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Netinho fala sobre a luta contra anabolizantes: "Deus tocou na minha vida"

Em entrevista exclusiva, o cantor Netinho relata a luta para sobreviver durante os sete meses internado em hospitais, onde passou por três cirurgias no cérebro e uma no abdômen

Publicado em 12/02/2014

Por Isabela Flórido

Com 1,82 metro, Netinho chegou a pesar 50 quilos durante a internação. Está com 76 e quer voltar aos 82 quilos
Foto: Antonio Amado

O corpo forte, de músculos definidos, ficou para trás. E isso é o que chama atenção à primeira vista, quando o cantor Ernesto de Souza Andrade Junior, o Netinho, 47 anos, chega para a entrevista exclusiva a CONTIGO! no Clube dos Marimbás, no Rio de Janeiro. Ele caminha com passos lentos, tentando driblar a tontura que o acompanha neste período de recuperação. O largo sorriso ainda é o mesmo. E vem acompanhado de um ar de felicidade, comum às pessoas que passaram pelo que ele passou. Ao longo de 2013, Netinho esteve à beira da morte, mas contrariou todos os prognósticos e sobreviveu. Foram sete meses de internação, entre os hospitais Aliança, em Salvador, e Sírio-Libanês, em São Paulo – onde deu entrada com quadro de infecção generalizada, hemorragia interna, trombose no braço e na perna esquerdos. Durante os meses de internação sofreu três acidentes vasculares cerebrais, passou por três neurocirurgias e uma cirurgia abdominal. No dia 21 de agosto, recebeu alta.

Por tudo o que passou, a frase tatuada em seu braço – "Nada como viver!" – passou a fazer um enorme sentido. Ela deve virar título do livro que planeja escrever contando sua história de superação. Netinho quer que 2014 seja o ano do seu recomeço. "Eu me sinto um vitorioso por poder voltar à vida! Meu tratamento ainda não terminou, mas melhoro dia a dia. Minha voz ainda não está 100%, porém continuo firme nas sessões de fonoaudiologia e de reposição vocal. A tontura ainda não sumiu, mas está diminuindo. Devo ter, e tenho, muita paciência. De resto, só quero agradecer", afirma o artista, que se prepara para um batismo de fogo. Netinho vai encarar o Carnaval carioca cantando como convidado no bloco de Preta Gil, 39, que costuma arrastar mais de 2 milhões de foliões pelas ruas do centro do Rio. Por recomendação médica, ele não vai ao Carnaval de Salvador, pois ainda não pode subir em trios que se movimentam. E em 5 de abril, reestreia no Citibank Hall do Rio de Janeiro – onde está morando – em um retorno aos palcos brasileiros. A seguir, ele fala sobre o que viveu e do futuro.

Netinho demorou dois meses para voltar a andar. "Estou um chorão. Mas choro de emoção. Estou feliz por passar por tudo e poder voltar à vida", diz
Foto: Antonio Amado

Fé na vida
"Nesse período todo hospitalizado, eu nunca pensei: 'Vou morrer'. Isso nunca passou pela minha cabeça. Não fiquei revoltado, apenas pensei: 'Vou passar por isso'. Durante a internação, aconteceram coisas muito fortes comigo, que eu ainda não falei para ninguém. Ainda não tenho condição de contá-las, pois choro muito. Elas vão estar no meu livro. O que consigo dividir é que mudou muita coisa na minha vida. Eu era um darwinista (referindo-se às ideias da teoria da evolução do homem, do naturalista britânico Charles Darwin, 1809-1882) quase convicto, questionava muito o Deus católico. Esse meu questionamento sempre foi teor das minhas conversas com amigos. No entanto, eu vi. Durante esses meses, conheci um Deus universal, um Deus que está em tudo, que está em todas as religiões, independentemente da crença das pessoas. E Deus tocou na minha vida, eu senti isso."

