação positiva, luxuosa da pintura, nesses tempos em que essa defesa parece tão fora de moda”, afirma Vera Beatriz Siqueira, professora de história da arte da UERJ e autora de Iberê Camargo: Origem e Destino.
Caminho moderno Filho de ferroviários, Iberê Camargo nasceu em 1914 em Restinga Seca (RS). Aos 4 anos “passava horas a fio a rabiscar”. Durante a infância viveu com os pais em cidades gaúchas como Jaguari, Canela e, por fim, Santa Maria, onde iniciou o aprendizado da pintura na Escola de Artes e Ofícios. Em meados da década de 30, passou a trabalhar na Secretaria de Obras Públicas do Estado. Nesse período, Iberê assinou projetos de praças do interior gaúcho, que nunca chegaria a ver prontas. Iberê se casou em 1939 com Maria Coussirat, e com ela passou todo o resto da vida. Entediado pelo cotidiano de funcionário público, voltou a pintar para valer e, em 1942, ganhou uma bolsa para estudar pintura no Rio, na Escola Nacional de Belas Artes.
O academicismo logo enfadou o jovem e genioso pintor. Iberê estava de olho no modernismo, gênero com o qual teve pouco contato quando morava na provinciana Porto Alegre. A ponto de, logo no primeiro dia na antiga capital federal, o gaúcho ter procurado, por recomendação do poeta Augusto Meyer, uma das estrelas do cenário brasileiro, Cândido Portinari. “Gosta?”, perguntou Portinari ao visitante, após mostrar as telas em que trabalhava no ateliê. Não, Iberê não gostara, o que Portinari achou natural: aquele rapaz do Sul ainda precisava, a seu ver, se acostumar com as deformações das figuras promovidas pelos modernistas. Ora, ele próprio, Portinari, havia se assustado ao conhecer a produção de Pablo Picasso em Paris. De fato, Iberê ainda treinava o olho para as inovações formais, mas o aspecto engajado, politicamente comprometido, dos trabalhos do paulista de Brodowski também o incomodava bastante. Encantou-se mais pelo expressionismo de Lasar Segall e pela independência de Guignard, transformado por ele em professor particular. Iberê ainda labutava em busca de uma marca pessoal. Paisagens de becos e ruelas habitam suas telas cariocas dos anos 40. Com uma delas, o óleo Lapa (1947), venceu o prêmio do Salão de Arte Moderna e ganhou uma viagem à Europa. Foi lá, dividindose entre Roma e Paris, que fortaleceu a formação. Na Itália estudou com o surrealista De Chirico, de quem admirava a pegada metafísica, e na França teve aulas com André Lhote.
Iberê nunca se encantou com as obras do francês, mas admitia que ninguém lhe ensinou tanto. “Lhote fez-me ver as identidades na solução de cor, de valor, de ritmo, enfim, de todos os elementos da linguagem pictórica.”
O fio da infância De volta ao Rio, em 1950, começou a trilhar um caminho pessoal após descobrir sua madeleine: os carretéis. Para Iberê, os pequenos objetos que usava como brinquedos funcionavam como remissão à infância, uma viagem de descobrimento em direção ao “pátio de guri na Restinga Seca”. Nas duas décadas seguintes, o artista, obcecado pelos carretéis assim como o italiano Giorgio Morandi pelas garrafas, espalhou-os incessantemente pela tela até que se apresentassem como uma massa quase abstrata. Em séries como Núcleos, as formas explodem na tela, marcadas por pinceladas densas, camadas pastosas de tinta e tons negros ou azulados. Críticos estrangeiros, ao observarem as obras desse período, tendem a traçar analogias com o expressionismo abstrato de De Kooning e Pollock. Iberê repudiava a comparação. Gostava era dos mestres – dos renascentistas, de Goya, de Rembrandt – e, entre os contemporâneos, preferia associar seu espírito criativo ao de Picasso, pelo desejo de retornar aos clássicos e dar a eles uma roupagem moderna.
O momento mais terrível da biografia do gaúcho se daria em dezembro de 1980, no Rio: o assassinato do engenheiro Sérgio Alexandre Esteves Areal. O incidente nunca foi devidamente esclarecido. Pela versão de Iberê, no fim da tarde, saindo do ateliê, o pintor caminhava com a secretária até uma loja para comprar cartões de Natal quando viu Areal agredindo a esposa. Nervoso por ser observado, o engenheiro reagiu e empurrou Iberê, que estava armado e disparou dois tiros. Foi absolvido por legítima defesa (tinha posse de arma), porém nunca se recuperou psicologicamente da tragédia. O pintor resolveu voltar a morar em Porto Alegre e, ao mesmo tempo, trazer a figura humana de volta aos óleos e gravuras.
Consciente da proximidade da morte e afetado pelo aterrador homicídio, assume a mais soturna fase da carreira. Figuras espectrais, grotescas e disformes permeiam séries espetaculares como As Idiotas, Fantasmagorias, Ciclistas e Tudo Te é Falso e Inútil (título inspirado em um verso de Fernando Pessoa). Grande parte dos trabalhos tardios de Iberê está exibida na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, cuja sede foi projetada pelo arquiteto português Alvaro Siza. “Nas obras da maturidade ele defendia a capacidade de o indivíduo se expressar, criticava quem se deixa manipular: daí As Idiotas”, diz o escritor Paulo Ribeiro, que conviveu com o artista no fim da vida e escreveu uma novela ficcional sobre as conversas que mantiveram. “Além de lamentar os rumos do mundo e voltar-se para os desejos e angústias da humanidade, estava traçando uma linha em direção próprio passado. Produzia para apalpar a eternidade e dominar o tempo, para continuar conosco por mais tempo”, afirma Ribeiro. Em paralelo à pintura, o pintor encontrou tempo para publicar, em 1988, os claustrofóbicos contos de No Andar do Tempo (esgotado). Adorava Dostoiévski, Kafka, Dante, Faulkner, Tolstói.
Tanto desencanto com o pincel não se refletia no trato pessoal. “Era generoso, falante, conciliava a solidão da criação ao convívio tranquilo no dia a dia”, diz Ribeiro. Era ácido. Iberê dizia que o Brasil é um “castelo habitado por mendigos”. Brigou a vida toda por subsídios para diminuir o preço das tintas importadas e, nos últimos anos, reclamava que pintava para “si mesmo ou para holandeses comprarem”. Nunca entrou na onda da arte; chamava as instalações de “do penico quadrado e do arame farpado”. Tamanha intensidade não podia resultar em outra coisa que não um casamento visceral com pintura. Como ele declarou à crítica Lisette Lagnado, “o homem sem fé não cria. Fé em quê? No que faz”.
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Iberê Camargo: Origem e Destino,
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Tríptico Para Iberê,
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Veja o artista Iberê Camargo em ação:
http://www.youtube.com/watch?v=sYVDk-L3bBQ