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Produto interno

Evasão de privacidade

por Luiz Alberto Marinho

Lembro-me bem de um filme, estrelado pela Sharon Stone no auge da sua beleza, chamado Invasão de Privacidade. A atriz fazia o papel de uma moça que se mudava para um prédio onde várias mortes misteriosas aconteciam. No fim a gente descobre que todos os apartamentos eram monitorados por câmeras, que expunham a privacidade dos moradores para deleite do voyeur interpretado por William Baldwin.

Em 1993, quando o filme foi rodado, ainda não havia câmeras espalhadas pelas cidades e a questão da privacidade das pessoas ainda era relevante. Hoje isso tudo perdeu importância. Afinal, somos nós mesmos que fazemos questão de expor nossa intimidade, às vezes em tempo real, para muitos.

Um dos exemplos mais extremos dessa tendência aconteceu em julho, quando dois adolescentes de Porto Alegre, a menina com 14 e o garoto com 16 anos de idade, fizeram uma aposta que a moça perdeu. A punição foi exibir-se na frente de uma câmera para uma multidão de pessoas que acompanhou tudo pela internet. Quanto mais gente aparecia para ver a cena, transmitida ao vivo pelo computador do rapaz, mais ousada ficava a ação. Resultado – os jovens acabaram fazendo sexo na frente de mais de 20 mil pessoas e acharam tudo muito legal. Isso antes de serem convocados para depor na delegacia da cidade, claro. Detalhe – o jovem casal de Porto Alegre se conhecia havia somente um mês, pela internet. Pessoalmente, tinham se encontrado apenas dias antes do episódio.

Essa foi apenas uma evolução do fenômeno do “sexting”, adotado por vários jovens ao redor do mundo. Consiste na troca de mensagens de texto apimentadas pelo celular, incluindo fotos com nudez. Daí para a gravação de cenas de sexo pela câmera do celular ou da máquina fotográfica é um pulo. E, como atualmente nada parece privado, muitos desses filmes pornôs caseiros foram também parar na internet – talvez o mais famoso deles tenha sido o de Paris Hilton, a socialite americana.

A verdade é que expor a intimidade virou coisa corriqueira. Não me refiro apenas às cenas de sexo. Milhões de brasileiros, eu inclusive, informam aos amigos o que fazem naquele instante via Twitter, dizem em que parte do planeta se encontram, pelo Foursquare, mostram imagens de suas casas e suas vidas no YouTube e falam mal da vida alheia no Orkut ou no Facebook. A principal atividade dos brasileiros na internet, depois de enviar e receber e-mails, é frequentar as chamadas redes sociais.

De certa forma, nunca mais nos sentiremos sozinhos, embora trocar confidências e expor intimidades online não seja exatamente o mesmo que desabafar com um amigo de carne e osso. Isso, porém, é apenas um detalhe.

Vivemos uma época em que expor nossa intimidade virou algo banal e corriqueiro

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