A frase inscrita no braço anos atrás deve batizar a biografia que o cantor pretende escrever
Foto: Antonio Amado

À flor da pele
"Estou um chorão. Mas choro de emoção. Tristeza não mais, nenhuma. É só vitória, conquista. Estou feliz por passar por tudo isso e poder voltar à vida. Quero continuar cantando. E vou cantar. No dia da minha alta hospitalar, eu disse ao Kalil (o médico Roberto Kalil Filho, 54) que, se eu não tivesse escapado, teria morrido feliz. ‘Você ia ter um cadáver sorridente’, brinquei. Porque a minha vida tinha sido ótima até então. Hoje, me peguei pensando no valor do sonho (ele chora). Quanto vale um sonho para mim, quanto vale para você? Eu tive muitos sonhos na minha vida. Ser um cantor reconhecido, gravar uma música que atingisse e tocasse as pessoas, chegar ao Grammy, gravar discos fora do Brasil, ter um filho (Bruna, 15). Tudo isso eu realizei. Agora entendi como tudo é relativo. Da grandiosidade dos sonhos que eu tinha antes, para o sonho que tenho agora. Hoje, meu sonho é correr (volta a chorar). Eu vou voltar a correr, com certeza. Correr é uma coisa simples, como comer, beber água, andar na praia, mas é de um valor imenso quando não podemos. Então, o meu sonho hoje é correr."

Biografia
"Eu vou iniciar o meu livro relatando o dia em que eu acordei no Sírio-Libanês, quatro dias após eu ter sido transferido de Salvador para São Paulo. Entubado na UTI, eu me vi num quarto branco, sozinho, não conseguia mexer nenhum membro do corpo, só a cabeça. Aí vi os monitores acima da cama, entendi que estava em um hospital, mas não sabia aonde nem o que eu tinha. Imaginei ter sofrido um acidente de carro. Fiquei desesperado com o meu estado, mas acabei cochilando. Quando acordei novamente, vi minha amiga Maria João (29). Ela é portuguesa e mora na cidade do Porto. Aí, pensei logo: 'Foi muito grave o que eu tive. Para Maria ter viajado de Portugal para o Brasil é porque foi grave'. Ela e a Cris (a assessora de imprensa Cristiane Freire, 43) são minhas melhores amigas. Eu e Maria nos conhecemos em 1998, depois dos meus shows no Coliseu do Porto. Dias mais tarde, eu estava no hotel e recebi um convite dela, para ir a seu aniversário, em um restaurante da cidade. Eu fui (chora). A partir daí somos muito amigos. Tenho uma carta dela (chora outra vez), que eu guardo até hoje, em que Maria lembra o quanto foi importante eu ter ido a seu aniversário. Coisa mais linda que já li..."

Com os terços que carrega. O de madeira, é do Senhor do Bonfim
Foto: Antonio Amado

Bomba autorizada
"Tomei anabolizantes durante os anos de 2009 e 2010. Procurei o melhor endocrinologista de São Paulo (ele não revela o nome do profissional), fiz tudo devidamente amparado pelo médico. No entanto, assumo toda a responsabilidade, pois eu quis tomá-los. Agora, faço um alerta para que as pessoas tomem cuidado com isso. Cada um de nós tem uma genética diferente. Então, dependendo da carga hereditária, cada um de nós pode ser mais resistente ou menos resistente ao cigarro, à bebida, aos remédios. Você pode sentir os efeitos negativos dos anabolizantes na semana seguinte ao uso ou 40 anos depois, porque o mal que eles fazem ao fígado já estará feito. Os médicos que me trataram não atribuem toda a culpa aos anabolizantes. Eles explicaram que eu já deveria ter predisposição genética a acidentes vasculares cerebrais. Mas eles me informaram que o uso dos anabolizantes, mesmo anos atrás, acabou acelerando esse processo."

Recomeço
"Passar pelo o que eu passei não é fácil. Você tem de querer levantar, tem de querer ficar vivo. Foi muito duro. Reaprender a andar, por exemplo, foi muito difícil, porque todo o meu corpo doía muito, muito mesmo. Depois de tantos meses acamado, você perde o tônus muscular, perde toda a motricidade. Levei dois meses só para voltar a andar. Por ter sido entubado tantas vezes, o que agrediu a laringe, perdi completamente a voz. Cheguei a pesar 50 quilos, quando o meu peso normal é 82 quilos. Eu me alimentava somente por meio de uma sonda e não podia beber água. Durante dois meses, saciei a minha sede somente com uma gaze embebida em água, que passavam nos meus lábios. Um dia, indo para a reabilitação, passei por um espelho e me vi refletido. Tomei um choque com aquela pessoa. Eu era pele e osso. Tinha os olhos fundos e as olheiras muito negras. Hoje, estou com 76 quilos. Vou voltar aos meus 82 quilos para recuperar a musculatura, o que vai ajudar na minha voz consequentemente. Eu tive muita sorte e agradeço por isso."

ESTA MATÉRIA FAZ PARTE DA EDIÇÃO 2004 DA CONTIGO!, NAS BANCAS EM 12/02/2014.

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