Meus dias de Cleópatra – conto de Amor e Sexo

De surpresa, surge um convite para que a professora de dança Laylla se apresente num cruzeiro que seguirá para o Egito. Empolgada, ela aceita e embarca

Laylla estava entediada com o trabalho e acabara de se separar do marido
Foto: Getty Images

Fabrício não me procurava há muito tempo. Nosso casamento de dez anos havia se tornado um evento burocrático, apenas isso. Ele não me queria mais, nem eu a ele. Na verdade, havia até tentado reacender a tal chama da nossa paixão, mas não consegui bons resultados. Nossa rotina era chata, monótona e irritante. Ele trabalhava como advogado numa grande empresa em São Paulo e eu dava aulas de dança numa escolinha do bairro. Cabia a Fabrício pagar a maior parte das contas de casa, mas eu fazia questão de pagar algumas despesas também. Nos poucos momentos em que podíamos ter alguma intimidade, nada acontecia. Ele ficava no computador, eu lia livros. Sexo? Nunca!

“Laylla, você será sempre minha amada”, disse no dia em que nos casamos. Lembro muito bem daquele sábado de maio. Seu rosto suado de tanto nervosismo, a gravata-borboleta levemente torta e o smoking alugado amassado. Tudo parece muito charmoso quando se está apaixonada por um homem. Ah, essas lembranças agora soavam tão tristes. Nada havia restado entre nós, só o rancor da separação.

“Pode levar esses livros se você quiser!”, me disse no dia em que estávamos empacotando as coisas. Fabrício ia para casa de um amigo de faculdade. Eu para a de minha mãe. O apartamento seria vendido e dividiríamos a grana. Não havia conflito nem disputa por nada. Tudo era morno, frio e triste. Nem energia para brigarmos por algum bem existia.

Voltar a morar com minha mãe foi até reconfortante. “Laylla, logo, logo, você encontra um marido novo. Está cheio de homem bom neste mundo…”, me consolou dona Laura assim que viu a filha entrar de mala e cuia no velho sobrado da família. Eu sorri. Não sabia se queria um “novo marido” ou se iria optar por ficar sozinha para o resto da vida. Neste momento, queria só relaxar e tentar apagar os resquícios de meu fracasso matrimonial.

No trabalho, vivia uma fase parecida. Gostava de minhas alunas, o salário era razoável e, vez ou outra, ouvia algum elogio das donas da escola. Mas, assim como o casamento, minha rotina ali despencava aos poucos para o mais puro tédio. Confesso que, muitas vezes, cheguei em casa após o trabalho sem vontade de voltar no dia seguinte.

Foi por causa disso tudo que sorri quando desliguei aquele telefonema na manhã de quarta-feira. “Mãe, acabei de receber um convite de trabalho muito maluco”, ri. Dona Laura se surpreendeu com minha euforia repentina. “Uma agência de viagens da mãe de uma ex-aluna me chamou para trabalhar como dançarina num cruzeiro internacional. Querem que eu participe de shows de dança do ventre!”, falei, excitada com a idéia.

Mamãe quase surtou: filha única, solta num cruzeiro em outro país e se apresentando em shows de dança do ventre?! Mesmo assim, fui à entrevista. Nunca tomei uma atitude de forma tão radical. Em dois dias, já havia pedido demissão da escola e arranjado toda a documentação para viajar. Duas semanas se passaram até que eu, solteira e cheia de sonhos, entrasse naquele enorme navio no porto de Santos rumo ao Oriente Médio.