Silêncio, por favor

Os ruídos atrapalham nossa qualidade de vida, acredita o neurocientista Iván Izquierdo

Publicado em 19/01/2009

Reportagem: Tatiana Bandeira - Edição: Amanda Zacarkim

O silêncio ajuda a memória e proporciona qualidade de vida
Foto: Dreamstime

Para o neurocientista Iván Izquierdo, há ruídos demais no mundo. E, para saber diferenciar no meio da balbúrdia o que faz diferença, só usando o que se aprende desde pequeno: o bom senso. Aos 71 anos, o coordenador do Centro de Pesquisas da Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e hoje pesquisando "basicamente o que faz com que as memórias persistam por mais tempo", como diz, Izquierdo defende a necessidade de fazer escolhas - para escapar de tanto ruído. Ele é autor do livro Silêncio, por Favor, no qual analisa a sociedade contemporânea e os ruídos que atrapalham a qualidade de vida. O médico e pesquisador argentino, radicado no Brasil desde 1973, chama a atenção pela produção nada silenciosa: 630 artigos publicados, a maioria sobre a memória, e 18 livros. O mérito consiste em mesclar ciência e humanismo em boa parte de suas obras. Confira a entrevista.

Há ruídos demais no mundo, o senhor admite. Mas de onde eles vêm?
Vêm do excesso de informações com que somos bombardeados, o tempo todo, pelas formas mais diversas, e isso atordoa. Os ruídos não são só auditivos mas também visuais, linguísticos e sensoriais. São os sons indesejáveis, que gostaríamos de ignorar para poder atender aos sinais que nos são importantes. Tome-se como exemplo uma entrevista em que os repórteres se juntam todos a disparar perguntas. Quem vai responder, das inúmeras perguntas feitas, só vai entender uma. O restante atrapalha. Quanto ao excesso de informação, no jornal que se lê diariamente, ocorre o mesmo. É preciso selecionar os sinais em meio ao ruído. Quem lê pede "Silêncio, por favor!"

Como os ruídos e o excesso de informação podem afetar a memória e as emoções?
A memória, o cérebro, querem gravar informações. O que a gente quer é irrelevante. Se o silêncio compete com o ruído, atrapalha diretamente a formação da memória porque o cérebro "escolhe", por mecanismos diferentes de memória, a forma desse processamento. Atrapalham a memorização, a percepção e a sensibilidade, nas suas mais variadas combinações, inclusive prejudicando as memórias guardadas anteriormente. Para dar um passo, preciso me lembrar do passo anterior para que possa ter sentido de direção. E continuar, seguir a vida. Na saúde mental, existe uma situação patológica que é a esquizofrenia, em que não se consegue identificar os sinais em meio aos ruídos - percebe-se tudo como importante. Mas, mediante tratamento, como no caso do cientista John Nash, que teve a vida retratada no filme Uma Mente Brilhante, é possível melhorar, levar a vida - inclusive ganhar um Nobel, como ocorreu com ele. Tratando-se de emoções, podem gerar ansiedade e, se ela for demasiada, causar desespero. Com tratamentos apropriados, entretanto, é possível se ver livre do "ruído que vem de dentro", causado pela ansiedade.

Como se prevenir?
O cérebro, por meio de um sistema chamado "memória de trabalho", quando não consegue fazê-lo, registra uma espécie de intoxicação e aí entra um processo de confusão. A principal forma de prevenção é se manter atento, aprender a discriminar informação de ruído.

A ignorância é barulhenta?
É muito barulhenta. Há um tipo de desinformação que tem sua origem no desejo de simplificar, reduzir tudo a uma frase de efeito. De tanto interpretar besteiras, às vezes por descaso, às vezes pelo hábito de não prestar atenção, as pessoas se confundem em meio à ignorância emitida até por gente que não é burra.

Como reconhecer em meio à balbúrdia, outro termo usado pelo senhor, quem e o quê, no meio dos ruídos, vale a pena?
Utilizando, novamente o bom senso. Muitos fatores, é verdade, influenciam. Mas o que importa é buscarmos afinidade nos relacionamentos, procurar ler, ouvir as músicas de que se gosta, refletir sobre o que é importante ou pelo menos útil. E sorte.

Há o risco de incorporar os ruídos definitivamente ao cotidiano, deixando de percebê-los?
Apareceu, junto com o ruído, o hábito do ruído, o costume de não saber mais ouvir em silêncio. É preciso prestar atenção na volta. É uma questão de educação coletiva.

Livro para saber mais
Silêncio, por Favor - Iván Izquierdo, Unisinos

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