Aqueles olhos verdes – conto de Amor e Sexo

O marido de Sandra vai jantar na casa da mãe, mas ela prefere ficar com a filha. De repente, um telefonema avisa que seu amor sofreu um grave acidente

Sandra era bastante feliz em seu casamento 
com Guilhermo
Foto: Getty Images

Iva me olhava com aqueles olhinhos verdes tão lindos. Lembro-me da primeira vez em que a amamentei. Doeu um bocado, fiquei até meio assustada. Pudera, eu era completamente inocente. Não sabia de nada da vida. Guillermo também. Aliás, o pai da minha menina era o responsável pela maravilhosa cor dos olhos dela. Agora, passados três meses do parto, eu contemplava minha pequena em seu berço. Seus bracinhos rechonchudos e todas aquelas dobrinhas, ressaltando sua pele rosada, me davam uma felicidade sem igual. A maternidade realmente era um dom.

“Vou jantar na casa da minha mãe. Tem certeza de que não quer ir?”, perguntou meu marido, já cansado de saber que eu e minha sogra não nós dávamos muito bem desde o dia em que comuniquei à família a minha gravidez. Sorri e o abracei. O cheiro de sua colônia pós-barba me acendeu. “Sandrinha, minha pequena”, falou, enquanto alisava meus cabelos e procurava meus lábios com sua boca bem torneada. “Adoro seu queixo, sabia?”, comentei, olhando atentamente para aquela covinha do rosto de meu homem.

Ele sorriu e me apertou mais forte. De repente, os dois tivemos a mesma ideia. Olhamos para o berço e Iva dormia que era uma beleza. Saímos mansamente do quarto dela e fomos para o nosso. De tão eufóricos, mal tivemos tempo de tirar a roupa. Guillermo não era um homem magro. Logo que terminou a faculdade, sei lá por que cargas d’água, começou a engordar. Ganhou uns bons quilos. E longe da sua nova forma me incomodar. Ao contrário: gostava de ver aqueles pneuzinhos disfarçados por baixo de suas camisas escuras, as preferidas.

Mesmo depois do nascimento de nossa herdeira, o sexo não se tornou algo convencional. Ele continuava muito gostosão. Conhecia meus pontos fracos, todos eles. Havia descoberto com meu marido o que era um orgasmo. Era espantoso! Nem precisava que ele me penetrasse: o danado conseguia me levar às nuvens apenas me bolinando com seus dedos grossos e peludos.

Foi com Guillermo que perdi minha virgindade. Isso mesmo. Confesso que já tinha deixado uns namoradinhos me tocarem antes, mas jamais havia sido possuída por outro que não fosse ele. “Sandrinha, vou gozar…e você?”, perguntou ele, ofegante, como fazia todas as vezes que íamos para a cama. Nossos gemidos altos se confundiram com o berreiro de Iva, que havia acabado de acordar. Demos uma gargalhada, tomamos uma ducha rápida e corri para pegá-la. Bastou que a embalasse um pouco para que retomasse o sono. Pela janela da sala, fiquei olhando meu doce Guillermo sair e fui ver a novela das oito. “Gui, como eu te amo!”, não cansava de repetir, naquela fria noite de inverno em São Paulo.

Na rua, um silêncio enorme. Nenhum carro passava, ninguém falava, nada. Tudo estava tão quieto… Fui em direção ao quarto de Iva e ela continuava dormindo. Vez por outra, seus olhinhos se movimentavam sob as pálpebras. “Deve estar sonhando”, deduzi, tentando imaginar com o que um bebê sonha. Quando ia preparar um chá, o telefone tocou. “Aposto que é a Adriana querendo contar uma fofoca…”, resmunguei, pensando na minha grande amiga, enquanto ia até a mesinha de centro da sala.

Atendi o telefone. A ligação estava muito ruim, quase não se escutava direito. Muitos ruídos. “Alô, você pode repetir, pois não estou ouvindo bem…”, repeti, ansiosa. “O sr. Guillermo é seu marido?”, perguntou alto uma voz masculina e rouca do outro lado da linha. “Sim?”, respondi, desconfiada. “Ele acaba de sofrer um acidente… É melhor a senhora vir até o Hospital das Clínicas. Ele está inconsciente!”, disse o desconhecido, ouvindo-se um som de sirene de ambulância ao fundo.