A polêmica história sobre a invenção do vibrador vai te surpreender

Ele teria sido criado com o intuito de "tratar" mulheres diagnosticadas com histeria e neurose.

Como é gostoso dar prazer a si mesma, né? A masturbação é uma ótima aliada para diminuir o estresse, extravasar o tesão intenso e proporcionar mais autoconhecimento. E quando o assunto é orgasmo, não há regra: os estímulos podem ser feitos com os dedos, com a fricção de objetos como travesseiros e almofadas, além dos famosos brinquedos sexuais. Entre as diferentes opções de sex toys, o mais conhecido é o vibrador e, em 2019, ele completa 150 anos.

E, neste Dia do Orgasmo (31 de agosto), vale lembrar a história polêmica e interessante sobre quais foram os motivos que levaram à invenção do vibrador. Diretamente do século 19, o primeiro relato sobre a criação do brinquedo sexual foi escrito no livro “A Tecnologia do Orgasmo: Histeria, o Vibrador e a Satisfação Sexual Feminina”, escrito pela jornalista Rachel Maines em 1999. A obra chegou a ganhar o prêmio Herbert Feis, da Associação de História Americana, em 1999, além de conquistar também o prêmio Ciência da Fundação Americana de Gênero e Medicina Genital.

A jornalista explica que o sex toy foi criado por George Taylor para auxiliar médicos que precisavam masturbar mulheres diagnosticadas com histeria na época, já que os chamados paroxismos histéricos, popularmente conhecido como orgasmos, eram todos como o tratamento mais adequado.

Só que não pense que o desenvolvimento do vibrador foi resultado de preocupação com a saúde sexual feminina. De acordo com a autora, os médicos sentiam cãibras nas mãos por terem que masturbar suas pacientes e, com a desenvolvimento da eletricidade, criaram a ferramenta para ajudá-los nas massagens pélvicas.

Criado no começo do século 19, o vibrador demorou para ter o formato atual. Esse era o modelo vendido nas lojas em 1950.

Criado no começo do século 19, o vibrador demorou para ter o formato atual. Esse era o modelo vendido nas lojas em 1950. (Donaldson Collection / Contributor/Getty Images)

O livro de Rachel contrapõe principalmente a obra de Sigmund Freud chamada Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, de 1905. O famoso psicanalista defendia que, a partir da puberdade, o centro do prazer feminino deixava de ser o clitóris e passava a ser a vagina. Só que algumas mulheres continuavam a preferir os estímulos clitorianos aos vaginais mesmo na fase adulta, o que não era visto com bons olhos. As mulheres eram diagnosticadas com histeria e neurose quando isso acontecia. 

Para conter o suposto problema, muitas mulheres foram submetidas a clitoridectomia – a cirurgia extremamente invasiva de remoção do clitóris. Infelizmente, ela ainda acontece até hoje, mas incentivada por outros motivos, religiosos e culturais. Mais tarde, o procedimento cirúrgico foi substituído pelas massagens pélvicas para que mulheres fossem levadas ao orgasmo e, supostamente, tratadas. Isso acontecia porque a neurose e a histeria eram reconhecidas como doenças nervosas causadas originalmente pelo útero.

A imagem acima mostra um vibrador da década de 40, que está exposto no Antique Vibrator Museum, em São Francisco, Califórnia

Mesmo com a popularização da história sobre a criação do vibrador, em janeiro deste ano, a BBC trouxe de volta o assunto só que com outra perspectiva. Baseado em um artigo publicado no “The Journal of Positive Sexuality”, o veículo mostrou o que alguns estudiosos contestam o livro de Rachel. Uma historiadora de tecnologia do Instituto de Tecnologia da Geórgia, chamada Hallie Lieberman, acredita que os vibradores já eram usados para masturbação feminina entre 1900 e 1910, mas eram comercializados como massageadores de costas ou pescoço.

Ela também afirma que, antes de 1900, não há nenhum indício de que o objeto já existia e, por isso, seria impossível o uso dele por médicos. “[Rachel] apresenta a teoria como se ninguém soubesse o que é um orgasmo. Mas já havia uma consciência do clitóris e da sexualidade das mulheres na época”, contesta Hallie. 

Mesmo assim, a história popularizada pelo livro “A Tecnologia do Orgasmo: Histeria, o Vibrador e a Satisfação Sexual Feminina” segue sendo amplamente aceita por historiadores e especialistas em sexologia.

Em meio à polêmica, três coisas são certas: 1) é triste demais ver como a saúde feminina (sexual e psicológica) era tratada de maneira extremamente misógina e abusiva; 2) felizmente a medicina evoluiu a ponto de abandonar as teorias e os tratamentos para histeria e neurose; 3) que bom que o vibrador se popularizou da maneira como o conhecemos hoje: é uma ferramenta que ajuda inúmeras mulheres a ampliarem seu prazer sexual.