Areias ardentes

Fabiana vê um jovem maltratar a namorada que engravidou. Ela tem um caso com Marcus Vinícius e a camisinha estoura.

Ilustração: Dreamstime

Como acontecia todo verão, a Praia das Roseiras estava cheia — o que era ótimo para mim! Há um mês arrendara e vinha reformando um quiosque naquele paraíso que, agora, virava point de brasileiros e gringos. Divorciada e sem filhos, agarrei a chance de virar minha própria chefe à beira-mar. Era meu primeiro verão ali e, pela areia lotada, seria o melhor da minha vida.

“Tia, dá uma soda?”, pediu uma menininha ruiva e sardenta. Pelo sotaque, não era dali. “Pode me chamar de Fabi”, devolvi, simpática, após servi-la e observá-la voltar ao seu grupo — oito pessoas com cara de bem-nascidas.

Enquanto meu primeiro dia de dona de quiosque começava, deixei tudo organizadinho. Arrumei todas as cervejas e bebidas no freezer, preparei os peixes e salgados para serem fritos e separei os ingredientes dos sanduíches para não perder tempo nos momentos de pico.

Afinal, se aquele negócio não desse certo, eu estaria tão frita quanto a lula que serviria mais tarde! Havia investido ali todo o dinheirinho de uma rescisão de um antigo emprego de secretária. “Fabiana, você ficou maluca? Pôr toda a sua grana numa barraca de praia?!”, comentavam alguns colegas enxeridos. Apesar dos desestímulos, prossegui, certa de fazer a coisa certa.

Um detalhe importante me dava essa certeza: não tinha concorrência. Como o lugar estava começando a virar febre, poucos se arriscavam a montar algo lá. Preferiam os arredores, onde a clientela fiel afastava riscos de falência. Sentia-me pioneira! “Deus, preciso conseguir…”, repetia, ansiosa pelos meus primeiros clientes.

“Porrr favooor, biér”, disse, de repente, um senhor grande, loiro, de olhos azuis. Por um momento, não entendi o que dizia e ele repetiu: “Cerveza”. “Ah, cerveja!”, respondi, sorridente. Pelo boné com a bandeira dos Estados Unidos, deduzi que era americano. Entreguei-lhe três garrafas geladinhas, acondicionadas em embalagens de isopor. Ele deu dinheiro a mais. Quando fui devolver o troco, já havia ido embora. “Minha primeira caixinha”, vibrei.

Não tardou para os amigos do forasteiro virem pegar mais “cervezas”. Notei que alguns me olhavam diferente e não entendia o porquê. Não estava de biquíni nem com roupa chamativa. Pelo contrário: usava um avental branco discreto sobre uma camiseta básica.

“Leeenda morena, hein?!”, murmurou um rapaz loiro, ao me entregar o dinheiro de outro lote de cervejas. Achei bom ser elogiada por um estranho e retribui com um sorriso.

Então, o grupo dos estrangeiros aumentou com a chegada de seis morenas deslumbrantes. Elas exibiam biquínis quase invisíveis. Mal consegui entender como aqueles minúsculos pedaços de tecido podiam conter suas voluptuosas formas. Cada gringo “escolheu” sua garota para namorar na areia.

Poderia achar tudo aquilo sensual, se não notasse o olhar triste de uma delas. Apesar de retribuir os beijos de um ricaço 20 vezes mais velho do que ela, a criatura vez ou outra me lançava um olhar cansado, desesperado… Quase um pedido de socorro!

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