Desfile de emoções – conto de Amor e Sexo

Lívia, uma linda garota do interior de Santa Catarina, sonha em ser modelo e parte para São Paulo depois de mentir para a família

Frederico só queria saber de saciar
seu desejo com Lívia
Foto: Getty Images

Macilândia. Você já tinha ouvido falar na minha cidade? Provavelmente não! Apenas os 10 mil habitantes daqui conhecem bem estas terras repletas de macieiras (daí o nome) e gado. Foi aqui, nesta cidade, no Sul do Brasil, que nasci. Eu e meus seis irmãos. Nossa família sempre viveu na roça. Os meus bisavós eram alemães e todos nós somos loiros e temos sardas no rosto. Mas, apesar da ascendência europeia, levávamos uma vida de quase escravidão. Muito trabalho na roça e pouco dinheiro no bolso. Aos 18 anos, não tinha ânimo nem para estudar. Assim como minhas outras irmãs, passava o dia cuidando da casa e preparando marmitas para os trabalhadores da região. No meu mundinho tão simples, só uma coisa de fato me empolgava: as modelos.

Eu tinha várias revistas cheias de fotos daquelas top models desfilando em cidades europeias para estilistas com nomes que eu não conseguia pronunciar. Elas eram lindas e altas. Altura eu também tinha, mas era essa a única coincidência entre mim e aquelas moças. Antes de dormir, ficava desfilando na frente do espelho com um livro na cabeça. “Apaga a luz, a gente quer dormir!”, gritava minha irmã. “Lívia, pára de ficar sonhando com essas coisas e pensa no nosso casamento”, costumava brincar Frederico, meu namorado desde os 14 anos. Para ele, eu era maluca. O loiro gostava de mim, mas me achava doidinha, doidinha.

Quando a gente dormia junto, me pedia para desfilar nua. Ficava passando ao redor da cama. Corpo esguio, barriga para dentro, braços retos e olhar altivo. “Vem logo minha gostosa!”, sussurrava o polaco. Eu continuava circulando ao redor da cama e isso o irritava. “Benzinho, você já andou o suficiente… agora vem cá”, dizia. Eu me deitava ao lado dele e deixava os pensamentos voarem. Enquanto Frederico subia sobre meu corpo e apertava meus seios, me imaginava provando uma roupa de algum costureiro famoso.

Meu homem abria minhas pernas longas e finas e me penetrava sem o menor romantismo: queria se saciar e nada mais. Meus sonhos, minha ambição… nada importava. Tudo o que Frederico realmente desejava era meu corpo. Quando seu gozo vinha e me lambuzava, ele virava para o lado e dormia. Eu não. Mas nem fazia tanta diferença. Enquanto tomava meu banho, me olhava no espelho, fazendo pose. “Naomi Campbell, Cindy Crawford, Kate Moss… me aguardem”, brincava enquanto jogava meus cabelos molhados para cima e para baixo. Passei uma semana pensando em como poderia tentar minha carreira de modelo.

Ali na cidade, eles nem sabiam o que era isso. Teria que ir para outro lugar. No almoço de domingo, me sentei frente a frente com meus pais. “Lembram da Flávia, aquela minha amiga de São Paulo?”, disse, entre uma garfada e outra de arroz e feijão. Antes que eles dissessem que não, continuei: “Ela me mandou uma carta. Disse que precisam de moças para fazer testes para um comercial”, falei, com tanto entusiasmo que a mentira virou um fato.

Dona Isaura e o senhor Ângelo se olharam. Fui até o quarto e peguei a suposta carta, feita com minha própria letra. Entreguei a eles. “Esse negócio não é sem-vergonhice, não, é?”, perguntou meu pai. “Não, e só uma semana. E vou ficar na casa da família dela”, menti. Os dois acenaram positivamente. “Mas volta em uma semana!”, falou papai. Eu agradeci e peguei o telefone. Disquei qualquer número. “Flávia, eles deixaram… Sim, vou ficar na sua casa, sim… Espero que eu consiga o emprego… obrigada…!”, falei, fingindo que alguém me ouvia do outro lado.

Com todo aquele teatro, não tive dificuldades para partir da rodoviária de Guaripé. Enquanto acenava para um namorado desconfiado e uma família enganada, carregava uma bolsa com pouco dinheiro e muitos sonhos.

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